astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Câmara Cascudo, desbravando o mysteriozo

“Uma das coisas mais interessantes para os que se occupam de folk-lore são as analogias entre as manifestações intellectuaes populares de todas as raças. Ellas são tantas e tão fortes, que bem se poderia afirmar terem todos os folk-lores uma origem comum, hoje em dia perdida na noite profunda dos tempos. Poder-se-ia mesmo afirmar mais que essa fonte original ficou no oriente longínquo e mysteriozo, de onde têm sahido todas as invenções e todas as conquistas, quer as das armas, quer as do saber.” Gustavo Barroso, O sertão e o mundo.


cascudo.jpg Qualquer brasileiro que tenha algum interesse pela cultura do seu povo e nos dizeres de suas raízes precisa ter contato com obras como Antologia do Folclore Brasileiro, Contos tradicionais do Brasil ou Tradição, ciência do povo, citando apenas os mais populares feitos da vasta produção do professor Câmara Cascudo, que tomava Montaigne para definir-se profissionalmente com “não ensino, conto!”.

Primeiramente, faz-se necessário compreender, com fala de Alfredo Bosi, que cultura popular e cultura de massa não significam o mesmo. Pois “a (cultura) popular trata-se daquela que é próxima das raízes da sua gente, a de massa é apenas aquela dada ao grande grupo com pretensões meramente comerciais”. Certamente, nem tudo o que é popular é folclórico, mas o folclore representa grande parte da cultura de cada povo. O termo folclore parece ter tomado, aos olhos dos que se distanciam dele, uma conotação negativa, como fosse algo empoeirado e desnecessário. Câmara Cascudo, entretanto, nos situa no mundo da cultura do povo e diz que “o folclore, sendo uma cultura popular, é uma cultura viva, útil, diária e natural!”. O termo foi criado por John Thoms em título para publicação do artigo Folklore – the lore of the people, em 1846, desde então estudos referentes ao conhecimento e cultura populares têm tomado esse termo como classificação.

O homem que "queria saber a história de todas as cousas do campo e também da cidade” não regrou tempo a percorrer os caminhos que levam ao encantamento do passado, trata em suas obras desde literatura oral, popular e tradicional até bebidas e alimentos populares. Na obra cascudiana, sobre o homem comum brasileiro, de raiz, é notado desde rituais do seu nascimento aos de sua morte. Luiz da Câmara Cascudo foi ainda o único latino-americano membro titular da Folk-Lore Society of Londres, a primeira na espécie que se fundou no mundo.

O grande conjunto de escritos do autor de Literatura Oral no Brasil debruça-se sobre estudos onde o regional e o rural são representados sendo pensado n’uma perspectiva universal, observando, por exemplo, o indício de oralidade nos escritos que toma para análise, todavia nos fazendo perceber, e quase militando, sobre como toda raça e toda nação possui uma tradição e cultura a serem zeladas, a serem vividas. "Com toda a modernização ainda há homens que preferem falar de seus cavalos e não dos automóveis. Isso é tradição! Isso é folklore!"

O “provinciano incurável”, como definiu Afrânio Peixoto, não distanciou-se de suas terras para tornar-se conhecido por sua obra, não estabeleceu-se no eixo São Paulo – Rio de Janeiro, apesar de ter vivido uma temporada neste último enquanto cursava medicina. Cascudo acreditava, inclusive, ser mais digno manter-se em sua própria cidade se tanto tratava de regionalismo, assim também poderia mais facilmente ter acesso tanto aos documentos de natureza oficial, quanto às memórias suas e dos seus próximos, mantendo um elo com um passado por meio de “continuidade emocional, identidade de esforço, de responsabilidade, de medo e de crença” assim, entre tantos, pôde escrever “História da cidade do Natal” e ser o primeiro estudioso a documentar as características da literatura dessa terra.

N’uma velha máquina de datilografia “Underwood” muito contou o homem que assinava como Luís do Natal, e no envelope era Dr Barão do Guaporé. Tradutor de Walt Whitman, assíduo leitor da literatura nordestina, assim como de Goethe, Dante, Cervantes, Montaigne e Camões.

"Não raro o governador Sylvio Pedroza e o historiador Luís da Câmara Cascudo percorriam, felizes, os bairros populares, levando, em cima de um caminhão, o maestro Oriano de Almeida e seu piano, para dar concertos de Chopin nas praças da cidade, ou então para assistirem aos folguedos da Nau Catarineta e do Bumba-Meu-Boi" (Câmara Cascudo, o sábio erudito) Cantadores nordestinos não poderiam deixar de dar glórias ao sábio professor e defensor de sua cultura que cortou “ muitas palmas de cactos para dar de comer às vacas, de cujas tetas tirava o leite” Chico Traíra a todos cantou:

Eis o doutor Cascudinho. Que valoroso tesouro! Lá no sertão também tem, Cascudo, aranha e besouro. Os de lá não valem nada. Mas este aqui vale ouro!


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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