astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Seria Joker, em A piada mortal, um legado de Lautréamont?

Joker é, talvez, o vilão de HQ mais popular que já existiu. Depois de um dia ruim, torna-se quem é: um niilista ressentido por ter sido o homem que não fazia rir. Logo após, “o sorriso antigo é substituído pelo riso de uma boca de contornos nítidos, imagem de um humor furioso e rosnante”, exatamente como em Os cantos de Maldoror (1868), autoria de Lautréamont. Seria Joker, então, um legado de Lautréamont?


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Tendo efetivamente surgido como elemento literário com o homem subterrâneo e seu solilóquio em Notas do Subsolo ou com o pactário Fausto (Historia von dr. Johann Fausten), o anti-herói ganha espaço na literatura e influencia um dos principais arquétipos de tal arte. Desde então, o homem perplexo com sua impotência de lidar com a realidade ao seu redor, ou o anti-exemplo de homem de bem, é personagem principal de diversas obras artísticas.

Lautréamont, pseudônimo de Isidore Lucien Ducasse, poeta nascido no Uruguai, teve como obra principal Les chants de Maldoror (Os cantos de Maldoror), texto com 70 estrofes que se organizam em torno das contradições de um "coração de criança que se volta contra a criação e contra si mesmo". Um canto à violência e encarnação pura do mal, que consagra a poesia revoltada e surreal, deixado ao esquecimento até que surrealistas como Breton, em 1920, vieram reclamar seu lugar às trevas. Segundo os cantos de Maldoror, devemos “atacar, por todos os meios, o homem, esse animal selvagem, e o criador”. Sim, o criador. Em Maldoror, Deus ainda não está morto, mas é posto em um “trono feito de excrementos humanos e de ouro”, residindo em sua poesia um movimento perpétuo da revolta niilista. Ele renega a tudo e todos “pai, mãe, providência, amor, ideal”, possuindo um rosto “mais do que humano, triste como o universo, belo como o suicídio”. Torturado pelo orgulho e pelos dias ruins, esse anti-herói possui um ressentimento alegórico que não cabe em si mesmo. Les chants louvam a santidade do crime, com a estrofe 20 do canto pode se perceber a própria pedagogia do crime, com uma espécie de Man Bites Dog em versos. “Ele não quis construir uma imagem espetacular do rebelde ou do dândi diante da criação, mas sim confundir o homem e o mundo na mesma aniquilação” diz Camus.

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Enquanto lemos Os cantos de Maldoror, imagem de Joker vem à mente, não há como não ligá-los. Lembremos que em A piada mortal, de Alan Moore, Joker torna-se quem é por um dia ruim. Jeannie, sua esposa, é encontrada morta, grávida. As coisas já não iam bem e, ainda na mesma noite, uma série de desgraças acontecem. Depois de tantos acontecimentos, o homem de humor doentio e ações niilistas nasce, ou mostra-se, destronando qualquer criatura, confundindo até mesmo sua história, ressentido por ter sido o homem que não fazia rir.

Em Les chants e A piada mortal vemos metamorfoses em que o “sorriso antigo é substituído pelo riso de uma boca de contornos nítidos, imagem de um humor furioso e rosnante” numa vontade de aniquilação que tem sua origem no âmago mais obscuro da revolta, do ressentimento.

A revolta tem seus serviçais, mas não reconhece neles os seus filhos legítimos. Diz Camus em O homem revoltado. Talvez, no fim das contas, Joker não seja filho legítimo de Lautréamont, assim como Lautréamont não é filho legítimo de Sade. É provável que Joker seja apenas um Frankenstein construído pela sociedade, construção essa que a renega e questiona porque todos estão tão sérios.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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