astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Inventor ou mestre? Homero aos olhos de Ezra Pound

«Nunca li meia página de Homero sem encontrar invenção melódica, isto é, invenção melódica que eu ainda não conhecia.» Ezra Pound


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Além de revisitar grandes clássicos da literatura para análise profunda e criação do seu ABC da literatura, Ezra Pound, poeta e crítico literário norte-americano, reconfigura temas da literatura clássica e medieval em sua poesia. Além de Homero, Dante, os poetas provençais, há todo um cuidado para fitar os grandes literatos, para traçar um caminho e uma viagem sem esquecer-se que o seu lar era a tradição literária.

A «épica sem enredo» que é a obra Cantos de Ezra Pound, como define Haroldo de Campos, criou no Canto I a representação de um Ulisses que participará de «uma viagem sem acção» ao submundo para falar com Tirésias.

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Pound traça ainda uma interessante relação intertextual com a própria tradução literária da obra homérica. Com o «Jaz em paz, Divus» refere-se ao scholar renascentista que "conheceu" em uma de suas primeiras viagens a Paris, Andreas Divus, quando teve contato com sua tradução da Odisseia, publicada em 1538, e é dessa versão que ele próprio traduziu ao seu canto 1 (C. R. Ludwig),observando que o protagonista de Odisseia sobrevive ao tempo, porém entre as metamorfoses que os idiomas e as traduções promovem.

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«Nunca li meia página de Homero sem encontrar invenção melódica, isto é, invenção melódica que eu ainda não conhecia.»

Em uma das três modalidades da poesia está a melopeia: quando a poesia está impregnada de musicalidade. Assim, obviamente a obra homérica é molde para a poesia de todos os tempos. Para Pound, quando trata-se de escritos literários, serão identificados: inventores; mestres; diluidores; bons escritores sem qualidades salientes; beletristas e lançadores de moda.

INVENTOR E MESTRE

1. Inventores Homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo / 2. Mestres Homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores.// Dado o fato de que há tanto se vive a interrogação se Homero foi um só homem, se eram dois bardos (diferentes para cada uma das obras atribuídas ao poeta grego) ou se era um conjunto de homens, fica difícil compreender se o escritor de Odisseia e Ilíada seria um inventor ou um mestre. Talvez tenha conseguido a glória de ser ambos ao mesmo tempo.

O importante é perceber que para Ezra Pound «Enquanto o leitor não conhecer as duas primeiras categorias (inventores e mestres), será incapaz de distinguir as árvores da floresta. Ele pode saber de que gosta. Ele pode ser um verdadeiro amador de livros, com uma grande biblioteca de volumes magnificamente impressos, nas mais caras e vistosas encadernações, mas nunca será capaz de ordenar o seu conhecimento ou de apreciar o valor de um livro em relação a outros, e se sentirá ainda mais confuso e menos capaz de formular um juízo sobre um livro cujo autor está "rompendo com as convenções" do que sobre um livro de oitenta ou cem anos atrás.»

Obviamente não foi Homero sua única base literária, nem apenas Dante. Pensar isso é como imaginar o Partenon com apenas um pilar. O monumento literário do escritor de Os cantos é nada mais que uma sucessão de referências ad infinitum.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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