astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Em busca do conhecimento - o cotidiano mito fáustico

"Para o Fausto de Paul Valéry, Mephisto não assombra mais as almas dos homens atuais, pois já está dissolvido em nosso cotidiano. Verdade ou não, quiçá nenhum ser atualmente seja por completo alheio à busca pelo conhecimento."


piccit_luis_ricardo_faleros_paintin_1802017723.640x0.jpg FALERO Luis Ricardo, Visão de Fausto

Antes de mito, foi homem. Era um astrólogo e mago ambulante. Ou foram vários. É provável que mais de um alemão que tenha vivido entre os séculos XV e XVI, provavelmente com formação acadêmica em filosofia, que tenha exercido a profissão de professor e possuído o sobrenome Faust, tenha sido apontado como a comprovação corpórea do mito de Fausto.

Ironicamente, as enormes proporções tomadas pela lenda alemã muito deve a Lutero e seus semelhantes, dado o fato que esses esbravejaram que Fausto, filósofo e mago que em sua incansável busca pelo conhecimento teve a alma capturada por Mefistófeles, deveria ser visto como um anti-modelo. Desde então, são imensuráveis as referência artísticas ao homem de dons mágicos, lembremos apenas as obras "O Primeiro Fausto", de Fernando Pessoa, "A Igreja do Diabo", de Machado de Assis, "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, a sinfonia de Liszt, a de Wagner, o filme de Murnau. Como dito, imensuráveis.

O breve título de Johann Spies, obra mais conhecida como Faustbuch, já deixa clara a imagem da lenda. Ei-lo: "História em narrativa do Dr Johannes Faustus, o feiticeiro, onde descreve-se de modo detalhado e verídico dois pontos: toda a sua vida e morte, como ele entregou-se, por um determinado tempo ao diabo, e o que aconteceu com ele e como ao final ele recebeu o bem merecido castigo. Também incluem-se revelações raras, pois estes exemplos são muito úteis e eficazes com uma admonição e recordação cristã muito essencial." (Sim, segundo Seligmann-Silva, trata-se do título)

historia faust.jpg Página de Faustbuch, edição de 1588

Este que nos é dado como mau exemplo é um homem constantemente inquieto. Até Goethe, as demais obras como "A Trágica História do Doutor Fausto", de Christopher Marlowe, têm um teor bem mais moralizante que no poema trágico do escritor alemão. Isso porque o próprio Johann Wolfgang von Goethe era um homem fascinado pela antiguidade, pela natureza e pela magia da linguagem, que sendo posta em oposição à linguagem científica, torna-se restrita ao universo da literatura. Ademais, o poema trágico, repleto de fragmentos, repetições e mais de 200 personagens, escrito em forma de peça teatral, sintetiza a obra de do líder do movimento Sturm und Drang.

Para o Fausto de Paul Valéry, Mephisto não assombra mais as almas dos homens atuais, pois já está dissolvido em nosso cotidiano. Verdade ou não, quiçá nenhum ser atualmente seja por completo alheio à busca pelo conhecimento.

"Devemos ouvir pelo menos uma pequena canção todos os dias, ler um bom poema, ver uma pintura de qualidade e, se possível, dizer palavras sensatas." Diz Goethe, agora em Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. Esses breves deveres não seriam uma busca cotidiana pelo conhecimento? Possivelmente sim. Mas, ao fim, recorda-nos Mephisto: "Cinza, meu amigo. É toda a teoria" //

faust.png Fausto, ilustração de Harry Clarke


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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