astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Dostoievski e o conceito de liberdade

É destino do homem seguir a liberdade? É seguir a norma de fazer o que bem queira desde que não venha a ferir as leis dos homens comuns? Creio que para o romancista que "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser", não seja algo tão simplório assim.


Dosto.jpg As paisagens, os movimentos e as ações são para o romancista russo apenas um meio para materializar o que realmente lhe é de interesse: o homem e seus abismos espirituais. Esse ser que se debate entre a má liberdade e o bom constrangimento, certamente não tomará para si valores reles. O autor de Crime e castigo basear-se-á em teses que não são propriamente humanas, porém, pois estará sempre ligado às leis de Cristo. Um Cristo peculiar, um Cristo de Dostoievski.

A liberdade, para esse autor, assim como o bem e o mal, tema constante em suas obras, se apresentará em seu aspecto metafísico. Isso é, a liberdade mesquinha, aquele deslocado querer de ir e vir, pouco interessa a Dostoievski. Enquanto romancista, o que lhe interessa é a liberdade superior, embora os homens sejam quase sempre fracos demais para servir à liberdade, parafraseando Ivan Karamazov.

A Liberdade (que podemos então, nas intenções do romancista, grafá-la em maiúscula, de acordo com Wilson Martins) pode chegar a contradizer a liberdade política do senso comum, pois não é a prisão que consiste no seu inverso, mas as tempestades interiores, mas a consciência, mas a moral.

A vida do homem dostoievskiano, uma vida sem paisagem, uma vida voltada ao interior, faz pressupor que a lei dos homens lhe é insuficiente. Para ele, uma escolha que esteja de acordo com a maioria, mas de encontro com sua visão de mundo, provocar-lhe-á, certamente, momentos de remorso e culpa. A Liberdade, então, tem como único caminho o sofrimento e o flagelo interior. Um cumprimento de pena nada mudaria um homem que se julgou culpado. Não se trata da condição do ser que não vive em cativeiro, mas da condição do ser que está de acordo com seu juízo moral ferrenho.

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Nesse jogo de recompensações morais, o suicídio, como faz Smerdiakov, é um aliado, porque há um tribunal inferior que o impõe. E a condenação constitui para esse tipo de culpado uma oportunidade de libertação. É a profundidade trágica do ser, que é explorada em sua obra, que guia o mundo aos olhos do romancista. Raskolnikov, indo para a Sibéria, não soltando o volume da bíblia, já se sentia reconciliado consigo e com Deus.

O humano em Dostoievski diz respeito aos problemas metafísicos. Sendo assim, o escritor russo, evidenciando os problemas humanos e super-humanos, constrói uma obra que se desenvolve sob o signo da tragédia. Quase não se vê em sua obra espaço para sentimentos mais comuns e aparentemente menos profundos, aos seus olhos, como, por exemplo, o amor romântico. Aliás, sentimento este que se passa apenas como um momento da vida do homem. E uso o termo 'homem' não como “ser humano em geral”, pois a alma humana tratada por Dostoievski é antes de qualquer coisa um principio masculino, completamente preso à unidade e à interiorização do ser, de acordo com "Dostoievski como romancista". Dessa forma, o amor, sendo uma arbitrariedade, violentaria essa interiorização. Não que não haja espaço para altíssimas temperaturas e sensualidade. Todavia, parece que a realização plena do amor desvirtua o ser da preocupação dos eternos problemas e mais profundos questionamentos que o atordoam.

Esse fato de que Dostoievski entende a alma humana como algo essencialmente masculino muito importa para a sua noção de Liberdade. Isto porque lhe parece que o ser essencialmente masculino é tendencioso a introverter-se. E o ser introvertido tem enorme tendência de forçar os outros à sua imagem, ou negá-los, para não destruir a sua ideia de como deve(m) ser.

Poder-se-ia dizer, então, que a introspecção é motivo para a existência dessa Liberdade em Dostoievski, porque deixa claro que esse ser julgará obstinadamente o objeto sujeito à sua projeção, e, sendo esse objeto a própria pessoa, esse precisará passar pelo juiz mais tirano que poderia haver: ele próprio. Berdiaev afirmou que Dostoiévski "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser." E esses vulcões são sempre retumbantes, segundo James Townsend.

Os filósofos mais intensos, os guerreiros mais honrados e os homens que se remetem ao âmago do agir, dos costumes e das leis que impõem a si mesmo, certamente poderiam ser personagens dostoievskianos. Mas, certamente, isso se trata de uma minoria, porque de nada importa a Dostoievski os seres que se distanciam sempre da dor e do sofrimento, pois nunca poderiam ter real inteligência e coração profundo.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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