as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Buarque/Kucinski: relatos de buscas

K e O Irmão Alemão, livros de Bernardo Kucinski e Chico Buarque, respectivamente, possuem algumas semelhanças: boa literatura, ficções baseadas na biografia dos seus autores, buscas fraternais envoltas na Ditadura Militar Brasileira. Além de ser um dos poucos trabalhos de literatura que ousam falar deste período do país.


photo-1447069387593-a5de0862481e.jpg

Há pouco mais de um ano, tive a sorte de comparecer a um bate papo de autores numa feira literária. Lá estava, entre outros, Bernardo Kucinski, numa mesa que debatia literatura e ditadura. Seu último lançamento em ficção havia sido “K. Relato de uma busca”, cuja história passa-se durante essa época sombria da história brasileira. É uma ficção, porém, baseada na vivência do próprio autor. Como consta em sua obra: “Tudo nesse livro é invenção, mas quase tudo aconteceu”.

Antes disso, eu tinha visto uma apresentação de Kucinski em 2014, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), com o mesmo livro e numa mesa também sobre a ditadura, uma conversa comovente que contou com a participação de um emocionado Marcelo Rubens Paiva. Algum tempo depois, ao ler “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras, 2014), não pude deixar de fazer conexão com a obra de Kucinski.

thumb.jpg

À época, o livro K era um lançamento recente da Cosac Naify, porém, tinha tido uma primeira edição em 2011, pela editora Expressão Popular. Quando fui assistir ao bate-papo com Kucinski, mesmo pela segunda vez, O Irmão Alemão ainda não havia sido lançado. Digo isso porque numa de suas falas, que mais chamou a atenção e gerou debate foi (mais ou menos assim): “Não há literatura sobre a época na Ditadura no Brasil. Não foi um tema debatido à exaustão. Não foi algo que gerou uma grande reflexão como fez o Holocausto. A Alemanha enfrentou este debate. O Brasil parece querer esconder essa época ainda hoje”.

c3b4c3a7c3b3-k_capa.jpg

Com O Irmão Alemão, desde o seu lançamento, o debate parece ter-se focado na história real do irmão alemão de Chico. Esta aí outra semelhança entre as obras: histórias reais “ficcionalizadas”. Ficção baseada na realidade ou a ainda chamada ficção autobiográfica. Biografias ficcionalizadas porque foram fatos vividos pelos autores que afetaram suas vidas profundamente. Pois bem, o caso do real irmão alemão, quase desconhecido até pelo próprio Chico Buarque, ganhou mais atenção. Porém a última obra do cantor/autor também fala da Ditadura. Esta é pano de fundo da história, outra parte de biografia ficcionalizada, uma vez que o ator de “A Banda” também foi acossado pela censura da época e fugiu para a Itália após saber que os militares poderiam persegui-lo.

2ago2014---o-jornalista-bernardo-kucinski-participa-da-mesa-memorias-do-carcere-50-anos-do-golpe-realizada-na-manha-deste-sabado-durante-o-quarto-dia-da-12-edicao-da-festa-literaria-1406999719289_956x500.jpg

Que eu me lembre, a palavra ditadura não é mencionada em O Irmão Alemão. Creio que também não o é em K. Não é escrita, não está dita em potencial. Mas além de pano de fundo, sua presença é bastante real para os personagens. Por escolha dos autores ou por vivência própria passada à ficção, a Ditadura de suas obras transparece como real, porém, quase não oficial, não dita, não reclamada, não gritada em voz alta. Assim foi a realidade. O Holocausto é assunto também difícil, porém, suas atrocidades são sabidas. O fato, reconhecido pelos países participantes.

o-CHICO-BUARQUE-facebook.jpg

Como escreve Bernardo Kucisnski, o fato acontecido no Brasil era um “sorvedouro de pessoas”. Pessoas desapareciam e nada era dito sobre elas. “Até os nazistas que reduziam suas vítimas a cinzas registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. (...) Não havia a agonia da incerteza; eram execuções em massas, não um sumidouro de pessoas” (p. 23)

N’O Irmão: “Antes da esquina estaca, rodopia, corre de volta pra cá, e é quando a fuzilaria se intensifica. Eu não gostaria de ver sua cara, e de fato não vejo porque explode antes que eu possa fechar os olhos. Quando os reabro vejo o rapaz que ainda foge, mas sem a cabeça, é um corpo sem cabeça que corre uns dez metros, botando sangue pelo pescoço, pela barriga e pelo cu, quando tomba não muito longe do pensionato”. (p. 99) O irmão alemão nos faz lembrar as atrocidades do Holocausto. O irmão brasileiro, da não dita ditadura. “E eu que nunca morri de amores por aquele irmão, eu que o teria trocado por um irmão alemão sem pestanejar, passei a me inquietar com a ameaça de ficar sem irmão nenhum”. (p. 160)

DSC05222.JPG

O Brasil parece não reconhecer oficialmente a Ditadura. Pelo menos, não seus atos e atrocidades. O país desejou que a Lei da Anistia absolvesse tudo e todos. Até os protestos recentes, era um obscuro período em que não se ousava falar. De sinistro a vergonhoso, de esquecido a celebrado. Com a decepção com governos de esquerda, o levante direitista quis reerguer até seus mais medonhos atos. A Ditadura passou a ser benquista por uma parte. Já imaginaram um alemão querendo a volta do nazismo? Que venha mais literatura sobre isso, pois anistiar não é esquecer. Que não nos esqueçamos nunca – dos desaparecimentos, atrocidades e injustiças. Devemos lembrar sempre, para que a história não se repita. “O povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. (frase atribuída tanto a Ernesto Che Guevara como Edmund Burke)


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Juliana Rosas