astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

D. Sebastião não morreu! Ariano Suassuna e a utopia revolucionária sebastianista

Entre o folheto nordestino, o romance, o conto fantástico, o trágico e o cômico, Ariano Suassuna incorpora a seu mítico sertão, dentre outras tantas histórias populares e referências históricas, o sebastianismo. "A Pedra do Reino é um livro extraordinário, como criação, recriação, fabulação, linguagem, tipos, diálogos, atmosfera mágica, comicidade, erotismo, epopeia [...] Não sou lá muito de comparações, mas se me perguntassem com que livro eu o compararia, não teria hesitação: com A divina comédia". Diz-nos Hermilo Borba Filho.


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O Brasil é sebastianista, diz o membro fundador do Movimento Armorial. Assim, sabemos já de que se trata o sebastianismo. A crença em que D. Sebastião, morto em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir, ressuscitaria e faria de Portugal o quinto império, espalha-se não apenas por suas terras, mas por algumas regiões do Brasil, tendo forte conotação no nordeste. Bandara sapateiro, que profetizou a volta de Sebastião, colaborou com a criação do mito.

“‘Guardai, Padre, esta espada, porque um dia hei de valer dela com os Mouros, metendo o Reino pela África adentro’ Dom Sebastião I – ou Dom Sebastião, O desejado - Rei de Portugal, do Brasil e do Sertão.” O Romance Da Pedra do Reino.

Em seu romance-memorial-poema-folhetim intitulado Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, O desejado é ressuscitado: reconfigura-se o mito, relembra-se as origens do sebastianismo ao povo nordestino, marcados pelas tradições do mundo ibérico. Enquanto narra a história de sua família, Pedro Dinis Quaderna descreve o sangrento movimento messiânico do qual participaram seus antepassados na Pedra do Reino.

“O assunto da obra esteia-se no mistério da decifração da morte de Sebastião Garcia-Barretto; [...] Essa morte é atribuída, pelo narrador, a motivos políticos que se relacionariam à sucessão do trono do Imperador do Brasil, da dinastia de João Ferreira, fanático que se proclamou rei do Brasil, em 1836, na comarca de Vila Bela. Fundem-se o real e o imaginário. Há a volta de um herói, tido por morto, depois responsável por grandes façanhas que incluem a vingança do pai assassinado e o estabelecimento de uma nova ordem (‘um reino de glória, justiça e paz’), condizente com os mais elevados destinos da Raça e da Nação brasileira, se amolda ao projeto de Quaderna. [...]” O rapaz do cavalo branco e o próprio Quaderna são ‘assinalados’, isto é, devem cumprir um Destino como os heróis Ulisses, Enéias, Gama.

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O Romance da Pedra do Reino Traz a idade média para o interior do Brasil de novecentos. Ariano conta que, ao seu ver, há mais referências na literatura a D. Sebastião do que se pensa. Para ele, Miguel de Cervantes y Saavedra iniciou a escrita de Dom Quixote para ridicularizar o 16.º rei de Portugal. Porém, apaixonou-se pelo personagem. Diz ainda que Cervantes nunca o citou por ser um patriota espanhol, e citá-lo seria uma afronta para si. O Canto I de Os Lusíadas é, obviamente, outra clara referência ao desejado:

“E, vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antiga liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Pera do mundo a Deus dar parte grande”

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A personagem principal do livro de Ariano Suassuna, talvez sua maior obra – em duplo sentido, leia-se – é a personificação das referências épicas na literatura do Sertão nordestino, lugar tão propício aos mitos e aos messianismos. O discurso de Guimarães Rosa sobre o Sertão faz-nos perceber o porquê dessas vivências: O Sertão não se rende à civilização modernizadora, é estanque, mas estende-se no imaginário do sertanejo e de outros, “o sertão é o mundo”. Afirma ainda Idelette Muzart, grande estudiosa da estética popular nordestina, que “nunca se chega ao Sertão, pois quando se pode respirar em algum lugar, já não é mais Sertão”. É neste lugar que não existe que o messianismo ainda persiste e que vivem seres como D. Sebastião. Com a paixão que Ariano tem pelo Sebastianismo, provavelmente haveria inúmeras outras obras que aqui caberia citar além da “Mensagem” de Fernando Pessoa e “A História do Futuro” do Padre António Vieira. Para Ariano, O Desejado procurando restaurar a grandeza de Portugal, sendo heróico, e indo à luta, torna-se no exemplo raro de um homem que busca elevar-se a si mesmo. Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, havia dito a D. Sebastião: “Salvai-vos! Ainda há tempo”. O Desejado, porém, abandonou a possibilidade, e questionou: “Onde ficará minha honra?” Percebe-se então que “a morte bela sagra a vida inteira”. Se foi “Dom Quixote” o último grande romance de cavalaria, indago-me se não terá sido D. Sebastião o último dos nobres cavaleiros. Ressuscitemos D. Sebastião I de Portugal!


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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