astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Myilena Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Epos.

“Ainda que o herói seja esmagado e o povo arrastado por sua infelicidade, o discurso heroico irá transcender a morte, seja individual ou coletiva”. (A. Lord)


LA-ILIADA.jpg Termos como epopeia e poesia épica são costumeiramente motivos para debates entre estudiosos dos gêneros orais. O que define um ou outro, ou se são semelhantes, sinônimos perfeitos, são assuntos para mais detalhados estudos. Assim, iremos nos ater a uma breve conceituação do gênero oral de cunho narrativo que mantém uma preocupação com o tema épico.

Segundo Paul Zumthor, medievalista e estudioso da poética oral, o gênero poético oral toma como referência a imagem arquetípica do poeta Homero, que por volta de 1780 torna-se, na Alemanha, "objeto" de estudo. Wolf foi o primeiro a levantar questões sobre a oralidade em Ilíada e Odisseia, mas esse estudo foi feito de modo limitado. Assim sendo, durante o século XX, as discussões provocadas pela “questão homérica” leva o romantismo europeu à descoberta das poesias populares.

Os poemas heroicos são estudados desde as seleções de Karadzic, na Sérvia, às reuniões de Rybnikov, na Rússia, com as bylinas, tradicionais narrativas sobre bogatyrs, os herois eslavos. Desta forma, por volta de 1900, poucas regiões da Eurásia estavam fora dessa prospecção. Monografias e estudos setoriais foram consagrando a epopeia desde o início do século passado.

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A. B. Lord, em The Singer of Tales (sem versão para português), forneceu, ainda que em estudos iniciais, um cenário adequado da descrição do fator épico. Definir epopeia não é tarefa fácil, alguns relacionam toda poesia oral narrativa sem levar em consideração o tom solene da epopeia. Para T. Tedlock, "um gênero épico propriamente dito, caracterizado pelas regras de versificação, só existem no seio de culturas semiletradas; nas sociedades primariamente orais e o equivalente funcional seria o conto". Pode-se pensar que epopeia e épico são apenas designações metafóricas da poesia oral, findadas sobre o grego epos, significando a palavra transportada pela voz.

O principal ponto é que estas narrativas de ação encenam a agressividade viril a serviço de um grande empreendimento. Todavia, há de saber que pode-se reclassificar as epopeias, pois, pensemos: “o combate épico comporta dimensão erótica? Ele é necessariamente guerreiro? Integra sempre um componente religioso ou filosófico?” Cada área cultural tem sua própria resposta. A exemplo, pesquisadores do Instituto de Folclore de Bucareste estabeleceram cerca de 200 classificações para as sete mil baladas romenas.

Aspectos como força e ordenação parecem definir o canto épico. Brevidade ou extensão são noções relativas. Julga-se que as mais antigas epopeias medievais tinham, em média, de dois a quatro mil versos. Este tamanho parece bem comum na longa epopeia. O limite superior das dimensões do gênero é, efetivamente, muito elevado somente as condições sociais da performance (local, época, periodicidade) o fixam relativamente. O Ulshingan, estudado nas Filipinas por E. Maquiso, comporta um grande número de episódios dos quais cada um pode ser objeto de performance isolada. Madame Maquiso avalia ser uma centena o n´mero de episódios existentes: mas, há séculos, novos episódios são criados por variação, edição, desmultiplicação, etc, em 1965 um cantor dizia conhecer 1.355 deles, número provavelmente significativo. Foi assim, provavelmente, que, durante seu período se tradição oral, o imenso Mahabharata hindu, fez compilar cerca de 70 mil versículos, compondo maior volume de textos d'uma obra humana.

Na tradição de um povo a epopeia ocupa um espaço qual sempre será permeado pelos termos polares “histórico” e “mítico”, quais pertencem a um mesmo campo discursivo, e em cada recitante narra um episódio por vez. É interessante perceber que a epopeia praticamente nega o trágico, que situações trágicas existem apenas para acentuar o heroísmo do ser superior principal. “Ainda que o herói seja esmagado e o povo arrastado por sua infelicidade, o discurso heroico irá transcender a morte, seja individual ou coletiva”. (A. Lord) O canto épico vem a narrar o combate contra o Outro, o invasor, o ser (ou grupo) que parece querer fragilizar a nação, classe social ou clã do herói. A história fornece ao herói épico um campo relativamente variável. As invasões tártaras do século XIII ainda perfilam inúmeras bylinas russas, e onde tudo é reinterpretado em prol de uma lembrança maior, oculta, mas presente no inconsciente coletivo. As figuras de Ivan, o terrível, de Pedro, o grande, de Catarina II originaram ciclos narrativos. Nenhuma epopeia é por completo desprovida de quaisquer elementos de cunho histórico, qualquer que seja a opacidade mítica do discurso. A Epopeia de Gilgamesh é uma obra perfeita para a compreensão desse universo de narrativas épicas.

O traço principal da epopeia, mais ainda que seu valor guerreiro, é essa interpenetração, contrária para a mentalidade moderna, mas indissociáveis para as civilizações tradicionais. Abarcando guia para todo um povo, apesar de conter monólogos e diálogos, é importante notar que o discurso épico é impessoal. Desta forma, destinada a ser transmitida pela voz, a epopeia compartilha elementos recorrentes em toda poesia oral.

A tradição coletiva – tal cultura em sua disposição histórica – retém uma quantidade mais ou menos considerável de fórmulas disponíveis a todo o momento para todo poeta que leve em consideração características da literatura oral de sua gente. As fórmulas existem em uma tradição e não podem dela se dissociar. Formas diversas, porém, com características próprias a um poeta particular, que as vezes recebeu de um mestre, dependem de suas competências pessoais, duráveis, estáveis e repetidas ao longo do tempo. O estudo dos textos medievais por Zumthor sugeriu ainda uma distinção entre fórmulas internas, que aparecem apenas em um único poema, e externas, que são comuns a todo um conjunto da literatura oral. A maioria dos pesquisadores detectam que inúmeras etnias foram detentoras de uma grande poesia épica que está morrendo diante de nossos olhos. Em 1980, L. Kesteloot apresenta que tais obras são características de sociedades próximas de feudos ou de clãs. Nossa civilização tecnológica tem aversão à epopeia. Talvez as comunicações em massa tenham inutilizado tal gênero, de toda forma, ainda há vestígios da narração épica, da exaltação ao herói, em referencias cinematográficas, como o western norte-americano ou em obras do cinema novo, com Glauber Rocha.

Na Rússia, revolução promoveu uma vida intensa às bylinas. No nordeste brasileiro, há imensas referências, na literatura e música, do romancero ibérico, que ainda resistem. No México, o gênero corrido, testemunhado desde o século XIX, mas derivado notoriamente do Romancero, ainda resistia, 20 anos atrás, ao mundo televisionado. Talvez o mundo televisionado esteja a matar a epopeia, mas pode ser, ainda, que as narrativas épicas nunca venham a morrer. Serão sempre gloriosas e atemporais.


Myilena Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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