astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"8.
Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte."
In: Crepúsculo dos ídolos.

Contrastes visíveis em Pequim como recorte da China contemporânea: notas sobre o dragão chinês, o deus ocidental e outros imperialismos


China.jpg Cidade Proibida e Terminal do Aeroporto, ambos em Pequim.

O país mais populoso do mundo tem um vasto território, na Ásia Oriental, que apresenta paisagens diversas, desde montanhas e lagos a desertos. Na última década, o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do país tornou essa nação bastante divulgada no Ocidente como um país em desenvolvimento econômico e de vasta produção industrial: grandes indústrias, prédios e aeroportos marcam a China moderna.

Sabe-se que a sua capital traz o contraste dessas mudanças contemporâneas e de seu passado: a Cidade Proibida Púrpura, palácio imperial chinês desde a Dinastia Ming até a última dinastia imperial da China - a Dinastia Qing - é marca cultural de Pequim e Patrimônio Mundial da Humanidade desde a década de 80, conforme a Unesco. Na Cidade Proibida há a Galeria da Harmonia Suprema, local outrora utilizado para as mais importantes cerimônias imperiais. O Trono do Dragão ainda se encontra no espaço, trono de onde o imperador expunha suas decisões. Um espaço com ornamentos de dragões em esculturas era reservado à sua presença. Na história da cultura chinesa, sabe-se que o dragão é o símbolo da sabedoria e do poder do Império.

O maior terminal do mundo, no Aeroporto de Pequim, também representa um dragão. Conforme seu arquiteto, “Um símbolo do local, seu telhado elevado e aerodinâmico na forma de um dragão, celebra a excitação e a poesia de voar e evoca as cores e os símbolos tradicionais chineses”.

Não há unanimidade quanto ao surgimento do símbolo do dragão. Todavia, “estima-se que tenha sido há 8 mil anos. Sua mais antiga representação foi descoberta em 1987, na província de Henan, ao sul de Pequim”. Representado pelos chineses de várias formas distintas, inclusive observado desde a arquitetura tradicional às mais contemporâneas construções, como é o caso do novo Terminal no Aeroporto de Pequim, a imagem do dragão chinês é, no Ocidente, percebida como algo que integra uma percepção meramente mística dos chineses, de maneira que é muito comum uma visão folclórica desse uso de símbolos.

Conforme o importante intelectual palestino, Edward Said, cultura engloba “tanto o saber popular sobre partes distantes do mundo quanto o conhecimento especializado de disciplinas como a etnografia, a historiografia, a filologia, a sociologia e a história literária” (2011). Presumir, portanto, que qualquer país resguarda apenas um modo de expressão cultural é uma percepção limitada.

Em contraste, as várias produções culturais, especialmente em culturas ocidentais, a respeito de um deus do Cristianismo não são compreendidas como resquícios de folclore de sociedades. Essa leitura que coloca os que usam símbolos de dragões como místicos e folclóricos versus os que cultuam um deus cristão como civilizados é apenas um modo de imperialismo cultural.

Outra parte da formação desse estereótipo dos chineses se vincula aos animais exóticos. Sabe-se que períodos de má distribuição de alimentos, que geraram insuficiência alimentar e fome nas terras chinesas, levaram a parte mais vulnerável da população ao consumo frequente de animais silvestres. Por outro lado, estudos recentes, como Wildlife consumption and conservation awarenessin China: a long way to go, apontam que mais da metade da população chinesa sequer concorda com o consumo desse tipo de animais na contemporaneidade. Ainda em Cultura e Imperialismo, Said menciona a comum atribuição de um Oriente só de misticismos, ou os estereótipos que são produzidos para certos grupos sociais, como é o caso dos chineses, como modo de justificativa para inferiorização de povos – isto é, de imperialismo dos que os diminuem.

Ironicamente, esses Mercados de Animais Exóticos costumavam servir com frequência ao turismo. É evidente que quaisquer mercados de consumo de animais silvestres, ou de outra natureza, que ponham em risco a saúde da população, não devem existir. Mas as visões reducionistas de povos e culturas também não devem ter espaço seja no Oriente, seja no Ocidente.

Pequim, capital do país mais populoso do planeta, apresenta desde patrimônios históricos a exemplares da arquitetura contemporânea, pois qualquer cultura viva e atuante é passível de mudanças e contrastes. Em um país de culturas milenares, não seria diferente.

(Texto elaborado para o Curso Intensivo de Introdução à Cultura Chinesa, ofertado pelo Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras em parceria com a Hebei Normal University e ministrado pela professora Ana Qiao, a quem agradeço pelos ensinamentos.)

Referências:

INGERSOLL, Ernest; et al. (2013). The Illustrated Book of Dragons and Dragon Lore. Chiang Mai: Cognoscenti Books

NO RADAR. Arquitetura Contemporânea – Aeroporto de Pequim – China. Disponível em: https://www.arquitetura.noradar.com/arquitetura-contemporanea-%E2%80%93-aeroporto-de-pequim-%E2%80%93-china/

PORTARI, Douglas. Por que os dragões são tão reverenciados na China? Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/adoraveis-dragoes/

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo / Edward W. Said; tradução Denise Bottmann. — São Paulo : Companhia das Letras, 2011

ZHANG, Li e YIN, Feng. Wildlife consumption and conservation awarenessin China: a long way to go. Biodivers Conserv (2014) 23:2371–2381.


Mylena Queiroz

"8. Da Escola de Guerra da Vida - o que não me mata torna-me mais forte." In: Crepúsculo dos ídolos..
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