as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Antes da foto do arco-íris

The Case Against 8: uma reflexão de como uma luta contra o conservadorismo pode lá ter seus valores conservadores


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O documentário “Prop 8: O Casamento Gay em Julgamento” (The case against 8/2014), filmado ao longo de cinco anos, mostra a batalha judicial representada por dois casais homoafetivos contra a “Proposition 8”, emenda do estado americano da Califórnia que bania o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O filme é também um olhar dos bastidores desta batalha, focada especialmente nos dois casais escolhidos para representar o caso. Como ficou conhecido (mais ainda pela foto do arco-íris gerada para perfil no Facebook em comemoração ao caso) a Suprema Corte dos Estados Unidos tomou a primeira ação judicial federal de igualdade no casamento, incluindo para aqueles do mesmo sexo que desejam se casar.

Para deixar claro, eu não tenho nada contra casamento entre pessoas do mesmo sexo e acho uma vitória para a democracia e para estas pessoas. O pouco que eu tenho a dizer hoje aqui foi gerado por algumas reflexões pessoais. Coincidentemente, um dia antes de assistir ao filme, conversava com amigos sobre casamento. Casamento em geral, e, no caso, mesmo entre casais heterossexuais.

No grupo, havia pessoas que casaram e se divorciaram aqui no Brasil, outra que planejava casar com um estrangeiro e estava verificando os trâmites. E como tais trâmites diferem em cada país e como é complicado casar-se no Brasil. No caso, seria até mais fácil casar fora e validar depois do que casar com um estrangeiro no Brasil. Aí fiquei sabendo umas coisas absurdas que, honestamente, duvidei na hora. Desculpem a ignorância, mas, pelamor, no Brasil há que se publicar “proclamas de casamento”??! Ouvi até que há casos de publicação em diário oficial! Para no caso de haver oposição ao casamento alguém vir a público? Isso quando até a igreja católica aboliu a famosa frase “se alguém tem algo contra esta união, que fale agora ou se cale para sempre”. Fiquei passada, juro. Houve outras surpresas, mas vou deixar pra lá, por hora.

Mesmo antes de saber desses absurdos, nunca fui muito afeita a casamentos. E quando falo casamento, toda a simbologia, especialmente a civil, ao aspecto contratual. Por isso, nada mais genial que aquele tuíte que entrou para a história: “o cara q invento o casamento era mt loco tipo te amo tanto q quero envolver deus e o governo” (sic).

Via de regra, para os ocidentais e cristãos, casamento é algo sagrado, algo entre um homem e uma mulher. Para muitos, mesmo para os não-religiosos, é algo que igualmente pode ser considerado sagrado. Nos EUA então, para os mais conservadores, a instituição casamento é algo de outro nível.

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E é nessa vertente que vai o documentário. Os dois advogados à frente do caso são Ted Olson e David Boies, dois dos mais respeitados juristas americanos, que, anos antes, no processo que deu a presidência a George W. Bush, estavam em lados opostos. Foi o caso Bush versus Al Gore, que impediu a recontagem de votos nas eleições presidenciais americanas do ano 2000.

O caso é referido no filme, uma vez que David Boies, pelo contrário, era conhecido como democrata e liberal e Olsen, republicano e conservador, que deu aos EUA o mencionado presidente e, a princípio, ia de encontro a interesses que vários gays democratas defendiam. Porém, acontece que Olsen é um ferrenho defensor do casamento e o tem como um direito inalienável a qualquer pessoa. Como ele mesmo diz, “o casamento é um valor conservador”. O próprio já casou quatro vezes – fato não mencionado no filme.

Um valor. Um valor conservador. Um valor antigo e familiar. Uma instituição. Estes são, novamente, valores e palavras que percorrem o documentário. Não importando se são de pessoas do mesmo sexo. Os casais escolhidos são absolutamente normais. Duas mulheres, dois homens. As mulheres tem uma família de quatro filhos. Cada uma trazendo dois filhos de relações heterossexuais anteriores. Os filhos lidam muito bem com tudo e são defensores das mães. O casal de homens, mais jovens, não possuem filhos.

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Outro discurso perpetrado ao longo da produção é o fato de eles não quererem ser tratados como “cidadãos de segunda classe”. Querem os mesmos direitos que qualquer outro casal, de terem filhos a deixarem herança ao esposx, mas especialmente de ter o status de casamento que qualquer outro casal hetero tem.

Então eu saquei. Pois, a princípio, eu ficava imaginando por que cargas d’água alguém quer casar? Por que envolver Deus e Estado num assunto, a princípio, particular? Por que querer se igualar a casais conservadores? Eu ainda tenho minhas ressalvas ao casamento e sinto que o assunto, do modo como foi tratado no filme, revela valores tradicionalmente americanos, que são, em sua maioria, conservadores, não importando sua sexualidade. Veja o caso Caitlyn (antes Bruce) Jenner! Transexual e ainda conservadora e republicana, bem como o era antes da mudança de gênero.

Porém, da mesma maneira que não concordo em se negar tal direito a um cidadão pelo sexo e gênero, não vou, pessoalmente, querer negá-lo porque não concordo com os valores. Que casem, que descasem, assim como o fariam qualquer outra pessoa. Bom ou ruim, conservador ou não, neste caso em particular, não me cabe julgar. Afinal, eu penso assim do casamento porque tenho a liberdade de casar, ao contrário de muitos.

Como já comentou o historiador Leandro Karnal, há mulheres machistas, negros racistas, judeus antissemitas. E, neste caso, gays conservadores. Vemos no documentário afroamericanos sendo contra o casamento gay. Diariamente, vemos negros sendo machistas, conservadores, preconceituosos, anti-imigrantes, anti-islâmicos, etc. Ou seja, um mesmo grupo que ainda é considerado minoria, que sofreu e ainda sofre um preconceito do establishment, é capaz de ter acessos de preconceito. Pois é, o mundo empírico não é o storyboard da vida ideal. No entanto, nos julgamentos, os defensores da Proposition 8 não eram capazes de responder à questão: “Que mal faria à sociedade se casais gays pudessem se casar?”

Não podemos tomar os casos como regra e achar que não devem haver grupos específicos lutando por representação política. Como dizia Martin Luther King ao lutar pelo voto dos negros: se estes não votam, não haverá um representante a lutar por seus direitos. Não é sempre que um grupo lutará por outro. Eles devem se empoderar e lutar por direitos como qualquer outro. Empecilhos, sempre haverá. “Haters gonna hate”. A luta continua. E deve continuar. Como disse um dos advogados: “batalhas são ganhas porque lutamos por elas”.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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