astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

No Brasil, seguimos tentando ler - uma conversa com unicornioliterario, contaolivro, sonhodeestante e annasaraivaf

"Seria um grande sonho ver livros com preços mais acessíveis e que nosso governo investisse com real vontade na educação. Acredito que todos nós temos gosto pela leitura, algumas pessoas infelizmente não têm a oportunidade de conhecer esse mundo. É um caminho muito difícil, eu sei, mas não custa sonhar, não é mesmo?" diz annasaraivaf. Junto a ela, unicornioliterario, contaolivro e sonhodeestante falam sobre suas experiências como influenciadoras digitais de leitura literária.


Book.jpg Imagens dos perfis no Instagram unicornioliterário, contaolivro, sonhodeestante e annasaraivaf.

Neste ano de 2020 surgiu a proposta de Paulo Guedes que ameaça a isenção do mercado livreiro, mercado o qual alcançou este status apenas em 2004. Não houve proposta do fundador do Banco Pactual para taxar os sempre isentos bens de luxo, como barcos e aeronaves, o que possibilitaria direcionamento de recursos na casa dos bilhões para áreas como Educação pública. Mas para os livros, há a ideia de maior taxação.

O ano de 2020 tem sido bastante adverso para todos, evidenciando desigualdades educacionais. A Radis, revista distribuída publicamente pela Fiocruz, alertou que "4,8 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, no Brasil, não têm acesso à internet — o que corresponde a 18% dessa população. 58% dos brasileiros nessa faixa etária acessam à internet exclusivamente pelo celular — o que pode dificultar a execução de tarefas relacionadas a aulas remotas emergenciais durante a pandemia." Uma série de estudos aponta que, muitas vezes, as leituras direcionadas que estudantes de áreas mais vulneráveis têm acesso são as leituras do currículo escolar.

Apesar de todos os pesares, seguimos tentando ler. Inclusive, segundo a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto pró-livro, o Nordeste é a região brasileira que mais lê, apesar de historicamente ser uma região com baixo investimento federal - disparidade reduzida nas últimas décadas - na área de educação. Nesse cenário complexo de desigualdades sociais e de caça ao livro, ler é resistência.

Nas redes sociais, ler também é possível. Especialmente no Instagram, uma série de perfis se mobilizam para indicar leituras, apresentar autores e resenhas de obras literárias, sendo uma possibilidade àqueles que têm acesso a essa rede. Conversei com algumas dessas influenciadoras, Joanne, do unicornioliterário, Amanda, do contaolivro, Aninha, a annasaraivaf e Mari, do sonhodeestante, as quais apresentaram suas motivações e seus principais interesses com a promoção da leitura literária via Instagram.

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Protagonismo negro no unicornioliterario

Joanne ♡ Bookstagram 📚Protagonismo negro, resenhas e quotes

Para Joanne, a maior motivação hoje tem sido a perspectiva da interação com outros leitores, fazendo do bookstagram o lugar onde encontra pessoas com mais afinidade, já que ler é aquilo que mais gosta de fazer. Fazer um post ou um projeto e o resultado desse esforço ser a interação é válido para que continue se motivando.

Surgiu a ideia de criar um Instagram só com resenhas. "A ideia surgiu na minha mente e pensei (de verdade) que era inédita, quando fiz meu primeiro post muitos bookstagrans apareceram e curtiram, então percebi que a ideia era antiga e eu que estava atrasada." Para ela, valeu a pena ter se aventurado e descobrir muitas propostas depois que criou o bookstagram.

"Essa é uma mensagem de uma menina que aos 4 anos aprendeu a juntar as sílabas, e aos 5 conseguiu ler e não parou mais. Uma menina que sofreu racismo, bullying, isolamento e que encontrou nos livros seus melhores amigos de uma maneira muito feliz. Ela encontrou nos livros personagens incríveis que a ajudaram a passar por muitos momentos difíceis. É impossível um passado não deixar marcas, mas os livros e as histórias amenizaram muitas coisas. Essa menina se tornou adolescente e, graças a esse hábito de ler, escreveu a melhor redação do pré-vestibular, o pré-vestibular era gratuito porque ela não tinha condições financeiras para pagar e ela também não podia comprar as apostilas, ao ganhar como melhor redação, ela também ganhou todas as apostilas do cursinho e assim conseguiu uma vaga na Universidade Federal da sua cidade. Hoje ela é uma mulher independente e que jamais abandonou esse hábito, porque esse hábito jamais a abandonou também. Leia! Ler é incrível!"

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Multiplicando leituras em contaolivro

Amanda | Bookstagram 💬 Dividindo o amor por livros

Segundo Amanda, tudo começou porque ela sempre gostou de compartilhar as suas experiências de leitura com as pessoas do seu convívio. Sua motivação é criar laços (amizades), conversar sobre as leituras e trazer mais leitores para esse universo. "Eu já vinha amadurecendo essa ideia [de criar um Bookstagram], mas do nada resolvi por em prática."

Com mãe professora que a ensinou a ler, o hábito da leitura foi desenvolvido desde a infância, o que "fez desenvolver esse hábito ao comprar livros, revistas, quadrinhos e para escrever um pouco sobre todo livro que li. Aos 8 anos eu já lia clássicos infantis e séries mais longas, tudo por influência dela e de acordo com o que ela me presenteava. Aos 12 a busca pelos livros passou a partir de mim e foi nesse momento, ponderando sobre o que eu gostaria de ler que o amor nasceu. Descobrir o que eu gosto foi um caminho sem volta e me fez querer trazer outras pessoas para essa experiência junto comigo."

Para ela, muita gente visualiza a leitura como algo tedioso que demanda muito tempo, acreditando que muitos desses pensamentos vieram das leituras obrigatórias impostas pelas escolas. "Existe momento certo para ler um livro e existem gêneros que vamos nos identificar mais, o segredo é descobrir o que você gosta. Eu sempre gostei de ler, mas só fui descobrir o que eu amava aos 12 anos e nuca mais parei. Então a dica é: De acordo com os filmes/series que você assiste, que tipo de gênero vai te interessar? Os influenciadores literários estão ai justamente para guiar essas pessoas através desse caminho e manter o interesse delas em outras obras."

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Leia até pesadelos por sonhodeestante

🇧🇷 Seja bem-vindx! Literatura | Fotografia | Filmes | Séries

"Tudo começou quando eu tinha 6 anos e antes mesmo de entrar na escola já lia em casa alguns livros que foram dos meus pais e meus tios. Na escola, eu tive a sorte de estudar em um lugar onde valorizavam os livros e toda semana tínhamos um horário reservado para ir à biblioteca. Quando saí dessa escola acabei me distanciando dos livros, até que com 15 anos eu conheci esse nicho de produção de conteúdo no youtube e no instagram e, além de assistir e ler as recomendações, criei meu próprio espaço que me proporcionou muitas leituras e amizades incríveis. Eu sou formada em design gráfico, mas sempre quis trabalhar nesse meio com os livros e venho me surpreendendo com a quantidade de pessoas que buscam as redes sociais para conversar sobre livros."

Buscando conteúdo nas redes, mas nem sempre encontrando informações sobre os livros que queria, Mari resolveu criar o seu próprio canal para falar sobre os livros que lia e encontrar pessoas que também os tivessem lido. Segundo ela, a comunidade de leitores na internet é muito unida e isso a motiva a querer estar presente e procurar ideias novas e diferentes para mostrar.

O seu primeiro contato com a comunidade literária da internet foi através de uma maratona de inverno organizada pelo Victor Almeida, do canal Geek Freak. "Mas antes disso eu já assistia Tatiana Feltrin e a Mell Ferraz que me influenciaram muito para ler mais clássicos", informa.

Para Mari, mesmo com a correria do dia a dia, muitas pessoas, em qualquer momento ocioso, já pega o celular. Por isso, diz: "Acredito que se pararmos para repensar nossa rotina, dá para encaixar pelo menos 20 minutinhos para leitura. Então, ao invés de ficar no celular ou assistir tv antes de dormir, principalmente, pois é um momento no qual precisamos descansar, um livro, além de nos ajudar a relaxar, nos garante um bom entretenimento ou aprendizado, dependendo da escolha de leitura. Sem falar que hoje temos várias opções, não precisamos ter o livro em mãos, existem os livros digitais e os audiolivros, que podem ser ouvidos enquanto realizamos uma tarefa que não requer tanta atenção."

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annasaraivaf - democratizando a leitura com as armas que têm em mãos ANINHA SARAIVA 💙 apaixonada por livros, pessoas tagarelas, gatos, bombons de banana, e café ✨

Entre os livros de sua biblioteca, sua camiseta diz: Bolsofóbica. Ana Maria comenta que sempre gostou de ler e teve a oportunidade de estudar em ótimas escolas (públicas) e ter professores que a fizeram uma "rata de biblioteca". A ideia de que ela possa, por menor que seja, exercer alguma influência sobre alguém, para que essa pessoa adquira o gosto pela leitura, é o que a mobiliza. A proposta é usar a chance de chegar a mais pessoas e mostrar que livros são a porta de entrada para todos os mundos possíveis.

"Foi tudo por causa de 'Dom Casmurro'! Depois que li, fiquei com o famoso questionamento sobre a suposta traição, haha, então fui pesquisar e descobri que existiam blogs e redes sociais voltadas para livros, o que eu achei o máximo. Me apaixonei pela comunidade e acabei criando um perfil para compartilhar minhas experiências."

Para Ana, o acesso à leitura no nosso país é muito restrito e elitista. "Mas acredito muito que podemos mudar isso. Seria um grande sonho ver livros com preços mais acessíveis e que nosso governo investisse com real vontade na educação. Acredito que todos nós temos gosto pela leitura, algumas pessoas infelizmente não têm a oportunidade de conhecer esse mundo. É um caminho muito difícil, eu sei, mas não custa sonhar, não é mesmo?"

Ao se apresentar, ela diz: "Os livros sempre fizeram parte da minha vida, desde pequena eu me fascinava com a ideia de conhecer lugares, pessoas, culturas, crenças, tudo isso sem sair do lugar. Vivia perambulando pelas bibliotecas das minhas escolas, lia de tragédias à romances, passando por biografias, fantasias e tudo o que minha curiosidade permitisse, e cada vez mais me apaixonando por esse mundo. Não sou a melhor pessoa do mundo para falar de mim mesma, acho que sinto um pouquinho de vergonha, mas sei que amo os livros e que eles fazem parte de mim, me ajudando todos os dias a moldar a mulher que quero ser."

Com resenhas de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro - vencedor do prêmio Jabuti em sua categoria neste ano de 2020, Bom dia, Verônica, de Raphael Montes e Ilana Casoy, e dezenas de outras obras, os perfis buscam propagar a leitura literária.

Não apenas a respeito da leitura, o cenário ideal é ocupar todos os espaços. Levar a academia às ruas e as ruas à academia. Parafraseando diz Lilia Moritz Schwarcz e Riobaldo, sou pessimista no varejo e otimista com o mutirão. Ocupemos também as redes sociais. E sigamos tentando ler.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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