as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

O sistema, a tropa e a elite

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa/ Quem mais limpo se faz, tem mais carepa/ Com sua língua ao nobre o vil decepa/ O Velhaco maior sempre tem capa/Mostra o patife da nobreza o mapa/ Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa/ Quem menos falar pode, mais increpa/ Quem dinheiro tiver, pode ser Papa/ A flor baixa se inculca por Tulipa/ Bengala hoje na mão, ontem garlopa/ Mais isento se mostra, o que mais chupa/ Para a tropa do trapo vazio a tripa/ E mais não digo, porque a Musa topa/ Em apa, epa, ipa, opa, upa. (Gregório de Matos/1636-1696)


Brasilia_aerea_torredetv1304_4713.jpg

Há pouco, algum canal de tevê reprisou o filme brasileiro “Tropa de Elite 2”. Havia visto esse filme no cinema em 2010, quando foi lançado. Daí, havia cenas que não atinava ou lembrava. Ao final, foi impossível não fazer ligação com o atual momento político brasileiro.

Na última semana, o tema do programa televisivo do Observatório da Imprensa foi “Mídia Contra a Corrente”. Foi mostrado o quanto a imprensa inteira parece seguir um só curso, um pensamento único. Pensamento único que é repassado à internet e redes sociais, canais anteriormente tidos como o contraponto ou capazes de lutar contra essa corrente. Mas não foi bem assim que se sucedeu. Nossas redes sociais estão planejadas a mostrar quase somente o que nos é desejado, o que estamos de acordo, e não o outro lado. O mesmo acontece com a busca na internet e sites visitados.

No segundo Tropa de Elite, o Capitão Nascimento deixou o Bope e torna-se Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Com mais conhecimento, enxerga os problemas mais de perto. Com mais poder e influência, acha ter encontrado a solução para “foder com o sistema”, porém, vê que o buraco é mais embaixo. Vê que o ‘sistema’ se adapta. Assim como as pessoas, a corrupção, os corruptos, o dinheiro, as drogas, a favela. O sistema trabalha para se manter, se autossustentar. Já ouvi excelentes explicações de especialistas que o mesmo ocorre com o sistema capitalista. Ele foi construído para se autogerir e até para fazer o suposto oposto – o Estado – trabalhar para que este funcione a seu favor. É o que vemos em tempos de crise. E esse assunto vai longe.

Eu dei porrada em muita gente, botei muito político corrupto na cadeia, por causa do meu discurso, teve filho da puta que foi pra vala muito antes do que eu esperava. Foi a maior queima de arquivo da história do Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema continuava de pé. O sistema entrega a mão pra salvar o braço, o sistema se reorganiza, articula novos interesses, cria novas lideranças. Enquanto as condições de existência do sistema estiverem aí, ele vai resistir.”

tumblr_lkh7j6R1ve1qcb28oo1_500.jpg

Pois bem, o Capitão não consegue ferrar com o sistema corrupto. Para não ser engolido por ele, recorre ao Estado para ajudá-lo. Vai à Tribuna da Câmara contar tudo o que sabe. Não consegue explodir tudo, pois há infiltrações do ‘sistema’ no Estado, claro. Voltamos à velha metáfora. E vem a famosa cena final, sobrevoando Brasília:

Agora me responde uma coisa: quem você acha que sustenta tudo isso? (pausa) É... e custa caro. Muito caro. O sistema é muito maior do que eu pensava. Não é à toa que os traficantes, os policiais, os milicianos matam tanta gente nas favelas. Não é à toa que existem as favelas. Não é à toa que existe tanto escândalo em Brasília, que entra governo, sai governo e a corrupção continua. Para mudar as coisas, vai demorar muito tempo. O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente.”

Pois bem, caros. Não estou aqui para defender posição ou governo. Neste jogo, podemos ser apenas peões movidos pela disputa maior. Podemos estar sendo levados junto com a corrente. “Quem você acha que sustenta isso aí?” A pausa somos nós. Ou o que a consciência nos indicar. Para muitos, a culpa está apenas nos outros, no país. Assim, nos achamos super cidadãos em busca de justiça, ética, contra a corrupção, querendo dar golpes, mudar governo, ser “contra tudo que está aí”. Enquanto isso, outros vêm apenas para continuar com “tudo o que está aí” que hoje reclamamos.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/sociedade// @destaque, @obvious //Juliana Rosas