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Ora (direis) beijar estrelas!

Rafael Mendes

Professor, revisor, ator, dublador, versejador, amador, posto que professa, revisa, atua, dubla, verseja, ama

Ah, se ela soubesse – ou se eu pudesse: o "amor platônico" no mundo e nas artes

Um breve passeio pelo conceito de "amor platônico" como nós o conhecemos e através de canções da música brasileira do século XX, do cinema mundial do século XXI e outras formas de arte; a figura carnavalesca e platônica do Pierrô - e o que tudo isso afinal tem (ou não) a ver com Platão.

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I. A IMPIEDADE DO “AMOR PLATÔNICO” (ou A ESPERANÇA DE QUE A PARTE II SEJA MENOS DEPRESSIVA – NÃO SERÁ.)

“Amor platônico” é hoje uma expressão bastante popular e se refere a uma relação ideal, inatingível. Não se limita, entretanto, àquela sua paixão da adolescência, aquele(a) garoto(a) que você amava secretamente na época do colégio e que sequer reparava na sua existência – ou talvez reparasse, mas não notava toda a sua afeição, de proporções cósmicas – ou notava, mas preferia fingir que não. Mas é isso também; E quando você perceber o que significa chamar esta situação de “amor platônico”, vai ver como o caso é ainda mais dramático do que parecia naqueles idos tempos – e ainda bem que você não sabia disso, ou provavelmente já teria cometido o suicídio.

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“Platônico”, antes de tudo, é um termo genérico largamente utilizado para se referir a qualquer conceito ou pensamento atribuído a Platão e à doutrina filosófica por ele inaugurada. Até aí, nada de surpreendente, claro, mas já é o bastante pra fazer você começar a repensar “amor platônico”, expressão que nomeia uma situação muito específica, apesar de ser formada pelo nome de um dos sentimentos humanos mais universais e por uma caracterização tão abrangente que pode se relacionar a tudo que um determinado filósofo pensou.

Pois bem. A partir daí, temos que o principal – e mais afamado – conceito elaborado por Platão é a “Teoria das ideias”, segundo a qual haveria um mundo das ideias, onde tudo é perfeito e bem acabado, imutável; onde nada se deteriora, portanto; um mundo acima desta realidade em que vivemos, um mundo invisível aos olhos dos homens, e igualmente intangível. Tudo o que existe – nós, inclusive – seria apenas uma representação imperfeita do mundo das ideias, uma realidade virtual – uma imitação Made in Taiwan do real. Considerando o que chamamos “platônico” como sinônimo de “ideal”, pois referente ao mundo das ideias, misturamos criador e criatura; o homem passa a nomear o conceito por ele cunhado – uma simplificação nada incomum.

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Então, se chamamos um sentimento unilateral, aquele amor adolescente, de “platônico”, não estamos simplesmente dizendo que amamos sem sermos amados; estamos afirmando que o amor em sua forma plena é, para nós, algo absolutamente impossível de se realizar nesta esfera de existência, pois o “ideal” é, por definição, alguma coisa a que devemos constantemente aspirar e não poderemos jamais alcançar.

É a certeza impiedosa de que ela(e) não vai olhar para você com outros olhos – talvez com olho algum – nem hoje à noite, nem naquela festa no próximo sábado, sequer daqui a alguns anos e nem mesmo num futuro muito distante – daí que, pra não dizer que não resta esperança alguma, normalmente se acredita na possibilidade de realização na esfera do desconhecido – a morte. Afinal, “amor platônico” é, definitivamente, uma indiferença devastadora do mundo para com você; é a essência do não-amor – algo pior do que o “desamor”, o irmão siamês inoperável do “desprezo”.

Mesmo que admitamos a realização deste amor, sendo ele platônico, suas plenitude e perfeição continuam residindo no mundo das ideias; está, portanto, fatalmente destinado a decepcionar, desiludir, fracassar, naufragar.

O amor platônico é a implosão de um arranha-céu que nunca saiu da planta.

II. O COMPLEXO DE PIERRÔ (ou A MORTE DE TODA A ESPERANÇA)

Quando se trata de “platonismo amoroso” como o conhecemos, o Pierrô desponta como figura arquetípica do desapontamento constante, em contraposição ao fervor carnal do Arlequim – ambos faces opostas de um mesmo Carnaval. Estas figuras, provindas do teatro popular itinerante italiano do século XV, conhecido como commedia dell’arte, sintetizam o homem idealista e o homem materialista e sua relação com o mundo – uma mulher que é um mundo inteiro: a Colombina.

Nem um nem outro pode alcançá-la plenamente. Arlequim a possui no contato da pele e dos suores, mas não consegue lhe tocar a alma; Pierrô tem seu amor, mas não pode tocar o corpo. É a situação prática da peça-poema Cyrano de Bergerac (1897), do francês Edmond Rostand, na qual Cyrano, um homem de aparência fora dos padrões de beleza devido ao seu característico nariz avantajado, ajuda o belo jovem Christian de Neuvillette a cortejar sua prima Roxane, por quem também é secretamente apaixonado. Cyrano escreve para Roxane em nome de Christian, lhe ensina versos românticos e até fala por ele diretamente a ela, em uma das cenas mais famosas do drama, de modo que a jovem se apaixona pela imagem de um, mas pelas palavras do outro, sem saber.

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Como bom materialista/hedonista, o Arlequim, na verdade, se satisfaz no encontro das sensações físicas; sua grande tragédia é uma quarta-feira de cinzas – e esperar até a próxima Festa da Carne, que virá. Ao idealista, só resta viver do sonho e da imaginação, com o que ele se contenta, como afirma e reafirma continuamente o narrador-protagonista de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (2005), romance do brasileiro Marçal Aquino, como se o Pierrô sentisse um certo prazer em se lamentar e ser triste. Afinal, Pierrô nunca está triste; ele o É. Assim o sendo, ele também nunca não está triste – mas do mesmo modo, nunca está desesperado; não há por quê, não há iminência ou risco de algo mudar. Contudo, o ideal existe para ser buscado – e ele o busca. Mesmo sem esperança. A sina do Pierrô é procurar sua Colombina, tendo sempre a certeza do desencontro – pois a ela cabe o drama da tensão eterna, a opção inoptável (entre Arlequim ou Pierrô), na impossibilidade da sua plenitude – fusão do mundo material com o mundo das ideias.

Estes conceitos e personagens, alegorias precisas do que se entende, ao menos popularmente, por “platonismo”, foram natural e farsescamente assimilados pela cultura brasileira. A exemplo disso, temos o Pierrô pelo poeta modernista Menotti Del Picchia, na peça-poema Máscaras (1919):

PIERROT

Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo

eu tinha a sensação de estar sobre um abismo.

Não sei por que o olhar dessa estranha criatura

era cheio de horror...e cheio de doçura!

Eu desejava arder nessas chamas inquietas...

ARLEQUIM

Tendo o fim dos Pierrots?

PIERROT

Tendo o fim dos Poetas!

Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo...

ARLEQUIM

E beijaste-lhe a boca.

PIERROT, cismarento:

Não... Para que beijar? Para que ver, tristonho,

no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho...

Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios...

Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios,

esse beijo que morre assim como um gemido,

sem ter a sensação brutal de ser colhido...

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A recusa da carne para o Pierrô é inevitável ainda que haja o desejo, e a consequência é fatalmente o sofrer, como se vê na marchinha “Pierrô apaixonado” (1935), de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres. Dizem os compositores que

Um pierrô apaixonado

Que vivia só cantando

Por causa de uma colombina 

Acabou chorando, acabou chorando

...E o Pierrô não teria mesmo escolha. A regra é tão rigorosa que sobreviveu aos séculos e às décadas e foi se embrenhar nas barbas dos Los Hermanos em “Pierrot” (1999), alcançando os anos 00 deste século:

O pierrot apaixonado chora pelo amor da colombina 

E a sua sina é chorar a ilusão em vão, em vão

Apesar do halo de alegria que adorna a imagem do brasileiro e jamais o abandonou, o derrotismo pierrotista tanto se impregnou na nossa cultura popular que coexiste em tensão harmônica com toda a animação tropical à qual estamos acostumados. Basta ver que em “Garota de Ipanema” (1962), uma das canções mais conhecidas compostas pela dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, convivem a exaltação da “moça do corpo dourado / do sol de Ipanema”, em ritmo alegre e as lamentações de uma figura solitária: “Ah, por que estou tão sozinho? / Ah, por que tudo é tão triste?”.

Além de tudo, este espírito idealista de Pierrô não precisa sequer de referências diretas para ser identificado, como se vê no caso acima. Da mesma maneira, lá está a Colombina-Mundo sendo retratada por Cartola em “O mundo é um moinho” (1976), sem que se precise muito esforço pra provar ou confirmar isto:

Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho

Vai reduzir as ilusões a pó

Assim condenado ao amor platônico, por fim, talvez fosse melhor que o Pierrô se esquecesse disso tudo e seguisse mesmo o conselho da Colombina de Noel e Heitor, que sai do botequim embriagada, alheia aos homens e suas disputas,

Dizendo: “Pierrô, cacete!

Vai tomar sorvete com o arlequim!”

III. O PIERRÔ VAI AO CINEMA (SOZINHO)

Tal como o amor e Platão, este “Complexo de Pierrot” não se resume a Brasil, evidentemente; é universal. Outro nicho cultural muito disseminado que se apropria com frequência do conceito de “amor platônico” e da figura do Pierrot é o cinema internacional – que o tem feito com cada vez mais profundidade, em produções densas e poéticas.

Soa paradoxal, mas a modernidade e as inovações tecnológicas se tornaram um mote fortíssimo para profusão de sensibilidade poética das produções cinematográficas mais recentes – e não somente em termos de possibilidades de realização e produção dos filmes em si, mas sobretudo enquanto temática proporcionadora de tensões dramáticas.

Um caso que desponta, tanto como exemplo cabal quanto como em excelência artística, é o filme Her (2013), do diretor americano Spike Jonze, protagonizado por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, traduzido – equivocadamente – como “Ela”, no Brasil. Na obra, Theodore (Phoenix) é um homem recém-divorciado com dificuldades de lidar com a solidão em que se encontra. Ele adquire um sistema operacional (Johansson) dotado de inteligência artificial tão desenvolvida que é capaz de aprender e raciocinar como fosse uma pessoa. O S.O. (O.S., Operating System) de Theodore tem voz e personalidades femininas, características escolhidas por ele, e se chama Samantha, nome dado por ela mesma.

Ao longo da trama, Theodore e Samantha se apaixonam, de modo a configurar uma situação de “amor platônico” mais dramática do que aquela da sua adolescência: além de não possuir um corpo físico para ser tocado, esta mulher sequer apresenta uma representação imagética; Samantha é apenas uma voz que emana do computador e dos gadgets tecnológicos de Theodore. É possível considerar que Samantha nem mesmo exista realmente – exceto para Theodore.

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O casal inusitado supre como pode suas impossibilidades físicas, através de sons, canções, imagens e da constante companhia audiofônica, protagonizando algumas cenas de profunda ternura e outras de grande dualismo tragicômico. Theodore se afirma enquanto pierrô quando se recusa à tentativa insólita de Samantha de emular o encontro físico dos dois; o estranhamento da situação o faz aceitar sua condição de idealista. Este homem está, porém, envolvido num amor tão real quanto – ou talvez mais do que – qualquer um entre pessoas de carne e osso; quer se possa dizer ou não que Samantha existe, ele é absolutamente “dela” (razão porque “Her” estaria mal traduzido, a propósito). Todo espectador de Her é capaz de se sentir também um pouco Pierrô, pois enredado pela voz irresistível de Samantha/Scarlett, em deliciosa atuação.

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Caso similar é o da produção argentina Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, com Javier Drolas e Pilar López de Ayala. O subtítulo da versão nacional resume o tema: “Buenos Aires da Era do Amor Virtual”. Martín (Drolas) e Mariana (Ayala) vivem em prédios que dão de frente um para o outro e coexistem no mesmo espaço urbano e com a mesma indesejável solidão. Vivem passando um pelo outro, mas não se conhecem, isolados que estão em meio aos três milhões de habitantes de Buenos Aires. A certa altura, até se encontram virtualmente – mas não se conhecem. O filme todo se passa na corda bamba da tensão entre o desencontro “platônico” e a possibilidade de um encontro casual, gerando uma constante aflição no pobre espectador romântico.

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Tornamos, assim, às marchinhas brasileiras, com a “Máscara negra” (1967) de Zé Kéti (fazemos a ressalva da inversão de papéis entre Arlequim e Pierrô nesta canção):

Tanto riso, oh, quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

O Arlequim está chorando

Pelo amor da Colombina

No meio da multidão

Cruéis, cidades e tecnologias modernas, portanto, cooperam quase surrealmente para, a um só tempo, aproximar e separar milhões de amantes – a todo o tempo.

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IV. PRÊMIO DE CASTIGAÇÃO (ou PARABÉNS POR CHEGAR ATÉ AQUI)

Seja na poesia, no teatro, na canção ou no cinema, um fato se torna evidente: o “amor platônico” não é uma situação simplória, mas a condição que define relações inconcretizáveis – e homens pierrôs e mulheres pierretes como essencialmente condenados aos sonhos intangíveis. Assim, o “sofrer” se constitui como fundamento e finalidade fatal do amor de um pierrô; sem sofrimento, não há nada, nem razão para nada.

Em 1952, cantava Vicente Celestino, em “Ontem ao luar” (lembrando que o Pierrô caracteriza-se por ser “branco como o luar”, tal qual no livro Pierrot lunaire (1884), do poeta simbolista belga Albert Giraud):

É mister sofrer

Para se saber

O que no peito

O coração

Não quer dizer

A despeito de tanto sofrimento trágico, Vinicius de Moraes e Baden Powell encerram a questão aceitando a dor como parte da vida e o amor platônico como condição de existência em “Consolação” (1966), concluindo que

Se não tivesse o amor

Se não tivesse essa dor 

E se não tivesse o sofrer

E se não tivesse o chorar

Melhor era tudo se acabar

Eis, portanto, a lição final de um Pierrô muito branco: “Antes viver de uma vez o sentimento do sim e a dor do quase do que morrer de não ou de talvez.”, ou ainda: “Sorvete com o Arlequim é o cacete.”.


Rafael Mendes

Professor, revisor, ator, dublador, versejador, amador, posto que professa, revisa, atua, dubla, verseja, ama.
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