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Ora (direis) beijar estrelas!

Rafael Mendes

Professor, revisor, ator, dublador, versejador, amador, posto que professa, revisa, atua, dubla, verseja, ama

A morte e as mortes dos imortais e a vida de um rapaz: Ivan, Ubaldo, Ariano e um rafael

As relações entre as principais obras dos imortais Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e a morte em si, as suas mortes e a vida de um leitor.


ariano-ivan-ubaldo.JPG Em 1959, Jorge Amado publicou uma novela chamada A morte e a morte de Quincas Berro D’água, na qual seu protagonista, citado no título, morre “duas vezes”: uma vez biologicamente, em casa, situação inicial da história, e outra vez miticamente, atirando-se ao mar em meio à tempestade. Jorge Amado, por sua vez, apesar de ter falecido biologicamente a 8 de agosto de 2002, é miticamente um imortal, não só pelo hábito de assim nos referirmos aos integrantes da Academia Brasileira de Letras, mas pela sobrevida que vive e viverá sempre através de Quincas, Gabriela, Seu Nacib, Tieta, Dona Flor (para ficar nos mais populares) e suas encarnações de papel, nos livros, e em carne-e-osso, na TV e nos palcos – processo que imortaliza outros artistas, como José Wilker, falecido este ano, que soube muito bem usar seu Coronel Jesuíno televisivo.

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Assim, fica evidente que para ser eterno, um bom artista independe do rótulo de “Imortal” que lhe poderia conferir uma ABL, desde que tenha a competência notável de imortalizar-se, como Jorge. Entretanto, se não fosse o timbre imponente da Academia, em termos mítico-artísticos, é bem verdade, uma série de imortais morreria duas vezes (que eles falecem biologicamente, sabemos desde Luís Guimarães Jr., um bom poeta e primeiro imortal a morrer, em maio de 1898, apenas 10 meses após a fundação da ABL).

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Guimarães Rosa era um que prescindiria da Academia para não morrer, como Vinicius de Moraes, como Carlos Drummond e tantos outros, e ainda, paradoxalmente, acreditava que integrar a ABL lhe traria uma emoção tão grande que acarretaria uma morte fulminante. Assim, depois de ter sido eleito por unanimidade em 1963, viveu quatro anos morrendo de medo, tempo pelo qual adiou sua cerimônia de posse. Então, a 19 de novembro de 1967, faleceu, acometido de um infarto – apenas três dias após proferir seu discurso de posse, no qual havia belas e intrigantes declarações, como “As pessoas não morrem, elas ficam encantadas”.

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Três imortais ficaram encantados neste julho de 2014 que acaba de passar (e preferi esperar passar para escrever este texto pela garantia de que a lista de encantados do mês cessaria), nos dias 3, 18 e 23. Além do curto espaço de tempo entre seus falecimentos, outros fatos impressionaram a este sujeito que aqui escreve, alguns que talvez somente para ele tenham relevância, outros nem tanto; todos, porém, dignos de mitologias.

Em 2011, época de conclusão do curso de bacharel em Letras, recebi do Ivan Junqueira, primeiro imortal encantado de julho, um presente inestimável, por intermédio do professor Antonio Carlos Secchin (outro dos que não morrem, a propósito): um manuscrito do soneto “Esse punhado de ossos que, na areia”, um dos poemas mais famosos de uma trajetória poética pouco conhecida do público em geral e tema de algumas atividades na oficina de poesia de Secchin na UFRJ. Segue o poema na íntegra:

Esse punhado de ossos que, na areia,

alveja e estala à luz do sol a pino

moveu-se outrora, esguio e bailarino,

como se move o sangue numa veia.

Moveu-se em vão, talvez, porque o destino

lhe foi hostil e, astuto, em sua teia

bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia

o que havia de raro e de mais fino.

Foram damas tais ossos, foram reis,

e príncipes e bispos e donzelas,

mas de todos a morte apenas fez

a tábua rasa do asco e das mazelas.

E aí, na areia anônima, eles moram.

Ninguém os escuta. Os ossos não choram.

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Soturno como diversos poemas de Junqueira, este trata da “areia anônima” que reúne igualmente os restos de todos os mortos, não importando quem foram quando vivos. O sol, a vida e tudo é indiferente a eles; “ninguém os escuta”. Foram esquecidos. Morreram. Considerando a perspectiva do poema, desde 3 de julho de 2014 que ninguém mais escuta (mas alguém ainda lê, e portanto lembra e imortaliza) Ivan Junqueira, sexto ocupante da cadeira 37 da ABL – a mesma de Getúlio Vargas, que protagonizou uma das mortes públicas (quase literalmente) mais dramáticas do país, quando, um dia, se despediu afirmando: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.” e tirou a própria vida, numa grandiloquência diametralmente oposta à discrição de Ivan.

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João Ubaldo Ribeiro tem, entre seus livros mais conhecidos, Viva o povo brasileiro (1984) e A casa dos budas ditosos (1999), entretanto, sua obra que, mesmo indiretamente, mais alcançou o público em geral foi o conto “O santo que não acreditava em Deus”, do livro Já podeis da pátria filhos e outras histórias (1991). Digo indiretamente porque sua popularidade se deve, realmente, pela livre adaptação feita sobre ele para o filme Deus é brasileiro (2002), de Cacá Diegues – que roteirizou em parceria com Ubaldo –, com Antonio Fagundes, Wagner Moura e Paloma Duarte. No conto original, Deus aparece em forma humana para um pescador e lhe pede ajuda para encontrar um tal Quinca das Mulas, que Ele queria transformar em santo – mesmo ciente do ateísmo do homem. Segue um trecho do conto, em que, encarnado como homem, Deus fala de suas questões divinas na própria linguagem informal dos homens:

[...] ah, você não sabe de nada, meu amigo, a situação de Deus não está boa. Você imagine como já é difícil ser santo, imagine ser Deus. Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas.

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(Resta a dúvida se, em julho passado, tanto na vida dos homens quanto no futebol, Deus não quis saber de nada ou se meteu demais.)

Cheguei a conhecer João Ubaldo pessoalmente após uma palestra do autor na própria ABL, em breve momento de tietagem (sim!) e pedido de autógrafo. O escritor falava sobre “Jorge Amado e a invenção do Brasil”. Com a voz grave, ele me cumprimentou e gentilmente concedeu a assinatura no livro que eu por acaso tinha em mãos, Os cem melhores contos brasileiros do século (2000, organização de Ítalo Moriconi), na página em que se inicia “O santo que não acreditava em Deus”, justa participação de Ubaldo nesta seleção. Isto ocorreu em 17 de julho de 2012 – portanto, quase que exatos dois anos antes do falecimento do autor, em 18 de julho de 2014.

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Ariano Suassuna foi o último dos três a falecer neste mês e o único que não cheguei a conhecer – algo que eu desejava profundamente desde a primeira vez que assisti à versão cinematográfica de O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes, com Matheus Nachtergaele e Selton Mello. Contudo, se nunca o vi, certa vez – e para sempre – o vivi, através de um seu personagem. Quem me conhece há algum tempo, sabe que um dia cometi uma encarnação teatral de João Grilo, em montagem amadora (e amante, apaixonada) da célebre peça de 1955, o que torna Suassuna, dos três artistas referidos (um do verso, outro da prosa e outro da dramaturgia, de modo que houve baixas nas três grandes frentes da luta com palavras), aquele cuja obra mais me tocou – e toca e vive, imortal, no sangue pulsante do vai-e-volta das memórias afetivas. Vale lembrar que uma das primeiras encenações do Auto foi justamente uma montagem amadora, no Festival de Amadores Nacionais, em 1957.

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Em 23 de julho de 2014, imortal como ele só, Ariano “cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre”, nas palavras do seu personagem Chicó (e foi uma morte meio história de Chicó mesmo, algo mítica ao menos nos noticiários ágeis e dinâmicos online, onde se divulgou sua morte, sua não-morte e enfim, a morte definitiva num intervalo de horas). Como partícipe deste “rebanho de condenados”, entretanto, Ariano tem direito de recorrer à grande advogada (que sempre terá para mim as feições da Fernanda Montenegro) no seu julgamento celestial, tal qual o esperto João Grilo, de quem o escritor pode tomar emprestado o seguinte apelo (que ainda hoje tenho de cor):

Valha-me Nossa Senhora,

Mãe de Deus de Nazaré!

A vaca mansa dá leite,

A braba dá quando quer.

A mansa dá sossegada,

A braba levanta o pé.

Já fui barco, fui navio,

Mas hoje sou escaler.

Já fui menino, fui homem,

Só me falta ser mulher.

Valha-me Nossa Senhora,

Mãe de Deus de Nazaré!

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Imortalizado o autor pelo personagem, fica também sendo imortal o ator, e o generoso Matheus sabe disso: “Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.”.

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Como se pode ver, todos estes homens miticamente imortais, ainda que mortos, deixaram vivíssimas obras – sendo que estas citadas têm em comum o fato de girarem em torno do encontro com a morte ou com o divino (atmosfera que se pode arejar lembrando também a lamentável perda do Rubem Alves, ainda em julho, que dentre outras coisas, refletia e escrevia sobre ensino e aprendizado, símbolos máximos do que seja a vida e o encontro com a vida). Ivan sugere, na verdade, o encontro entre todos os ossos – e destes com o vazio do esquecimento na morte. No conto de Ubaldo, não há morte, mas há o contato direto com Deus, que queria levar consigo um homem diretamente aos céus – e ainda, na versão cinematográfica, já no início, o protagonista, num sonho, pensa estar morto e recorre à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, aqui com cara de Paloma Duarte, cuja personagem, ao fim do filme, tem uma atitude digna das espertezas de João Grilo.

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Se Ubaldo traz o Pai ao encontro dos homens, Suassuna traz o Filho, ambos compensando a falta que um santo espírito reconfortante no pós-vida faz no poema de Ivan, e o fazem com o jeito, os trejeitos, a linguagem e o espírito do povo brasileiro – e sempre do povo mais humilde, ignorante das burocracias, das altas culturas dos homens e das complexidades dogmáticas da Igreja (João Grilo acha confuso Jesus ser deus e homem a um só tempo, e o protagonista de Ubaldo, em suas reflexões, afirma que Deus é “carpina por profissão”, quando, na verdade, carpinteiro era a ofício de Cristo); mas do povo de fé mais simples, ingênua e genuína. Esta fé, sim, é imortal e mítica, bem como Ivan, Ubaldo, Ariano, Rubem (este último, não acadêmico), que se estão mortos, é por um detalhe biológico que não convém lembrar agora; antes de se tornarem punhados de ossos, deixaram seus vivas ao povo brasileiro e são imortais e pronto, estão é encantados, e não é por causa de Academia nenhuma não, mas não me peça um porquê mais bem explicadinho que eu não sei, só sei que foi assim.

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Como temos sempre esse mau hábito de exaltar os grandes homens somente depois de mortos e só imediatamente após suas mortes, fica expressa esta múltipla homenagem quando o jornais já se esqueceram (mas ainda até muito recente), concluída na linguagem informal dos homens, pela fala imortal do Deus de Ubaldo, e imortalizada na voz do homem Antônio Fagundes:

Por que que só quando cês perdem as coisas começam a achar que era bom?


Rafael Mendes

Professor, revisor, ator, dublador, versejador, amador, posto que professa, revisa, atua, dubla, verseja, ama.
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