astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Diário de pesquisa sobre Guimarães Rosa e Nazismo

Na Alemanha, mas atenta às notícias do Brasil. Quase pausa entre zumbidos, leituras e escrituras.


Há quem possa pensar o tema do Nazismo como algo devidamente resolvido, imediatamente distante da realidade brasileira e, portanto, definitivamente pouco produtivo para se estudar qualquer vínculo com a literatura brasileira. Eu gostaria que essa fosse uma observação plenamente satisfatória, fazendo completo sentido e não dando brechas a relações principalmente com o Brasil contemporâneo. Escrever sobre Guimarães Rosa sob o olhar da migração, da hibridização, da alteridade e, ainda, sobre os anos iniciais da Segunda Guerra Mundial, bem como sobre o sertão transfronteira, me fez perseguir estes temas por alguns anos. E, de fato, essa perseguição constante de temas, de algum modo, faz com que, com o tempo, conteúdos vinculados também nos persigam. Quase como fantasmas. Falo tanto por causa de algoritmos dos buscadores, como de relações que nossas mentes notam com uma maior vivacidade.

Quando, no início de outubro de 2021, a polícia do Rio de Janeiro encontrou uma coleção de artefatos nazistas avaliados em 3 milhões de euros, sendo o dono da coleção suspeito de estupro de vulnerável, o comentário do delegado do caso inicia com “Ele é um cara inteligente e articulado”, só depois informando que “nega o Holocausto, é homofóbico, pedófilo e diz que caça homossexuais.” Quase ouvi fala de Zé Bebelo, interrompendo logo no início, se danando a dizer: “Eh, de jeito nenhum, epa! Não consinto covardias de perversidade!”. A suposta análise que recai sobre a vida particular - no comentário acima sobre inteligência - e em tantos outros sobre a relação familiar - parece aquilo que Riobaldo comentava: “Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos!”. Talvez não sejam todos, mas há de se concordar que o pensamento de Riobaldo invalida qualquer relativização sobre o crime, posto que, contrariamente à fala do delegado, o protagonista de Guimarães já inicia afirmando que se fala de um “criminoso feroz”. Até porque a reflexão dele se dava a um colega visitante, e não a um jornal, enquanto agente de segurança pública, sobre um simpatizante do nazismo brasileiro com acusação de pedofilia.

Parece falta de reparar bem, parece falta de questionamento, de atenção; é muito mais, como mostram a filosofia política contemporânea e áreas interdisciplinares, banalização do mal e opção por seleção elitista e racista dos que serão julgados pela polícia e pelo Estado. Essas reflexões me levaram ao livro Políticas de Riobaldo: A justiça jagunça e suas máquinas de guerra, em que o autor pontua que GSV poderia ser reescrito na atualidade pensando os conflitos que se dão em áreas periféricas. O motivo se dá pelo fato de que o jagunço de Guimarães Rosa não é o mesmo jagunço a serviço dos coronéis. “Aparece então uma oposição entre duas ordens diferentes: aquela dos jagunços guerreiros, que afirmam a jagunçagem como esteio de suas vidas, e aquela de jagunços a serviço de outros interesses, como o de fazendeiros e de coronéis.” (PORTO, 2021, p. 81). Trata-se, nessa leitura, de uma percepção que distingue a vida severa jagunça da manutenção da ordem política a mando de coronéis e fazendeiros, usando de capangas pelo sertão. “O romance de Rosa me permitiu explorar uma justiça da perspectiva nômade e anárquica dos jagunços em oposição a uma justiça do Estado, dos juízes e dos tribunais”, diz Renan Porto. Uma justiça em uso do que se tem em mãos contra as injustiças das sentenças, dos tribunais.

E voltemos à contemporaneidade brasileira. 07 de outubro de 2021 foi dia em que o advogado criminalista e militante Joel Luiz Costa falou sobre o caso Paloma, mãe solo e jovem desempregada que furtou carne para bancar aluguel e alimento: Cp.jpg Apesar da injustiça evidente realizada contra Paloma, o advogado conseguiu, com vaquinha virtual, arrecadar 45 mil reais para que sua cliente não apenas pudesse pagar essa dívida como dar continuidade, agora com apoio de várias pessoas, à sua vida.

O interesse pelo tema da pesquisa da minha tese, Transfronteira na obra de Guimarães: da Europa para-a-guerra ao sertão mundo se deu em parte por não sabermos quase nada sobre os anos em que Rosa estivera na Alemanha nazista, havendo, inclusive forte indícios que utilizou dos recursos que tinha em mãos para ajudar pessoas condenadas por um sistema injusto a sair daquele lugar de vulnerabilidade, em oposição às regras antissemitas das Circulares Secretas enviadas aos Consulados. Rosa trabalhara enquanto vice-Cônsul e depois se tornou reconhecido por uma literatura de multiplicidade e da "multidão". Disse, em entrevista, que via necessidade de se remediar o que sistemas injustos arruinaram.

A mim parece inteligência e articulação este tipo de pensamento. Sigamos contra as injustiças do Estado, dos juízes e dos tribunais. Pelas Palomas.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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