astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena D'Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Diante das experiências dos outros: narrativas gráficas para ler durante a quarentena (ou depois dela)

Campo de concentração de Auschwitz pelos relatos de um sobrevivente, Guerra da Bósnia sob o olhar de um jornalista, início da república islâmica autocrática na perspectiva de uma iraniana, interior belga underground da década de 80, mulheres iemenitas e direitos femininos na visão de uma fotojornalista ou autoficção sobre uma "lobismoça" que investiga o assassinato de sua vizinha alemã num turbulento contexto social e político dos EUA do final da década de 60. "Por que comics, por que ratos, por que holocausto?" indaga o personagem de Maus, de Art Spiegelman.


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Em um movimento que possibilitou a elaboração de quadrinhos considerados mais autorais, foi possível a expansão da estrutura que previa apenas seriação das publicações, de modo que os autores não apenas tinham mais liberdade no que diz respeito ao surgimento de um novo formato de obras da nona arte, como os iniciantes poderiam se inserir neste espaço sem que precisassem, impreterivelmente, trabalhar com personagens que deveriam figurar em dezenas ou centenas de quadrinhos, como acontece com frequência nos chamados quadrinhos de super-heróis. Esse primeiro momento levou, assim, à promoção das comix, o que leva à narrativa que pode ser entregue em uma só obra, por exemplo. Posteriormente, conforme Costa, em Discurso autobiográfico, um elemento recriador das histórias em quadrinhos, “o quadrinho alternativo passa a ocupar esse espaço. Esse formato surge com uma ênfase de uma proposta artística mais forte e marcada por um interesse de se fazer HQs de temas mais sérios e cravar de vez o marco na autonomia do artista.” (2015). É nesse cenário de possibilidades que surgem as narrativas gráficas, responsáveis, assim, por esse lugar da autonomia da apresentação da narrativa e dessa condição, com muita frequência, da “história completa”.

'Obras como Maus (1980), de Art Spiegelman, Safe Area Goražde (2000), de Joe Sacco, e Persepolis (2000), de Marjane Satrapi, têm mais em comum do que o fato que receberam grandes prêmios para a categoria e alcançaram grande popularidade: são romances que expõem experiências pessoais por meio da arte sequencial. Persépolis, em específico, faz de Satrapi a primeira autora de graphic narrative autobiográfica do Iran e recebe adaptação cinematográfica homônima.

A narrativa gráfica Maus – a história de um sobrevivente, de Art Spiegelman, considerada uma das primeiras narrativas gráficas a ganhar notoriedade acadêmica, recebe a classificação de ficção à revelia do autor, “uma vez que o relato autobiográfico é o alicerce que sustenta toda a condução da narrativa de Spiegelman” (MIGUEL, 2006, em Autobiografia e autoficção em Maus, de Art Spiegelman). Na obra, com recursos metalinguísticos e mesclas de estilos narrativos, Art apresenta as experiências de Vladek, seu pai, nos campos de concentração nazista: Maus.jpg Maus (1980), de Art Spiegelman

Na obra Safe Area Goražde (2000), tem-se que, "entre os anos de 1992 e 1995, durante a Guerra da Bósnia, a imprensa mundial, sempre centrada na capital Sarajevo, realizou uma maciça cobertura da tragédia. Sarajevo tornou-se parte do grande espetáculo mundial. No entanto, na parte oriental do país, a população muçulmana era vítima de selvagerias impostas pelas forças sérvias, que atacavam com uma crueldade impressionante. Isso ficou oculto e desconhecido aos olhos do mundo. A ONU decidiu agir, criando as 'áreas de segurança' nos territórios onde se confinavam os muçulmanos. Esses locais se tornaram os mais perigosos do país, devido ao cerco dos sérvios da Bósnia, que realizavam ataques constantes." Desenhando-se e apresentado como personagem que caminha na área, é o próprio Joe Sacco quem elabora esta obra de jornalismo em arte sequencial.

No romance gráfico Persepolis, a iraniana Marjane Satrapi evidencia como foi sua infância tendo presenciado a queda da monarquia autocrática pró-Ocidente em 1979 e o início de uma república teocrática comandada por Ruhollah Khomeini. Estudando até então em uma escola laica bilíngue, as crianças passaram, obrigatoriamente, a usarem véus e serem separadas por sexo até mesmo na hora de subir escadas, além de não poderem mais estudar em escolas cujo idioma remetesse à cultura ocidental. Um país como o Irã, que tantas vezes foi palco de invasões, agora vivia sobre o julgo institucionalizado de um “islã do subterrâneo, esotérico e revolucionário” (SATRAPI, p. 04, 2007) herdeiro da invasão dos árabes na Pérsia em 642. Esse cenário parece relativamente conhecido já dos jornais ocidentais. Por outro lado, a leitura da obra não nos deixa no âmbito supérfluo das relações interpessoais no trato para com o islamismo. Outras questões são, inclusive, mescladas nesse mosaico que é a obra.

Em O Muro (2015), obra roteirizada pela belga Céline Fraipont, com arte gráfica em preto e branco do argelino Pierre Bailly, acompanhamos o conturbado início da adolescência de Rosie, que vive desde abandono materno e depressão do pai a um relacionamento que lhe deixa marcas profundas. A sinopse aponta: "O Muro é uma história poética, forte e pungente, desfiada por um desenho frio como o toque de um bisturi, que arrasta o leitor pelos caminhos obscuros de uma adolescência problemática ao som do punk rock. Estamos em 1988. Numa monótona cidadezinha do interior belga, Rosie, uma menina de 13 anos, se vê entregue à própria sorte: sua mãe fugiu com outro homem numa aventura amorosa, e seu pai vive mergulhado no trabalho. Roída por uma rotina morna e vazia, Rosie fica completamente desorientada. Assiste, impotente, à transformação de sua personalidade, ora apavorada, ora determinada, diante da melancolia que a invade e traça os contornos de sua nova vida".

É o olhar da fotojornalista Agnes Montanari que possibilita a produção de O mundo de Aisha: A revolução silenciosa das mulheres no Iêmen (2016), reunião de narrativas colhidas por Montanari - junto às fotografias, enquanto vivia no Iêmen, pequeno país ao sudoeste da Península da Arábia - com ilustração de Ugo Bertotti. Considerado um dos países árabes mais pobres, além da pobreza, as mulheres precisam enfrentar a disparidade de gênero. É o desconhecimento sobre o modo de vida das pessoas que integram o país, bem como o cenário de naturalização das violências domésticas contra meninas e mulheres que despertam sua vontade de registrar e de colher as narrativas. Montanari tem a sensibilidade de registrar as jornadas cotidianas das meninas e mulheres iemenitas, entendendo, inclusive, que as mães têm escolhido que suas filhas não tenham o mesmo destino que elas, o que implica em uma mudança, ainda que muito pequena, mas que vai ganhando contorno.

Usando milhares de canetas esferográficas, Minha Coisa Favorita é Monstro (2018) entrelaça uma narrativa de drama psicológico, estética de revistas de horror, casos de xenofobia, descoberta de sexualidade, passeios por museus e obras de artes e memórias do holocausto, para citar apenas esses elementos. Em entrevista ao GaúchaZN, a premiada autora Emil Ferris trata sobre sua obra, que demorou cinco anos para ser elaborada:

GZN: Seu livro é como um caldeirão em que se misturam o drama psicológico de uma menina que precisa lidar com sua sexualidade, o turbulento contexto político e social do final da década de 1960, a investigação de um assassinato, as memórias do Holocausto, a cultura pop dos gibis e filmes de terror e a História da Arte. Como você fez para cozinhar de uma forma que fosse palatável? Você teve a preocupação de harmonizar os ingredientes? Seguiu uma receita ou foi jogando tudo à medida que a imaginação mandava?

Emil Ferris: Essa é uma grande metáfora. Imagino que a receita que você mencionou requer que eu periodicamente prove o ensopado. Se eu gosto, pessoalmente, eu sirvo à mesa. No processo de cozimento, eu me apego a certos ingredientes. Eles são as coisas que me aturdem, aos mistérios e às visões que acho deliciosos.

Monstruosas de suas maneiras, como dito, Maus apresenta a Alemanha nazista pelos relatos de um sobrevivente; Safe Area Goražde, a Guerra da Bósnia sob o olhar de um jornalista; Persepolis tem como contexto inicial o surgimento da república islâmica autocrática na perspectiva de Marjane; Muro versa sobre a jovem Rosie no interior belga underground da década de 80, O mundo de Aisha traz narrativas sobre mulheres iemenitas e direitos femininos na visão de uma fotojornalista e Minha Coisa Favorita é Monstro pode ser considerada uma autoficção sobre uma "lobismoça" que investiga o assassinato de sua vizinha alemã num turbulento contexto social e político dos EUA do final da década de 60. Ficam as dicas de leituras dessas narrativa para serem devoradas durante essa quarentena. Ou não.


Mylena D'Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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