astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

diálogo entre as muitas vozes que costuram o texto/tecido do país


EZIJ4-2WoAEzzew.jpg Quem não deve também teme: o diário de um jovem negro morando numa favela do Rio. Arte da ilustradora Amanda Miranda.

Na quarta (17/03), acompanhei a aula Práticas Indígenas de Produção de Cuidado, ministrada pelo ativista indígena Ailton Krenak, parte do “Curso de Saberes Ancestrais e Práticas de Cura”, organizado por uma série de Universidades Federais. Na aula, Krenak expôs que precisamos resistir a esse padrão de existência humana que nos relega à condição de ser sem consciência de si.

No dia seguinte, pude acompanhar o evento O Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras. Na ocasião, Lucia Prado, Diretora de Programas Sociais, abriu o evento nos convidando a celebrar a potência da diversidade. O título desse breve texto deriva da mesa inicial: É possível traduzir os múltiplos brasis? – A busca do diálogo entre as muitas vozes que costuram o texto/tecido do país, com participação de Krenak e Bruno Ribeiro, mediação de Marta Barcellos.

Na mesa, Ailton, autor de Ideias para adiar o fim do mundo (2019), falou diretamente da reserva indígena Krenak, que ele comenta que foi destinada como “um resto de floresta” aos povos enquanto estruturas como a Vale do Rio Doce estrangulavam o rio nas últimas décadas. Não podemos esquecer o crime ambiental de Mariana, que contaminou o Rio Doce – provocando a extinção de espécies, a morte de toneladas de peixes e a contaminação do Atlântico Sul. A Samarco, a Vale a BHP Bilinton e a VogBR foram absolvidas das acusações de homicídio e lesão corporal, apesar do crime ambiental ter sido responsável pela morte de 19 pessoas.

Bruno Ribeiro, autor mineiro radicado na Paraíba, falou de sua experiência enquanto homem negro e apontou que o brasileiro genérico procura o “Brasil profundo” porque prefere o conforto de olhar apenas para si mesmo. Esse dito procurado “profundo” lugar é a invisibilidade diária de vários grupos sociais. Neste país, a invisibilidade é produzida e reproduzida. Não há um país homogêneo e essa noção serve apenas à tentativa de inferiorização de grupos minoritários.

Enquanto a mesa ocorria, um perfil cujo primeiro nome era “Pastor” enviava comentários repetidos e vagos, ilustrando o termo “brasileiro genérico”.

Pensemos que muitas Carolinas Maria de Jesus nunca puderam publicar, disse Bruno. Sejamos capazes de afetar esse cenário distópico furando os muros com afetos, que são produtores de vidas, falou Krenak. Esses são lembretes que toda hora é hora de tomar os espaços que foram e têm sido usurpados desses muitos, os quais costuram o texto/tecido do país. Precisamos.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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