astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

ESCRITA APÓS O MASSACRE DE CARANDIRU EM SOBREVIVENDO NO INFERNO, DE RACIONAIS MC’S

Racionais vão contar a realidade das ruas
Que em nome de outras vidas, a minha e a sua viemos falar
Que pra mudar temos que parar de se acomodar
E acatar o que nos prejudica
O medo – sentimento em comum num lugar
Que parece sempre estar esquecido
Desconfiança, insegurança, mano
Pois já se tem a consciência do perigo, e aí? – Pode crer
Mal te conhecem consideram inimigo

Pânico na Zona Sul, 1993.


Racionais Livro.jpg Livro Sobrevivendo no Inferno, 2018.

Doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da UFPE, Acauam Silvério considera que Sobrevivendo no Inferno, álbum publicado em 1997, salvou vidas. A produção em questão alcança sucesso significativo, vendendo mais de 500 mil cópias, logo após lançado, sem qualquer apoio de uma grande rede de distribuição, e dá visibilidade aos diversos grupos com estratégias de sobrevivência em espaço marginalizado, isto é, grupos de teatro, de debates, de hip-hop e de outras naturezas: um verdadeiro “caldeirão cultural” na periferia ganha um pouco de voz.

A relação entre o cristianismo e a negritude é pensada, ainda pelo professor da UFPE, como uma abertura a um diálogo à população deste espaço em que, em plena década de 90, tem-se um elevado crescimento de igrejas neopentecostais. Na tese O fim da Canção? Racionais MC’s como efeito colateral do sistema cancional brasileiro, o pesquisador considera a ascensão do grupo musical como uma "tomada" da MPB, um modo de lembrar que existem e que promovem o “terror” contra a segregação social: “É como se o gênero tomasse forma a partir dos destroços desse projeto de formação social. Comprometendo-se, de forma radical, com aqueles que ficaram socialmente relegados às margens de um projeto de integração que nunca chegou a se completar”, lemos em sua pesquisa. Neste contexto, diz Mano Brown: “Não sou artista. Artista faz arte. Eu faço terror. Sou terrorista”. Conforme a filósofa Djamila Ribeiro, as letras de Racionais atuam como organizadoras do ódio.

Considerado a voz das áreas mais pobres e populosas de São Paulo, em 2007 foi entrevistado pelo Roda Viva, apresentando Malcom X como uma forte referência para essa perspectiva social. Mano Brown já interrompeu shows para ir separar brigas na plateia, fazendo discurso sobre a união dos periféricos contra o Estado genocida. Em 1998, Diário de um Detento foi um dos clipes mais apresentados na MTV, quando foi premiado pelo canal. Referência ao Massacre do Carandiru, a obra traz à tona o esquecimento do país em relação ao acontecimento. Jocenir, detento visitado pelo líder dos Racionais, foi apresentado a ele por ser escritor que se fez na prisão. Posteriormente, apresenta um texto que, com escrita continuada por Mano Brown, torna-se Diário de um Detento. Mário Medeiros, doutor em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas, lembra ainda que o próprio prédio do Carandiru sequer existe mais, assim como muitos dos funcionários não trabalham mais em qualquer local e vários presos que estavam nesta Casa de Detenção já faleceram. Isto é, a memória oficial já teria esquecido por completo o massacre, não fossem a obra de Jocenir e a projeção de Sobrevivendo no Inferno.

Na obra de Racionais MC's, o Brasil cantado se opõe ao discurso do Brasil harmônico. Em entrevista ao jornal Le Monde, Mano Brown comenta que a prioridade era lutar pela integração entre as periferias. A liturgia da obra é pela sobrevivência dos grupos periféricos, pela visibilidade destas áreas e pelo ódio à segregação social. Como dito, para os Racionais MC’s não existe cordialidade entre as “quebradas” e o Estado genocida. Nem deve, nem haverá.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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