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Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Brás Cubas e Ivan Ilitch: a morte, o sentido da vida e o pessimismo.

em Literatura por em 02 de set de 2012 às 05:14 | 1 comentário

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, são obras de terras completamente distantes uma da outra, mas algo as perpassa: o tema da morte, a visão crítica quanto ao mundo e a tentativa de buscar o sentido de suas existências. Ao narrar suas vidas, tenha sido monótona ou agitada, os personagens principais se deparam com o pessimismo. "Não tinha mais medo, porque também a Morte desaparecera de sua frente. Em lugar dela, via luz. 'Então é isso!', exclamou de repente em voz alta. 'Que alegria!'"

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Dedicado ao verme que primeiro roeu a fria carne do cadáver de Brás Cubas, suas Memórias Póstumas (1880) interessa-nos não por sua causa mortis, tampouco pelos relacionamentos amorosos, mas pela narração. Após sua morte, Brás Cubas decide que será um defunto-autor e inicia sua desdenhosa narrativa sobre a sociedade hipócrita em que vivia. Os comportamentos individuais e sociais não escapam à sua percepção implacável nesta obra de Machado de Assis.

Em A morte de Ivan Ilitch (1889), de Tolstói , o juiz de vida estabilizada desestabiliza-se emocionalmente quando percebe que está à beira da morte. Monólogos e pensamentos melancólicos preenchem a obra. Ivan compreende que vive repleto de futilidade e questiona, antes de Camus, a vida, a moral e a condição humana.

Os dois tiveram amores por dinheiro. Brás Cubas saia com prostitutas de luxo e apaixonou-se ardentemente por Marcela, que o amou por quinze meses e onze contos de réis. Ivan Ilitch Golovin casou-se com Fiodorovna, pois pertencia a uma excelente família, não era feia e tinha uma pequena fortuna.
Cioran, filósofo romeno, diz que “o pessimista deve inventar a cada dia novas razões de existir: é uma vítima do 'sentido' da vida”. Que Ivan Ilitch não encontrava mais sentido na sua existência, na sua presença entre hipócrita, e no reconhecimento de suas hipocrisias, nós já sabemos. Brás Cubas diz firmemente “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Provavelmente, não estava em busca do sentido da vida de uma forma que pudesse fazê-lo sentir vontade de voltar a viver. Morto ele estava completamente livre. Mas, certamente, podemos dizer que ambos são pessimistas. De formas diferentes, Brás Cubas e Ivan Ilitch foram vítimas do sentido da vida, ainda que apenas quando a morte mostrou-se tão próxima.
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Buscar e finalmente obter o sentido da vida é algo peculiar. O juiz Ilitch foi um homem que não atentou para a liberdade de fazer seu próprio destino. Sem pestanejar, fez o que lhe disseram que deveria ser feito e pronto. “Não era um adulador, nem quando menino, nem quando homem feito, porém, desde a infância, sentira-se naturalmente atraído pelas pessoas que ocupavam posição elevada na sociedade, tal como mariposas pela luz, e assimilava-lhes as maneiras e as opiniões, forçando ainda relações amistosas com elas”. Brás Cubas, que havia sido “menino diabo” foi a vida toda mimado, boêmio, mas diferente de Ivan, não alcançou aos status esbelecidos. Os protagonistas das duas obras parecem deparar-se com uma realidade insuportável: viveram em busca de valores inexistentes que sequer tranquilizam-os quando moribundos.

Defrontamo-nos, então, com a morte. Literariamente.

Se Tânatos, neto do Caos, nos promove inúmeros questionamentos acerca da nossa existência ou nos provoca libertação às amarras que podemos ter durante nossa vida, talvez saibamos um dia. Quanto ao sentido da vida, essa busca incessável pelas sustentação diária que faz parte da vida de alguns, que nunca passa pela mente de outros, posso assegurar: não faço a mínima ideia.

 

Artigo da autoria de Myilena Queiroz.
"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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Comentários

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Já me considero suspeito para elogiar o texto. Me parece que sem fé, os personagens moribundos ou defuntos são dilacerados pelo mal e pouco frutíferos, inclusive, literariamente. Porém, a melancolia, além de ser uma nostalgia da saúde em sua plenitude, alimenta um romantismo esteticamente arrebatador. Nisso reside a autoridade do moribundo. Autoridade todos nós já possuímos em processo de germinação.

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