astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Trabalho imaterial das personagens secundárias mulheres na literatura contemporânea

"A discussão de gênero e a desconstrução de identidades fixas são dois fios condutores da minha tese que muito se relacionam às questões políticas contemporâneas. Estamos passando por um momento de fissuras político-sociais necessárias, fazendo com que surjam novas identidades, cada vez mais empenhadas na reafirmação de si próprias, sobretudo, aquelas que foram subalternizadas ao longo da história."


Apesar dos pesares, eu vejo a academia como uma força, por ser uma opção contrária à vida que estava praticamente trilhada para mim, que me aproximaria do desgaste físico e possivelmente me afastaria dos debates sobre questões sociais, culturais e ou políticas. Literárias, muito mais. Foi sobre o que pensei quando lia as críticas de Tabarovsky sobre o espaço acadêmico. Uma semana atrás, o professor Luciano Justino publicou, em sua página "Semiótica Negra", considerações sobre “Literatura de Esquerda”. Eu li essa obra no último ano, empréstimo de Bruno Ribeiro (juro que devolverei, a culpa é da pandemia), e a nossa conversa foi um pouco sobre como talvez essa percepção da academia tenha – que bom – envelhecido. Acerca da crítica literária, por exemplo, há movimentos de leituras que são novos em parte graças aos integrantes de movimentos sociais que adentram a academia.

Há outras discussões interessantes em ambos os textos, mas me atenho a esse ponto pelo que me motivou a começar uma série de artigos na Obvious sobre as pesquisas do PPGLI. Inicio, assim, com "Trabalho imaterial das personagens secundárias mulheres na literatura contemporânea", entrevistando a professora pesquisadora e colega de área Silvanna Oliveira.

Silvanna Marx.jpg

1 - Qual a tua motivação para a escolha do objeto e/ou da(s) obra(s) que compõe(m) o teu corpus? Minha motivação se deu, principalmente, pela lacuna de material crítico sobre a autora estudada, a goiana Maria José Silveira, cuja obra está imersa nos devires da literatura contemporânea, repleta de subjetividades, de desconstrução de identidades fixas e de trabalho imaterial. Ou seja, analisar a obra da autora à luz da riqueza imaterial de suas personagens mulheres, em "Pauliceia de mil dentes" (2012), "A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas" (2002) e "Elanor Marx, filha de Karl" (2002), foi a forma que encontrei de apresentar um novo panorama de leitura crítica, borrando os limites que colocam as teorias literárias em patamares inquestionáveis, atravessados por leituras estruturais e moralistas.

2 - O que, na tua perspectiva, diferencia o modo de condução de leitura do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI) de outros programas de Letras em geral? Acredito que o PPGLI possui uma perspectiva muito abrangente no que tange aos temas trabalhados nas pesquisas. A literatura ressurge no Programa não sob a perspectiva da unidade narcísica, muito tempo atribuída a ela, mas como um diálogo intercultural e produtivo com as mais diversas artes, dentre elas o teatro, o cinema, os games, as artes visuais, a música, entre outras. A diversidade se debruça também sobre a interculturalidade que engloba os debates de gênero, as literaturas pós-coloniais, a psicanálise, as regionalidades, a hermenêutica etc. Isto é, o modo de condução de leitura do PPGLI abarca uma verdadeira "multidão".

3 - Quais discussões levantadas na produção da tua tese se relacionam diretamente com análises sobre questões/entraves sociais, culturais e/ou políticos contemporâneos? A discussão de gênero e a desconstrução de identidades fixas são dois fios condutores da minha tese que muito se relacionam às questões políticas contemporâneas. Estamos passando por um momento de fissuras político-sociais necessárias, fazendo com que surjam novas identidades, cada vez mais empenhadas na reafirmação de si próprias, sobretudo, aquelas que foram subalternizadas ao longo da história. Isso é ótimo. Todavia, essa composição identitária pode cair numa armadilha: a repetição de discursos, que ao invés de se expandirem para o infinito de possibilidades - na crítica literária e na vida comum -, reproduzem, algumas vezes, o discurso capitalista limitante, inerente à sujeição social (o gay definido apenas pelo corpo, a mulher em protagonismos trágicos, o negro como bandido/escravizado). Assim, montam-se em unilateralidades, o que se reflete na aparição de sujeitos na literatura sem outras subjetividades além do estigma, não alcançando debates "fora da curva", mas ainda bebendo da fonte dos discursos já prontos, bastante capturados pela Indústria Cultural. Para tanto, minha tese propõe estudar as rizomáticas mulheres que estão muito além da violência que as acomete e que produzem intelectualmente o tempo todo, a fim de se recriar, mesmo em um espaço de opressão. O objetivo, com isso, é contribuir para a reconfiguração da própria crítica literária.

Silvanna.jpg Silvanna Oliveira, arquivo pessoal (2020).

Ela por ela: Sou Silvanna Oliveira, leitora assídua, apaixonada por literatura contemporânea, professora pesquisadora, adepta à liberdade de aprender e ensinar "fora da caixa". Leciono desde 2011, tendo experiências em cursinhos e na rede privada de ensino de Campina Grande - PB. Além disso, ministro no Ensino Superior (UFRN, em 2017; na UEPB, desde 2019 até o momento) como professora substituta e sou diretora de Literatura da Fundação Artístico-cultural Manuel Bandeira (FACMA). Hoje, minha prática docente se situa na área de Literatura Brasileira. Junto a isso, estou cursando o terceiro ano de doutorado no PPGLI (Programa de Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade), na UEPB. Meu mestrado também foi realizado no PPGLI, sob a orientação do Professor Dr. Luciano Barbosa Justino, por quem descobri a autora do meu projeto de pesquisa, a Maria José Silveira. Meu corpus de análise recai sobre suas obras, lançando a perspectiva do trabalho imaterial das personagens secundárias mulheres. No mestrado, já havia analisado uma de seus livros, "Pauliceia de mil dentes", mas a leitura ficou a cargo da "literatura de multidão" e do discurso da cidade enquanto personagem. O interesse pela autora continua vivo, uma vez que quanto mais a pesquiso, mais eu descubro um universo de possibilidades. Mulheres na literatura têm potência!


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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