astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Como usar um pesadelo: coronavírus, meritocracia, necropolítica e networking

São trezes narrativas: dentre os contos, uma peça de teatro e uma última com cheiro de novela, todas elas com sonhos e pesadelos de vários tipos. Abre-se o livro e logo se chega ao quinto conto, intitulado "Três dias sem as meninas", que é um suco ácido de "Black Museum", episódio de Black Mirror, "Passeio Noturno", conto de Rubem Fonseca, bolsonarismo e restos decrépitos da elite outrora algodoeira do interior do Nordeste brasileiro.


thumb_reward_20201019_box-capa_como_usar_um_pesadelo_titulo_azul.jpg "Como usar um pesadelo", livro novo de Bruno Ribeiro.

Alerta inicial: parte significativa deste livro foi lido nas proximidades do Açude Velho de Campina Grande. Nas redondezas moram algum dos personagens de Bruno Ribeiro - aqueles que esquecem os nomes das funcionárias e sonham em ser heróis nacionais, "matando geral" os supostos monstros da sociedade. Todavia, desde já o Açude aciona a clara e irrevogável cláusula pétrea, recorrendo à presunção de inocência.

Dito isto, "Como usar um pesadelo", obra lançada nos últimos dias pela Editora Caos e Letras, inicia com o conto premiado pelo Brasil em Prosa "A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero". Não sei se por coincidência, mas insetos começaram a sobrevoavar o local da leitura na hora.

As narrativas são, no geral, breves e têm um ritmo acelerado. Abre-se o livro e logo se chega ao quinto conto, intitulado "Três dias sem as meninas", que é um suco ácido de "Black Museum", episódio de Black Mirror, "Passeio Noturno", conto de Rubem Fonseca, bolsonarismo e restos decrépitos da elite outrora algodoeira do interior do Nordeste brasileiro.

Vale dizer que o conto "Sucesso" é o pesadelo do Coach dos Coachs: é cheio de termos como "Mindset", "Networking" e jargões pró-meritocracia, porém eu diria que ensina a bater o recorde de visualizações e engajamento dos usuários das redes sociais de maneira talvez considerada controversa.

São trezes narrativas: dentre os contos, uma peça de teatro e uma última com cheiro de novela, todas elas com sonhos e pesadelos de vários tipos. Em "A voz do povo" sabemos as taras de homens fardados que ora sonham com mulheres loiras com camisas do Brasil, ora com o ex-presidente nu, isso enquanto é "audível o som das crianças brincando e cantarolando no Palácio da Alvorada." Em "Guia auditivo e imagético para o fim de uma criança de 9 anos" o paraíso é sonhado por Cthulhu.

Coletânea de pesadelos, não poderia faltar o tradicional personagem que se intitula pela suposta condição de conduta ilibada popularmente conhecida por Pai de Família. É em "Reino animal" que ele mais claramente dá o ar da graça. Diz à filha: "Não me interrompa, sua preguiçosa. Vagabunda!". À esposa, fala: "Cala a boca, sua depressiva alcóolatra". Tudo ao som de um programa popular na televisão. [É possível que a narrativa tenha sido captada por câmeras operadas remotamente e por drones que acompanharam o cotidiano desses seres em seu habitat natural.]

"Talvez seja o paraíso" é o fim da linha. Da nossa linha. Espécie de diário de um homem que perambula por um mundo que já não mais existe, supostamente há apenas ele, Número 1, o jovem Número 2 e a Mulher do fim neste pandemônio que não se sabe onde é.

"Spoiler" sobre lugares: nas narrativas há de coronavírus, meritocracia, necropolítica e networking a perigo comunista iminente.

Termino o livro e volto para casa me perguntando se no final do episódio "Fora da Lei e com Desordem: unidade de vítimas do Morty", de Rick e Morty, o gato falante, cuja incógnita leitura da mente fez com que Rick se assustasse e Jerry vomitasse, teria visto este país na atualidade.

16 de Janeiro, ano II da pandemia, Brasil. Sem vacinação à vista. Fim?


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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