astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

JÁ ACABOU, SHIRUKAYA?

"Rinhas de gente, maridos tóxicos e mortos, mulheres armadas até os dentes, um Clube da Luta às avessas e lucrativo, uma personagem colecionadora de tesouras, facas afiadas pra dar e vender, cortes, tiros e socos. Aqui a violência é a única forma possível de sobrevivência". (Sinopse do Livro)


Tráfico.jpg Imagem retirada da página da Enclave editorial, paraibucana como eu.

Saí para almoçar neste domingo no centro de Campina Grande e após isso andei pelas praças vazias pós-feriado até chegarmos em frente à livraria, de onde fui para casa.

Ontem cheguei tarde e deixei as compras da feira na mesa. Feira de literatura: II Feira Literária de Campina Grande - FLIC. Cinco livros. E umas folhas para chá compradas sem motivos. Quando voltei da andança após o almoço, pensei em ler um ou dois trechos de Tráfico de Violência, de Wander Shirukaya, livro lançado na FLIC. O que foi um erro.

Não sei porque, comecei por Tapete Vermelho, o segundo dos doze contos que integram o livro de quatro partes: O Despertar da Besta, Decadence avec Elegance, Sutil Carmim e Se não pode vencê-la... . Foi o cutelo ganhado de presente do marido, no dia dos namorados, para o preparo de carne, o meu problema. A personagem só quer se desfazer daquele tapete e pede ajuda à amiga Jéssica: "Você sabe que sou alguém que preza pela paz e cordialidade, por isso mesmo cansei da cor pesada desse tapete. Por favor, não repare na bagunça da casa. No fim, vai ficar mais lindo". Feng shui? Foi pela harmonia.

Daí desembestou. O livro tem epígrafes de Poe, Fiona Apple, Slavoj Žižek; as narrativas têm uns quês de Daniel Galera, Ana Paula Maia e Marcelino Freire. Isso não me ajudou. Não faltam facas e ensaio sobre tesouras.

Talvez, pelo tráfico, sejam violências que não passariam em Datena. Não assim. E não pensem que falta sangue. Imaginem alguém que gosta de Rambo: Até o Fim (2019), mas que se assustou com a violência em O Coringa (2019). No conto Sinfonia do Absurdo, já diz Marina "Afinal, por que aquilo? Sei lá, vão me chamar de surtada, desvairada, esse tipo de coisa; a verdade é que estou bem consciente, as pessoas não entendem o porquê de mortes tão esquisitas". Se saísse em Datena assim, o destino dessa narrativa seria se tornar fanfic disparada em grupos de famílias com conspirações sobre Marina ser pró-vacina ou anti-terraplanismo, assim a compreenderiam melhor. Ou, como lemos no conto Enjoo, diriam: "Que loucura! (...) O caos está reinando. (...) Demônio, só pode ser, mas Jesus está voltando."

O erro foi que eu tinha umas atividades a fazer na tarde de hoje, mas quando vi eu já estava lendo o último conto: Tráfico de Violência, com a Clarice da era das redes sociais de certo modo bem pouco (ou muito) clariceana. Diz seu esposo: "Permaneci observando de longe. Várias mulheres reunidas, riem, se abraçam, aplaudem, Clarice está entre elas, rindo, embora mantivesse a mão no rosto. Câmera. Que é isso? Vão registrar para denunciar? Não, uma câmera daquelas para isso é exagero, a mocinha com ela bastante feliz, minha esposa posa para ela, um sorriso envergonhado, as mãos permitindo captar o olho inchado. Quê? Quanto mais eu via, mais queria sair dali, que que elas estão fazendo, umas quinze a vinte mulheres reunidas para... Isso?"

Foi tudo de supetão. Eu terminei a leitura, levantei do chão meio descabelada e pensei: Já acabou, Shirukaya? O que me lembrou a Rinha do primeiro conto.

A verdade é que alguns contos podem ser bem esquisitos: recomendo.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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