astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Filha da voz: judaísmo e proscrição na poética de Alejandra Pizarnik

"Vista pela crítica especializada quase estritamente pela ótica do surrealismo francês, a obra de Alejandra Pizarnik também oculta/revela em seus poemas, diários, correspondências e relatos, visões de mundo, confissões, imagens, melodias e uma série de referências pertencentes ao universo estético do judaísmo e próprias da condição judaica." (Paullina Carvalho)

"Ella se desnuda en el paraíso/ de su memoria/ ella desconoce el feroz destino/ de sus visiones/ ella tiene miedo de non saber nombrar/ lo que no existe" (Pizarnik. Árbol de Diana, 1962)


Dando continuidade à proposta de apresentar estudos do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), após Narrativas da crise do patriarcado na literatura brasileira, entrevista com a doutoranda Patrícia Costa, são agora a vez e a voz de Paullina Carvalho, a respeito da poética de Alejandra Pizarnik, que nos alcançam.

Tendo obtido em 2020 o título de doutora em Literatura pelo citado programa, com a tese Judaísmo e proscrição na poética de Alejandra Pizarnik, Paullina aponta que seu trabalho propôs "demarcar a influência da tradição judaica na vida e na obra dessa que, segundo comentário do lendário escritor Jorge Luís Borges, seria a maior poeta argentina do século XX. Vista pela crítica especializada quase estritamente pela ótica do surrealismo francês, a obra de Alejandra Pizarnik também oculta/revela em seus poemas, diários, correspondências e relatos, visões de mundo, confissões, imagens, melodias e uma série de referências pertencentes ao universo estético do judaísmo e próprias da condição judaica. Propõe-se explorar essa relação entre poesia e judaísmo, inicialmente, a partir de um diálogo entre textos poéticos (poemas) e testemunhais (diários, correspondências, etc.) como forma de situar o campo social e cultural no qual estão inseridos a poeta e a obra. Em seguida, adentra-se ao universo simbólico e conceitual da poesia pizarnikiana que, em diferentes momentos, recorrerá às visões teológicas, místicas e lendárias do judaísmo, colocando, por fim, os textos do Tanach como uma das suas principais influências literárias."

unnamed.jpg

Paullina nos fala, assim, um pouco mais sobre a pesquisa, a proposta de sua produção acadêmica e seus olhares enquanto estudiosa de literatura e interculturalidade:

1 - Qual a tua motivação para a escolha do objeto e/ou da(s) obra(s) que compõe(m) o teu corpus?

Tenho que começar fazendo uma confissão: minha predileção por literatura de autoria feminina. Eu já vinha construindo um percurso de leitora de escritoras como Hilda Hilst, Adélia Prado, Sophia Andresen, Clarice Lispector e, nesse processo de descobertas, escolhi a poesia de Hilda Hilst como objeto de pesquisa ainda durante a graduação de Letras. No final de 2011, prestes a me submeter à seleção de mestrado no PPGLI, encontrei na biblioteca de Letras da UEPB uma Antologia bilíngue de poetas argentinos. Nesse volume, que deixou claro para mim a ausência no mercado editorial brasileiro de traduções e de críticas da poesia argentina, havia um poema de Alejandra Pizarnik: El despertar, do livro Las aventuras perdidas (1958). Esse poema, um dos mais conhecidos da poeta, possui uma estrutura salmística, em tom de lamentação, pois o eu lírico direciona sua voz à figura de um Senhor ausente, intensificando a cada estrofe o sentimento de angústia e abandono. Foi paixão! Me identifiquei com esse sentimento de separação que Alejandra Pizarnik anuncia em seus textos poéticos, mas ainda não tinha como iniciar uma pesquisa, pois, naquele momento, as obras da poeta eram inéditas no Brasil e, praticamente, desconhecidas na academia.

Entre o deslumbramento provocado pela intensidade daqueles poemas e a constatação das lacunas na crítica nacional, decidi que iria pesquisar essa poeta, e, como naquele momento, não eram comuns os serviços de compra online de livros, fui em busca de suas obras em Buenos Aires. Já com as obras completas – diários, poesia e prosa – e alguns dos principais textos de críticos argentinos da vida e da obra de Alejandra Pizarnik em mãos, fiz uma segunda constatação: os cruzamentos entre poesia e a biografia da escritora eram motivos de dissenso entre críticos e leitores. Parte dos pesquisadores, como podemos observar já nos prefácios das obras completas organizados por Ana Becciu, consideravam a inserção de temas biográficos – suicídio, a bissexualidade, a origem judaica, etc. – dispensáveis e até desviantes da leitura dos textos considerados esteticamente relevantes. Essas visões/interdições da crítica literária me incomodaram, porque como leitora passional e pesquisadora, eu entendia que, por mais que os poetas sejam fingidores, havia uma intensidade existencial naqueles textos poéticos. Comecei a pensar na importância do judaísmo para a escolha dos temas de Alejandra Pizarnik, o impacto do seu campo social e afetivo nas suas escolhas estéticas, e, para isso, precisava romper com uma hierarquia entre que havia se criado entre os textos ficcionais e testemunhais.

No começo, a escolha do judaísmo foi uma aposta ousada, pois não havia entre os estudos desenvolvidos até o momento nada que apontasse nos textos poéticos uma presença relevante de elementos judaicos. No entanto, ao longo desses anos de leitura, fui demarcando esse território simbólico, estético e cultural também na obra poética de Pizarnik, através de vários elementos: o ritmo, as imagens com as quais a poeta identifica sua própria voz, a saber, como filha da voz, sendo essa uma tradução literal de “Bat Kol”, que é o termo profético usado na tradição judaica para designar a voz celeste, além das concepções de linguagem e identidade vistas enquanto formas abertas ao infinito, concepção própria da cabala judaica. Ao final da minha pesquisa, pude perceber que apenas o desconhecimento da religião e, no caso, do judaísmo como horizonte estético e narrativo é que exclui essa relação entre poesia, mística e mito.

2 - O que, na tua perspectiva, diferencia o modo de condução de leitura do PPGLI de outros programas de Letras em geral?

Não há um método de leitura definitivo da literatura, isto é, os métodos de interpretação e os acessos às obras literárias são múltiplos. Foi fundamentalmente isso que o PPGLI, em suas diferentes frentes de pesquisa, me possibilitou compreender, trilhando a partir daí o caminho hermenêutico pouco provável de leitura da obra de Alejandra Pizarnik. Esse contato entre textos, isto é, campos de discursividades, que perpassam questões sociais, linguísticas, religiosas e culturais, estão sempre em cruzamento na literatura. O Programa de Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade permite pensar essas questões de literatura com a liberdade necessária.

3 - Quais discussões levantadas na produção da tua tese se relacionam diretamente com análises sobre questões/entraves sociais, culturais e/ou políticos contemporâneos?

Uma das questões importantes levantadas por mim é repensar a relação entre os textos poéticos e os textos sagrados. Nessa relação entre religião e literatura, ambas as esferas acabam sendo reinterpretadas, tornando-se menos dogmáticas, fechadas e tuteladas pelas instituições reguladoras dos significados dos textos e das relações humanas, por consequência.

...

DEL OUTRO LADO

Años y minutos hacen el amor.

Máscaras verdes bajo la lluvia.

Iglesia de vitrales obscenos.

Huella azul en la pared.

No conozco.

No reconozco.

Oscuro. Silencio.

(Los Trabajos y las Noches, 1965)

Paullina.jpg Paullina Carvalho (Arquivo pessoal)

Ela por ela: Formada em Letras, com habilitação em Língua Portuguesa, pela Universidade Estadual da Paraíba. Possuo Doutorado e mestrado em Literatura e Interculturalidade, Departamento de Letras – UEPB. Desenvolvo pesquisa na área de Literatura comparada, com ênfase na relação entre poesia e sagrado em produções literárias de autoria feminina. Atualmente, além de ler, ler, ler e escrever, ser mãe de Theo, 5 anos, autista, terrivelmente bonito e encantador, trabalho com revisão de textos e mentoria na produção de projetos acadêmicos.

Judaísmo e proscrição na poética de Alejandra Pizarnik - Tese completa.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// //Mylena Queiroz