astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Pacto(s) em Grande Sertão: Veredas

“Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia”


Logo após a publicação da obra Grande Sertão: Veredas (1956), Guimarães Rosa brevemente conquistou três prêmios: “Machado de Assis”, do Instituto Nacional do Livro; “Carmem Dolores Barbosa”, prêmio Municipal de São Paulo e “Paula Brito”, Municipalidade do Rio de Janeiro. Desde então, a crítica literária, principalmente nos anos imediatamente seguintes, tem notado a imensidão do Sertão rosiano. A primeira tradução do romance recebe o título de The Devil to Pay in The Backlands (1983). Em 1965, vertida para o francês, temos Le Diable das la Rue (...) – o Diabo, portanto, ganhou destaque – e poderiam ter sido tantas outras traduções, tão vasto é o “número” de temas em GSV. Por outro lado, tanto a demonologia como a instância do pacto com o “Bode-Preto” em sua fortuna crítica mostram-se pouco evidenciadas.

No romance "fabulista, fabuloso" de João Guimarães Rosa, o pacto se dá com a insegurança que circunda a palavra - sem sangue, sem vínculo. O contrato com o Diabo surge no cotidiano de Riobaldo como nova possibilidade em meio à oscilação da própria vida e da vivência daqueles que o rodeiam.

gsv_divulgacao_138e139.jpg “Tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso.”

Vale destacar que a noção de que o ato de falar de Riobaldo em busca de um pacto atormenta os pensamentos do narrador evidencia-se em trechos como “O crespo – a gente se retém – então dá um cheiro de breu queimado. E o dito – o Coxo – toma espécie, se forma! Carece de se conservar coragem. Se assina o pacto. Se assina com sangue de pessoa. O pagar é a alma.” Para quem buscava se vingar de Hermógenes, aquele que compactua com o Diabo abrindo mão da própria alma, possivelmente, a motivação para os repetidos retornos a essa questão enquanto narra sua vida dá-se pelo fato de ter não só buscado um pacto com o “Dito Cujo”, mas ter falado, dito, pronunciado sua vontade em uma encruzilhada – e não mantido o desejo apenas em seus pensamentos. Emaranhado de mundos, Grande Sertão: Veredas sugere como caminho a ser seguido o percorrer também das margens, para que atentemos ao que pode, em uma leitura breve, parecer baldo. Se o outrora Urutu-Branco tanto andou e tanto viveu, sendo professor, jagunço, líder, fazendeiro e então narrador, parece indispensável acompanhar as veredas sinuosas que compõem a narrativa, dando espaço à condição do pacto, dos contratos e das relações, posto o fato de que “Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?” – voltando sempre, assim, a nos fazer pensar nas travessias.

Outros pactos

A relação pactuária entre Riobaldo e Diadorim se evidencia ao decorrer das passagens, às descrições dos passeios pelas veredas. Diadorim, a quem Riobaldo se refere desde as primeiras páginas até os últimos instantes de seu longo monólogo, por vezes em instantes nos quais o confessor pontua a desordem de sua fala, de seu pensar, compactuou com o narrador do Grande Sertão já ao lhe apresentar as turbulências dos caminhos caudalosos, quando ainda eram moços muito jovens. Posteriormente, firmam-se por meio da jagunçagem, caminhando junto em meio às tragédias e às “quisquilhas” do cotidiano. Há tantos pactos quanto há nomes dados ao Diabo na obra: (quiçá) imensuráveis.

Humanoluciferação

Vale destacar que, para além do diabo que há e não-há, a personificação do mal se apresenta na figura do rival de Joca Ramiro, potencializada pelo que se costuma dizer sobre ele: “... O Hermógenes tem pauta... Ele se quis com o Capiroto...”

O narrador homodiegético de Grande Sertão: Veredas nega a existência do Diabo e, portanto, a sua condição de pactário. Posteriormente, perde-se em suas narrativas e seus pensamentos sobre a morte de Reinaldo-Diadorim, sobre ter feito ou não o pacto, sobre ter tomado as rédeas ou ter se perdido por completo, sobre o Diabo existir ou não. Parece-nos, dessa maneira, que a tensão de contrários que se dá na obra de Rosa é apresentada como a própria performance da vida. “O senhor ache e não ache. Tudo é e não é” , indica sempre o narrador e possível pactário. Por conseguinte, são as indagações de Riobaldo, e não as certezas, as guias de leitura.

Assim, a emersão dos desejos mais profundos se apresenta na condição da pretensão de se realizar o pacto diabólico, isto é, o querer realizá-lo já possibilita pensar o que representa esse instante, essa vontade de abandonar o grupo dos que parecem nunca chegar a vencer – é o pacto como metáfora, esse contato com o simbólico. É mais do que apenas cumprir com o processo narrado por Riobaldo “O pacto! Se diz – o senhor sabe, Bobéia. Ao que a pessoa vai, em meia-noite, a uma encruzilhada, e chama fortemente o Cujo – E espera”. O fio da agonia de poder ter realizado tal contrato e, assim, ter causado a morte de Reinaldo, perpassa a narrativa. O não, o nada feito, a inexistência do contrato por sangue – o que não pode ser extirpado porque sequer houve concretude alguma. Como dissera Guimarães Rosa na famosa entrevista com Günter Lorenz: “fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes da minha vida. (...) Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte”, e segue afirmando que tais valores fazem parte da espinha dorsal do seu romance. Através de Grande Sertão: Veredas, Guimarães se assemelha ao que foi Dostoiesvki para Wilde: "pensar a condição humana em meio ao sofrimento", destacando as palavras do búlgaro Tzvetan Todorov, em seu conjunto de ensaios sobre Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva.

O diabo Dostoievskiano apresentou-se em Irmãos Karamazov com os seguintes ditos: “Sou Satanás e nada do que é humano reputo alheio a mim.” Se Riobaldo compactuou ao chamar Lúcifer na encruzilhada ou não, foi a vontade que lhe corroeu. Entranhando-se na condição humana, nada foi alheio ao protagonista de Guimarães, muito menos as angústias mais demoníacas.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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