astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Fernando Pessoa: o modernista mensageiro da tradição

«Sem a loucura, que é o homem,
Mais que a besta sadia
Cadáver adiado que procria?»


Fernando-pessoa1.jpg Fernando Pessoa «ele mesmo» se localizava mais próximo da matriz dos poemas, da central geradora de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares e outros heterônimos. Todavia, tornando-se o sujeito que se exprime em versos, é tão heterônimo quanto os outros que criou ou descobriu. É mais um dos irmãos-poetas. Sobre ele, disse Massaud Moisés no prefácio da obra O guardador de Rebanhos e outros poemas «Mais arcaico, dir-se-ia, mais primitivo, mais primordial, mais instintivo dos poetas criados era Fernando Pessoa»

É importante notar que, como enfatiza Calinescu, há extrema necessidade de distinguir o termo modernidade, estágio na história da Civilização Ocidental e a modernidade como conceito estético caro ao modernismo. O que faz conseguir compreender, por exemplo, como ser modernista não impediu Fernando Pessoa de dizer que «o mito é nada que é tudo» e escrever conjunto de poemas tão patriótico quanto foi Mensagem, vista como grande epopeia ao povo português, perdendo destaque apenas para Os Lusíadas.

É caro notar que ao mutiplicar-se em «eu-heterônimos», o poeta português reservou para si o heterônimo mais lusíada, como se antevisse a dificuldade de um poeta de raízes lusitanas ser moderno, ser «outro».

Fernando Pessoa funciona, então, como ponte de ligação entre o passado simbolista, saudosista-decadente, em que se enfronhou quando retornou a Portugal em 1906 vindo de Durban, ida que se deu junto a sua mãe e família.

Modernista, sim. Patriota, também. Era assim que se definia «Partidário de um nacionalismo místico, um sebastianista racional. Nacionalista que se guia por este lema: Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação.»

Dizia-se helênico:

«Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos - capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude»

E o que dizia Pessoa sobre a modernidade, então? Como o poeta, - e talvez só sendo poeta e fazer da palavra a mágica para sê-lo assim - modernista que era,unia sua forte característica estética ao universo mítico dos mundos primordiais? Em carta a Maririnetti, disse-lhe: «A civilização moderna tem adquirido novos aspectos da existência, mas perdido aspectos primordiais. Portanto, é necessário que o futuro seja a síntese suprema de tudo o que foi perdido e de tudo o que ainda existe, de modo que possa gerar o infinito, para que nada nunca falte, a partir de que nenhuma aspecto único da Existência esteja ausente.»

Basta ser atento aos escritos de Pessoa e nota-se um modernismo anti-moderno. Anti-moderno por buscar com frequência uma gnose perdida, uma tradição a ser recuperada, um Portugal que foi-se junto a D. Sebastião, perdido no nevoeiro do tempo.

É importante notar que a sua Mensagem, sua obra única publicada em vida, é um conjunto em louvor a sua pátria. As divisões dessa obra se dá em três: «I O Brasão», «II Mar Portuguez» e «III O Encoberto», contendo cada qual uma epígrafe em Latim que anuncia o relato. Sobre a obra sabe-se ainda, de acordo com o próprio poeta. Bellum sine bello, Possessio maris e Pax in excelsis encabeçam os assuntos respectivos das três partes: «A Guerra sem combate», «O Domínio do mar» e «A Paz esteja nas alturas». E se louvava sua herança helénica não poderia deixar de enaltecer o fundador de Lisboa:

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Afinal ditou já Camões ser Ulisses aquele que «cá na Europa, Lisboa ingente funda». Camões, aliás, não foi citado diretamente na obra pessoana, mas foi Pessoa o próprio Supra-Camões que disse estarem a procura em publicação para a revista Águia.

«E, se mais mundo houvera, lá chegara» disse o autor da epopeia portuguesa de maior renome. «O mar com fim será grego ou romano. O mar sem fim é portuguez.» afirma o Supra-camões em Mensagem, como se não houvesse necessidade de citar o autor de Lusíadas pois suas ligações vão para além da citação direta, estão nas essências suas obras-primas.

O principal nome da Geração Orpheu promove uma ruptura com a tradição literária vigente «ao mesmo tempo que mergulha sua atividade criativa no inconsciente coletivo dos arquétipos, indo buscar nos mitos antigos as bases para o seu questionamento acerca do homem e da vida». Assim sendo, Fernando Pessoa cumpre seu papel na poesia portuguesa do século XX com o duplo movimento de vanguarda e de retorno às origens da poesia ocidental.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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