
Com o homem subterrâneo e seu solilóquio em Notas do Subsolo (1864) , de Dostoiévski, o anti-herói ganha espaço na literatura e influencia um dos seus principais arquétipos. Desde então, o homem perplexo com sua impotência de lidar com a realidade ao seu redor ou o anti-exemplo de homem de bem, de moral e honra é personagem principal de diversar obras artísticas, não apenas da literatura.
Lautréamont, pseudônimo de Isidore Lucien Ducasse, poeta nascido no Uruguai, teve como obra principal Les chants de Maldoror (Os cantos de Maldoror), texto com 70 estrofes que organizam-se em torno das contradições de um coração de criança que se volta contra a criação e contra si mesmo. É um blasfemo inaugurando a poesia revoltada e surreal. Um canto à violência e encarnação pura do mal, deixado ao esquecimento até que surrealistas como André Breton, em 1920, vieram reclamar como seu antecedente. Segundo os cantos de Maldoror, devemos “atacar, por todos os meios, o homem, esse animal selvagem, e o criador”. Sim, o criador. Em Lautréamont deus ainda não está morto, mas é destronado, sendo colocado em um “trono feito de excrementos humanos e de ouro” não deixando de residir em sua poesia um movimento perpétuo da revolta niilista. Ele renega a tudo e todos “pai, mãe, providência, amor, ideal” possuindo seu rosto “mais do que humano, triste como o universo, belo como o suicídio”. Torturado pelo orgulho e pelos dias ruins, esse anti-herói possui um ressentimento alegórico que não cabe em si mesmo. Os chants louvam a santidade do crime, com a estrofe 20 do canto pode se perceber a própria pedagogia do crime, com uma série de crimes gloriosos. “Ele não quis construir uma imagem espetacular do rebelde ou do dândi diante da criação, mas sim confundir o homem e o mundo na mesma aniquilação” diz Camus.
Enquanto lemos Os cantos de Maldoror, imagem de Joker vem a mente, não há como não ligá-los. Em A piada mortal, de Alan Moore, Joker torna-se quem é por um dia ruim. Jeannie, sua esposa, é assassinada, grávida. As coisas já não iam bem e, ainda na mesma noite, uma série de desgraças acontecem. Depois disso, o homem de humor doentio e ações niilistas nasce, ou mostra-se. Destronando qualquer criatura, confundindo até mesmo sua história, ressentido por ter sido o homem que não fazia rir.
Os chants e Joker seriam metamorfoses, em que o “sorriso antigo é substituído pelo riso de uma boca de contornos nítidos, imagem de um humor furioso e rosnante.” A piada mortal, esse “bestiário”, não consegue esconder todos os sentidos que se quis encontrar, mas revela no arquiinimigo do Batman, pelo menos, uma vontade de aniquilação que tem sua origem no âmago mais obscuro da revolta, do ressentimento.
A revolta tem seus serviçais, mas não reconhece neles os seus filhos legítimos. Talvez, no fim das contas, Joker não seja filho legítimo de Lautréamont, assim como Lautréamont não é filho legítimo de Sade. Provavelmente, Joker é apenas um Frankenstein construído pela sociedade, que os renega e questiona porque todos estão tão sérios.
Comentários
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Emerson
Olá Myilena!
Muito bom seu texto, eu não conhecia lautréamont, mas a comparação se faz oportuna.
Joker é o maior vilão dos quadrinhos sem dúvida e atuação de Heath Ledger imortalizou o piadista no cinema também.
Escrevi em meu blog sobre o filme, seria uma honra se desse sua opinião:
http://ocinematografo.blogspot.com.br/
Abraço
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