as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Mapa para o lado freak

Queime, Hollywood! O pesadelo brilhante e mais do lado freak de Cronenberg.


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Eu não assisti a “Cosmópolis” (Cosmopolis, 2012). Portanto, não sei se “Mapas para as Estrelas” (Maps to the Stars, 2014) é uma volta do lado freak de David Cronenberg ou ele apenas o deixou de lado em “Um Método Perigoso” (A Dangerous Method, 2011). À época, foi dito que “Um Método” era o filme mais asséptico do diretor canadense. Mas creio que isso só demonstra a genialidade de Cronenberg. Apesar do seu estilo, demonstrou que pode ser igualmente competente sendo “limpo”. Ou talvez, ele pensasse que nosso inconsciente já fosse excêntrico o suficiente para por ainda mais esquisitice na tela. Que Freud e Jung o estudassem.

Falando em diretor canadense, esta foi a primeira vez em todas essas décadas que Cronenberg filmou nos Estados Unidos. E para um filme que faz uma crítica ao estilo hollywoodiano, condizente filmar um pouco na Tinseltown.

Atenção que a partir de agora os comentários podem conter spoilers. Pois bem, Mapas para as Estrelas realmente me parece a volta do Cronenberg freak. Os personagens são esquisitos, meio loucos ou psicopatas, cheios de problemas. Além disso, o lado freak também aparece na estética, nas interpretações, comportamento de personagens, em enquadramentos, no sangue jorrado, corpos danificados, mentes perturbadas.

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O filme é muito bom, porém, vejo algumas coisas que incomodam nesta produção. Há cortes estranhos, edições truncadas, soluções estranhas para certos plots. Tive essa mesma sensação com outro grande filme de Cronenberg, “Senhores do Crime” (Eastern Promises, 2007). Apesar de excelente, há soluções esquisitas para certos desfechos, como quando o personagem de Vincent Cassel está prestes a se livrar do bebê. Em Mapas, o desfecho para personagens de John Cusack e Olivia Williams, os Weiss, pareceu muito sem sentido. Eu diria estranho, mas o estranho faz sentido em Cronenberg. Aqui, não. Alguém entendeu aquilo? Ou eu sou o problema? A mãe realmente pega fogo? Como foi fácil arrancar o anel do dedo de Cusack, não?

Apesar de tudo, os atores estão perfeitos em seus personagens. E a escolha do ator também brinca com o personagem. Temos o personagem de John Cusack, um guru de celebridades que não consegue usar na vida pessoal os conselhos que dá aos pacientes. Ademais, suas decisões são feitas baseadas em não atrapalhar o lançamento do seu novo livro. Com sua nova cara engomada e visivelmente saída de uma plástica, o personagem cai bem a Cusack. E a personagem louca, ex-atriz mirim, com um irmão ator mirim e apaixonada por uma atriz que fez sucesso quando jovem de Mia Wasikowska nos remete ao seu personagem louco e infantil de “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010), de outro gênio do freak, Tim Burton. E apesar de ter se revelado um bom ator, como olhar para Robert Pattinson e não lembrar um pouco da blockbuster hollywoodiana Saga Crepúsculo?

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Li que Viggo Mortensen – que muito bem colaborou com Cronenberg outras vezes, e a atriz Rachel Weiz foram considerados para interpretar o casal Weiss do filme; mas tiveram conflito de agenda. Apesar de estes serem excelentes atores e das ótimas colaborações anteriores de Mortensen com Cronenberg, não vejo como escolhas melhores que os que acabaram fazendo o papel. Não vejo Viggo interpretando um cara como o guru obcecado com Hollywood. E ao contrário de Cusack, Viggo não deformou seu rosto com uma plástica ridícula. Bem como Olivia Williams está muito bem como a mãe louca e superprotetora. Não sei se a Weiz de verdade a superaria.

A personagem principal, vivida por Julianne Moore talvez seja a única que não lembre a atriz real. Moore parece ser uma atriz pé no chão, sem estrelismos hollywoodianos, muito embora, como excelente atriz que é, ela esteja incrivelmente convincente como uma louca, perturbada e decadente atriz. Contudo, difícil não fazer a ligação com o fato de ela ter ganhado o Oscar pela interpretação em “Para Sempre Alice” (Still Alice, 2014), produção do mesmo ano. Na minha singela opinião, a interpretação em Mapas tem muito mais fôlego, exige mais, demonstra mais o talento de Moore. Porém, Hollywood é Hollywood, a Academia é a Academia. O Oscar geralmente não inclui atuações incômodas. Por isso que não indicaram Jake Gyllenhaal por sua excelente atuação em “O Abutre” (Nightcrawler, 2014). O personagem é desprezível, por isso, incômodo.

Por fim, há uma libertação. Não sei se os freaks se libertam ou se o freak é expurgado dos personagens. Aqui, a intenção era fazer uma relação do poema “Liberdade”, do poeta francês Paul Éluard com esse fim. Mas alguém já o fez melhor que eu. O poema perpassa todo o filme, mas sua relação com os personagens não é óbvia. “Liberté” é a estrela invisível de Mapas. Confiram.

Imagens retiradas de 1, 2, 3.


Juliana Rosas

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