astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Em defesa dos contos populares

Fábula, lenda, saga, poema,
Mito, alegoria, apólogo, parábola: tradição.
Eis palavras quais podemos relacionar
ao fantástico mundo do conto popular.


"Talvez eu seja um homem antiquado do século XIX, mas tenho otimismo, tenho esperança; e como o futuro comporta várias coisas [...] Creio que o poeta haverá de ser outra vez um fazedor. Quero dizer, contará uma história e também a cantará. E não consideraremos diversas essas duas coisas, tal como não pensamos que são diversas em Homero ou em Virgílio." - Jorge Luis Borges.

conto popular.jpg

Em compêndios de contos populares vê-se inúmeros autores quais pode se buscar informações sobre eles em vários meios de buscas, mas isso não acontece com todos. Isto porque o processo de autenticidade será transformado por alterações na obra inicial (e como achar de um conto popular a "obra inicial"?) esses recheados e interpolações farão com que a obra final seja de toda a gente.

Esopo, Perrault, La Fontaine, Hans Cristian Andersen são nomes rapidamente relacionados ao conto popular. É fato que tiveram um trabalho árduo, mas é importante notar que o que fizeram já "estava feito", oralmente. Estes escritores passaram toda a vida a observar e reunir histórias encantadas de várias pessoas que visavam sempre não apenas entreter, mas trazer lições para a vida toda, sendo esses contos passados de pais para filho. Pensemos por exemplo que Esopo viveu pelo sexto século antes de Cristo e que suas fábulas, as que lhes são atribuídas, foram encontradas de formas mais rústicas em papiros egípcios em datas de 800 ou 1000 anos antes do nascimento do escravo grego.

Nos contos populares o imaginário e os acontecimentos se misturam. De início a imaginação popular em homenagens aos herois, seus feitos e aos deuses fizeram formar um conjunto de tradições.

Antes das divulgações dessas histórias escritas elas eram guiadas por trovadores, jograis, aedos, menestréis, que percorriam povos e palácios, feiras e outros lugares cantando-as - para nobres, para plebeus - e quanto mais andavam, mais ouviam. Quando mais contavam, mais sabiam.

Jograis da poesia galego-portuguesa, iluminura do Cancioneiro da Ajuda.jpg

Enquanto na França e na península Ibérica os troveiros, acompanhados de viola, alaúde, ou harpa, geralmente, cantavam seus poemas de amor e epopeias, na Alemanha faziam o mesmo os minnesingers (cantadores de amor) e todo o lirismo da velha Germânia passou pelos lábios deles. Um dos mais conhecidos minnesingers foi Hans Sachs, que era sapateiro e fazia questão de manter-se a bater solas enquanto compunha seus versos.

Com o passar do tempo os narradores foram desaparecendo, como canta o conjunto de fantasias poéticas que é o monumento "As Mil e Umas Noites" quais histórias recolhidas na China, Pérsia, Arábia e no Egito podem ser classificadas como contos populares.

A mesma mistura de realidade e fantasia preside à formação das sagas teutônicas, tradições históricas e mitologias, quase todas compiladas do século XII em diante. Os próprios grandes romances que se alinharam às regras da literatura por meio de nomes prestigiosos têm, muitas vezes, origem no conto popular. Romeu e Julieta é grande exemplo disso, história que era já repetida pela boca de iletrados. Na China o ancestral autêntico desse tipo de obra popular parece ser o "Livro dos Poemas" composto entre 1766 e 256 antes de Cristo. Quem escreveu os poemas? Não se sabe, provavelmente cantores comuns de narrativas, a maioria deles cegos - e afinal o que foi Homero? - que tomaram a missão de divulgar tais poesias e elas ficaram para a história. É o que importa. De todo modo, muitas histórias começaram através de poemas, eis que a poesia é a mais alta forma de expressão que dispõe o homem.

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No nordeste brasileiro (não comento sobre outros lugares, pois falo deste com maior propriedade) cabe aos cordelistas e repentistas, que acompanhados pela xilogravura ou pelas rabecas, cantam e contam histórias que o povo já repetia. Quem lê a obra de Leandro Gomes de barros, de João Melquíades ou de Ariano Suassuna (que tanto referencia e recria um sertão mítico já cantados) bem o sabe.

"Quem ler essa história toda Do jeito que foi passada Vê logo que o falso e vil Nunca nos serve de nada Que a honra e fidelidade Sempre foi recompensada"

Leandro Gomes de Barros, Juvenal e o Dragão.

Os poetas recriadores também nos levam ao mundo maravilhoso dos contos e das poesias populares, pois nos guiam às terras dos tesouros, das mysteriozas descobertas, como bem o faz o poeta José Inácio Vieira de Melo em poemas como este:

Como dito, repetidos pelo povo ou assinalados por grandes escritores, os contos, as lendas, as fábulas, as sagas, tomam linhas singelas, honrosas e ou sanguinolentas que quase sempre servem para nos atentar quanto aos perigos e ao mal dos castigos que pode recair sobre nós. Fazem-se também estimuladores de coragem e da resignação, conforme se referem, e nos fazem querer agir de forma semelhante, a herois ou santos.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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