astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Narrativa dos muitos: Bacurau e a potência dos pobres

"Em um sentido mais geral, a multidão desafia qualquer representação por se tratar de uma multiplicidade incomensurável. Ao contrário do conceito de povo, o conceito de multidão é de uma multiplicidade singular. O povo constitui um corpo social, a multidão não, porque a multidão é a carne da vida. Massa e plebe são palavras que têm sido usadas para nomear uma força social irracional e passiva, violenta e perigosa, que justamente por isso é facilmente manipulável. Ao contrário, a multidão constitui um ator social ativo, uma multiplicidade que age." (HARDT; NEGRI).


bacurau-divulgacao-e1567441472445.jpg Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes neste ano (2019)

É na esteira dos pensamentos dos filósofos políticos Michael Hardt e Antonio Negri que o professor de literatura Luciano Justino conceitua a Literatura de Multidão como “narrativas de muitos, em estado de co-pertencimento. Os muitos são tanto do lugar, partilham uma vizinhança próxima e os problemas comuns de toda proximidade, quanto operam no cotidiano com diversos alhures, econômicos, culturais, linguísticos, tecnológicos.”

O discurso do professor Plinio (Wilson Rabelo) e filho da matriarca de “Bacurau” (Brasil/França, 2019) - em cartaz nos cinemas brasileiros – apresenta Carmelita (Lia de Itamaracá) como mulher forte e batalhadora que não mediu esforços para auxiliar sua família e outras pessoas. A procissão fúnebre é marcada pela apresentação, ainda introdutória, da multiplicidade singular dos sujeitos. Bacurau é uma cidade (fictícia) no sertão pernambucano, na qual os muitos compõem as narrativas com seus modos de vida comuns e suas estratégias de sobrevivência naquele local abandonado à própria sorte, estratégias estas que oscilam entre o âmbito individual e o coletivo. Não há massa acéfala, tampouco povo homogêneo: a “identidade” e a unidade surgem como estratégias, por exemplo, para se afastarem de Tony Jr (Thardelly Lima), prefeito que faz política como herdeiro do coronelismo.

O encontro com a alteridade faz o local, assim como seu desencontro move a narrativa faroeste futurista, miscelânea de gênero, no melhor sentido do termo. Na narrativa, a potência dos pobres se faz na contra-estigmatização da pobreza, na oposição à passividade, à nulidade e à irracionalidade dos pobres, noções estas alimentadas pelo discurso das elites. Além das questões narratológicas, a obra também foi feita por muitos. Segundo o jornal O Globo, o filme produzido no sertão do Seridó, na divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, mobilizou 800 empregos direitos e indiretos.

Luciano Justino, sobre as narrativas de multidão, diz que são "narrativas de encontros com a alteridade, o outro é uma presença inalienável, não raro com as pechas do preconceito e da exclusão. Observar, por exemplo, o papel desempenhado pelos nordestinos, como os narradores e os personagens os tratam e, por sob a superfície do enunciado, como os nordestinos produzem e negociam seu modo de vida enquanto 'margem da margem' é sem dúvida uma tarefa das mais importantes a se fazer.”

Os pobres não são estigmatizados pela narrativa em questão, mas o clímax em Bacurau é justamente a resposta dessa multidão à estigmatização por parte dos que se querem exclusivamente protagonistas, no excesso do sentimento de superioridade, e marginalizam os que ali residem. A verdade é que a proposta de Justino é ler narrativas à revelia de suas leituras habituais, dando o negado espaço aos muitos. Na cidade de Bacurau, o espaço já era dos muitos, o que não era esperado pelos que atuam para retirá-la do mapa, como possível atividade corriqueira dos que excluem. A placa avisava que não seria fácil. Faltou interpretação de texto de uns e consciência de classe de outros. Todavia, não faltou resistência da multidão.

532061c1-e857-4cb7-bb0d-f2d827cdca44.jpeg Sic vis pacem para bellum à nordestina


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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