astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Eu e outras escatologias: a distópica e augusta poesia de Dos Anjos

"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!"


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Quem conhece pouco ou profundissimamente a obra de Augusto dos Anjos (1884-1914) sabe que o poeta nunca regrou palavras. Começa simbolista, mas logo se desgarra de qualquer possível enquadramento. Publica a obra "Eu", e apenas esta. Sua obra aproxima-se e rejeita uma aura de intelectualidade. Sua poesia-científica não esconde o desespero metafísico-existencial do poeta e do eu-lírico, que em Augusto dos Anjos tanto se confundem.

Em alguns poemas sua obra "aponta para o nirvana, o bem, a Arte, para o poeta que pensa acerca de um mundo-lázaro." [1] Esse poeta que reflete melancolicamente acerca deste mundo, sem outras respostas possíveis, pensa, por vezes, de forma idealizada:

Idealização da humanidade futura

"Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros - Homens que a herança de ímpeto impuros Tornara etnicamente irracionais! -

Não sei que livro, em letras garrafais Meus olhos liam! No humus dos monturos, Realizavam-se os partos mais obscuros Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação!"

Porém sua "idealização" não é, certamente, a dos poetas românticos.

Com o fim da inocência desde tempos imemoriais, abre-se espaço para o início da agonia, da angústia e da vontade de destruição e reconstrução. Augusto dos Anjos confunde-se com o eu-lírico e deixa transparecer o seu "impulso para provocar o surgimento de uma outra humanidade"[2]. O eu lírico anseia por redimir a raça "que violou as leis da Natureza" [3]

"[...] E eu, com os pés atolados no Nirvana, Acompanhava, com um prazer secreto, A gestação daquele grande feto, Que vinha substituir a Espécie Humana!"

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Esse breve texto não tem a pretensão de analisar a obra de Augusto dos Anjos, porém de destacar essa característica distópica, escatológica, apocalíptica de "Eu". Para tal, deixo então a sugestão da leitura do poema "Os doentes", dividido em 9 partes.

OS DOENTES

I

Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metrópole vazia, Minha cabeça autônoma pensava!

Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta de órfã que gemia!

Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muitos anos desapareceram!

II

Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome!

Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo.

Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos.

Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes!

Bruto, de errante rio, alto e hórrido, o urro Reboava. Além jazia aos pés da serra, Criando as superstições de minha terra, A queixada específica de um burro!

Gordo adubo da agreste urtiga brava, Benigna água, magnânima e magnífica, Em cuja álgida unção, branda e beatífica, A Paraíba indígena se lava!

A manga, a ameixa, a amêndoa, a abóbora, o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do teu tálamo!

Nos de teu curso desobstruídos trilhos, Apenas eu compreendo, em quaisquer horas, O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos!

Ah! Somente eu compreendo, satisfeito, A incógnita psique das massas mortas Que dormem, como as ervas, sobre as hortas, Na esteira igualitária do teu leito!

O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórico galope A abundância geométrica do espaço.

Meu ser estacionava, olhando os campos Circunjacentes. No Alto, os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos!

OS DOENTES III

Dormia embaixo, com a promíscua véstia No embotamento crasso dos sentidos, A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia.

Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles, Restos repugnantíssimos de bílis, Vômitos impregnados de ptialina.

Da degenerescência étnica do Ária Se escapava, entre estrépitos e estouros, Reboando pelos séculos vindouros O ruído de uma tosse hereditária.

Oh! desespero das pessoas tísicas, Adivinhando o frio que há nas lousas, Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas!

Estas, por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos, dores não recebem; Estas dos bacalhaus o óleo não bebem, Estas não cospem sangue, estas não tossem!

Descender dos macacos catarríneos Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira, Pintando o chão de coágulos sanguíneos!

Sentir, adstritos ao quimiotropismo Erótico, os micróbios assanhados Passearem, como inúmeros soldados, Nas cancerosidades do organismo!

Falar somente uma linguagem rouca, Um português cansado e incompreensível Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca!

Expulsar, aos bocados, a existência Numa bacia autômata de barro, Alucinado, vendo em cada escarro O retrato da própria consciência!

Querer dizer a angústia de que é pábulo, E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca, Cortando as raízes do último vocábulo!

Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se, com efeito, Lhe houvesse sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi!

E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer, como um cronômetro gigante, Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba!

Mas vos não lamenteis, magra mulheres, Nos ardores danados da febre hética, Consagrando vossa última fonética A uma recitação de misereres.

Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera!

Porque a morte, resfriando-vos o rosto, Consoante a minha concepção vesânica É a alfândega, onde tôda a vida orgânica, Há de pagar um dia o último imposto!

IV

Começara a chover. Pelas algentes Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas, Encharcava os buracos das feridas, Alagava a medula dos Doentes!

Do fundo do meu trágico destino, Onde a Resignação os braços cruza, Saía, com o vexame de uma fusa, A mágoa gaguejada de um cretino.

Aquele ruído obscuro de gagueira à noite, em sonhos mórbidos, me acorda, Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira!

Aturdia-me a tétrica miragem De que, naquele instante, no Amazonas, Fedia, entregue a vísceras glutonas, A carcaça esquecida de um selvagem.

A civilização entrou na taba Em que ele estava. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo, Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa uma apostema, De repente, acordando na desgraça, Viu toda a podridão de sua raça... Na tumba de Iracema!...

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, Exercia sobre ele ação funesta Desde o desbravamento da floresta À ultrajante invenção do telefone.

E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra, Desterrado na sua própria terra, Diminuído na crônica do mundo!

A hereditariedade dessa pecha Seguira seus filhos. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda com a flecha!

Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos, Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos!

Mas, diante a xantocróide raça loura, Jazem, caladas, todas as inúbias, E agora, sem difíceis nuanças dúbias, Com uma clarividência aterradora,

Em vez de prisca tribo e indiana tropa A gente deste século, espantada, Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa!

V

Era a hora em que arrastados pelos ventos, Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos.

As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. E eu, roído pelos medos, Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas!

Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha.

Perfurava-me o peito a áspera pua Do desânimo negro que me prostra, E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.

Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas.

Todos os vocativos dos blasfemos, No horror daquela noite monstruosa, Maldiziam, com voz estentorosa, A peçonha inicial de onde nascemos.

Como que havia na ânsia de conforto De cada ser, ex.: o homem e ofídio, Uma necessidade de suicídio Em um desejo incoercível de ser morto!

Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava, rolando sobre o lixo, Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.

E, como um homem doido que se enforca, Tentava, na terráquea superfície, Consubstanciar-me todo com a imundície, Confundir-me com aquela coisa porca!

Vinha, às vezes, porém, o anelo instável De, com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável.

Anelava ficar um dia, em suma, Menor que o anfióxus e inferior à tênia, Reduzido à plastídula homogênea, Sem diferenciação de espécie alguma.

Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico, era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga!

Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era, perante a cova, Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força.

A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos.

Não me incomoda esse último abandono. Se a carne individual hoje apodrece, Amanhã, como Cristo, reaparece Na universalidade do carbono!

A vida vemdo éter que se condensa, Mas o que mais no Cosmo me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa.

Eu voltarei, cansado da árdua liça, À substância inorgânica primeva, De onde, por epigênese, veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa!

Quando eu for misturar-me com as violetas, Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra, Reviverá, dando emoção à pedra, Na acústica de todos os planetas!

VI

À álgida agulha, agora, alva, a saraiva Caindo, análoga era... Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva.

Mas, para além, entre oscilantes chamas, Acordavam os bairros da luxúria... As prostitutas, doentes de hematúria, Se extenuavam nas camas.

Uma, ignóbil, derreada de cansaço, Quase que escangalhada pelo vício, Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço!

E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção podre, Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia...

De certo, a perversão de que era presa O sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza!

Entanto, virgens fostes, e, quando o éreis, Não tínheis ainda essa erupção cutânea, Nem tínheis, vítima última da insânia, Duas mamárias glândulas estéreis!

Ah! Certamente, não havia ainda Rompido, com violência, no horizonte, O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda!

Talvez tivésseis fome, e as mãos, embalde, Estendeste ao mundo, até que, à toa, Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde.

E estais velha! -De vós o mundo é farto, E hoje, que a sociedade vos enxota, Somente as bruxas negras da derrota Frequentam diariamente vosso quarto!

Prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces, Nas quietudes nirvânicas mais doces, O noivado que em vida não tivestes! VII

Quase todos os lutos conjugados, Como uma associação de monopólio, Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados.

Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço, Como a boca de um poço artesiano!

Atabalhoadamente pelos becos, Eu pensava nas coisas que perecem, Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos.

Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto, no chão frio da igreja E vai depois levá-lo ao cemitério!

E esfregando as mãos magras, eu, inquieta, Sentia, na craniana caixa tosca, A racionalidade dessa mosca, A consciência terrível desse inseto!

Regougando, porém, argots e aljâmias, Como quem nada encontra que o perturbe, A energúmena grei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias.

A estática fatal das paixões cegas, Rugindo fundamente nos neurônios, Puxava aquele povo de demônios, Para a promiscuidade das adegas.

E a ébria turba que escaras sujas masca, Á falta idiossincrásica de escrúpulo, Absorvia com gáudio absinto, lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca.

O ar ambiente cheirava a ácido acético, Mas, de repente, com o ar de quem empesta, Apareceu, escorraçando a festa, A mandíbula inchada de um morfético!

Saliências polimórficas vermelhas, Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo, Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas.

O fácies do morfético assombrava! -Aquilo era uma negra eucaristia, Onde minh'alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava!

Era todo o meu sonho, assim, inchado, Já podre, que a morféia miserável Tornava às impressões táteis, palpável, Como se fosse um corpo organizado!

VIII

Em torno a mim, nesta hora, estriges voam, E o cemitério, em que eu entrei adrede, Dá-me a impressão de um boulevard que fede, Pela degradação dos que o povoam.

Quanta gente, roubada à humana coorte, Morre de fome, sobre a palha espessa, Sem ter, como Ugolino, uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte;

E nua, após baixar ao caos budista, Vem para aqui, nos braços de um canalha, Porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista!

Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos, Ao pegar num milhão de miolos gastos, Todos os meus cabelos se arrepiaram.

Os evolucionismos benfeitores Que por entre os cadáveres caminham Iguais a irmãs de caridade, vinham Com a podridão dar de comer às flores!

Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes, Num prato de hospital, cheio de vermes, Todos os animais que apodreciam!

É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite, Comendo carne humana, à meia-noite!

Com uma ilimitadíssima tristeza, Na impaciência do estômago vazio, Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza!

E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos, Vendo passar com as túnicas obscuras, As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos;

Pisando, como quem salta, entre fardos, Nos corpos nus das moças hotentores Entregues, ao clarão de alguns archotes, À sodomia indigna dos moscardos;

Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que, transgredindo a igualitária regra Da Natureza, atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas!

Na evolução de minha dor grotesca, Eu mendigava aos vermes insubmissos Como indenização dos meus serviços, O benefício de uma cova fresca.

Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora, Como o íncola do pólo ártico, às vezes, Absorve, após a noite de seis meses, Os raios caloríficos da aurora.

Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas, No frio matador das madrugadas, Por sobre o coração dos que sofriam!

Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito, Proporcionando-me o prazer inédito, De quem possui um sol dentro de casa.

Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam, trazendo-me ao sol claro, À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços!

IX

O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido!

O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera, em vez de hiena ou lagarta, Uma sobrevivência de Sidarta, Dentro da filogênese moderna;

E arranca milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda, Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências.

Um céu calamitoso de vingança Desagregava, désposta e sem normas, O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança!

A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz, vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro, Para alcançar depois a periferia!

Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces! Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos Decompondo-se desde os alicerces!

A doença era geral, tudo a extenuar-se Estava. O Espaço abstrato que não morre Cansara... O ar que, em colônias fluidas, corre, Parecia também desagregar-se!

O pródromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto... Hirto de espanto, Eu sentia nascer-me n'alma, entanto, O começo magnífico de um sonho!

Entre as formas decrépitas do povo, Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmo novo!

O letargo larvário da cidade Crescia. Igual a um parto, numa furna, Vinha da original treva noturna, O vagido de uma outra Humanidade!

E eu, com os pés atolados no Nirvana, Acompanhava, com um prazer secreto, A gestação daquele grande feto, Que vinha substituir a Espécie Humana!

1 - Lúcia Helena. A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos. 2 - Chico Viana. A estética dissonante de Augusto dos Anjos. 3 - Sérgio Paulo Rouanet apud Walter Benjamin in Origem do drama barroco alemão.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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