astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Hitlerocidades

Um Guimarães desconhecido: olhares sobre o nazismo


João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967), médico, diplomata e escritor brasileiro, foi o segundo marido de Aracy de Carvalho, a quem dedicou a obra Grande Sertão: Veredas (1956). Aracy é conhecida como "Anjo de Hamburgo", que inclusive será tema da série de mesmo nome em produção pela Globo. A alcunha de Aracy de Carvalho se refere ao fato que enquanto trabalhou na seção de passaportes, no Consulado de Hamburgo, junto a Guimarães Rosa, foi responsável pela facilitação dos vistos de centenas de judeus. Conforme pesquisa das documentaristas de Outro Sertão (2013), no primeiro semestre de 1939, o número de vistos de turistas concedidos a judeus pelo consulado do Brasil em Berlim foi nulo. Comparativamente, no mesmo período, o número de vistos de turistas concedidos a judeus pelo consulado do Brasil em Hamburgo foi de quase uma centena. Adriana Jacobsen e Soraia Vilela atribuíram essa diferença de números às atividades de Guimarães Rosa e Aracy Moebius de Carvalho, livrando centenas de judeus do nazismo.

Quando atuou como cônsul adjunto brasileiro em Hamburgo, de 1938 a 1942, João Guimarães Rosa registrou suas impressões em um Caderno, ou Diário de Guerra, como é chamado pelos professores da UFMG, os quais tanto da área de literatura, como de letras alemão, tiveram acesso à obra antes do impedimento da publicação integral por parte dos familiares de Rosa. No Diário Alemão, ainda em forma de manuscrito, há trechos como: “Judias chorando no Consulado, por terem recebido a ordem de evacuação de Hamburgo, para o dia 24. Horrível” (Guimarães Rosa). Este datado de 22 de outubro de 1941. O Diário tem trechos com certos códigos de registro, além de algumas palavras criadas, isto é, neologismos, que, posteriormente a essa experiência como vice-cônsul, marcariam a produção literária do autor.

Referências diretas ao Itamaraty são notadas nos textos Histórias de Fadas, Os abismos e os astros, O homem de Santa Helena e O lago do Itamaraty. Além disso, passam expressamente por Hamburgo os personagens de O mau humor de Wotan, Zoo (Hagenbecks Tierpark, Hamburgo – Stellingen), O burro e o boi no presépio, A senhora dos segredos e Homem, intentada viagem, todos estes textos reunidos, junto a outros, em Ave, Palavra (1970), miscelânea de gêneros literários, como bem informa a própria catalogação, publicada já após a morte de Guimarães. É importante destacar que essa visão de Guimarães Rosa desse contexto sensível à Alemanha foi de significativa importância para sua produção literária. Assim, Ave, Palavra, “guerra abaixo, guerra acima” (GR, 2009, p. 31) forma um conjunto de escritos tão rico quanto diverso, visto que a “Hitlerocidade”, neologismo de Rosa que mescla Hitler e Atrocidade, é apresentada nas crônicas as quais, curiosamente, têm como narrador um diplomata sulamericano na Alemanha.

O ano da chegada de Guimarães Rosa a Hamburgo (1938) foi o ano da Noite dos Cristais (Kristallnacht - com texto explicativo abaixo). Este período, ao qual a teórica e professora de filosofia política Hannah Arendt (Linden, 14 de outubro de 1906 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975) chamou de “Primeira Solução”, dessa inferiorização dos judeus pelos nazistas, era ainda pouco apontado como negativo por pessoas fora da comunidade judaica de modo geral. Embora o governo brasileiro do período, o getulismo, estivesse longe de se opor à Alemanha nazista, Rosa já começava com suas impressões sobre o projeto de destruição que se fazia em curso.

Hitlerocidades.jpg Imperial War Museum. Londres, 2020. Arquivo pessoal.

Não apenas em seu Diário, mas em textos literários como em A Velha, com narrador diplomata sulamericano, lemos: “Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. Olhávamos, ali, na parede, de corpo inteiro, o marido. — ‘Ele era judeu, sabeis?’” (GR, p. 117). Essa opinião de Rosa contrária ao nazismo é marcada também, como dito, pela sua ação clandestina ao facilitar vistos a judeus enquanto atuava no Consulado. Na Alemanha, Guimarães viu muitos lugares bombardeados, viu a própria casa “terremotear”, o Consulado em que trabalhava ser atingido e há, inclusive, registros em que ele escrevia enquanto estava em um porão:

25 de Outubro de 1940 Tivemos de descer à Keller , onde estou escrevendo, porque vão fazer rebentar os Blindgänger .

Toda essa façanha de João Guimarães Rosa ainda é pouco comentada, mesmo que tenha lhe rendido um dossiê da Gestapo, a polícia secreta oficial da Alemanha nazista, sobre suas atividades, bem como um confinamento pelo governo alemão de 100 dias em Baden Baden. Ainda sobre o Caderno, apesar de não existir uma publicação completa do Diário Alemão, há matérias em revistas como a Bravo!, O Tempo, Jornal UAI/Estado de Minas, publicadas antes do impasse gerado pelos herdeiros, com o impedimento da publicação integral:

Rosa.jpg Páginas da revista Bravo!, edição n. 126, fev. 2008.

Em entrevista com o escritor e tradutor Haroldo de Campos (São Paulo, 19 de agosto de 1929 — São Paulo, 16 de agosto de 2003) sobre o primeiro encontro dele com Guimarães Rosa, ele diz que, exaltado com o assunto, Rosa nem sequer se apresentou e logo discorreu sobre o fascismo como a personificação do “demo”, em alusão à sua experiência como cônsul em Hamburgo. Guimarães publicou vários livros, dentre os quais o seu único romance Grande Sertão: Veredas. Neste livro, questionamentos sobre a existência do Diabo (existe? Ou o que há é o homem humano?), temas como alteridade e encontro com as diferenças compõem a narrativa. O olhar de Rosa sobre o nazismo, escritor considerado um dos maiores que o país já teve, marcou a sua biografia e a sua produção literária.

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. In:

COSTA, Ana Luiza Martins. Veredas de Viator. Cadernos de Literatura Brasileira. João Guimarães Rosa. São Paulo, Instituto Moreira Salles, n. 20 e 21, 2006.

OTTE, Georg. Entre Goethe e Hitler: o Diário de guerra de João Guimarães Rosa. Eixo Roda, Belo Horizonte, v. 27, n. 3, p. 135-150, 2018

DO AUTOR ROSA, João Guimarães. Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

ROSA, João Guimarães. A senhora dos segredos. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 dez. 1952.

ROSA, João Guimarães. A velha. O Globo, Rio de Janeiro, 3 jun. 1961.

ROSA, João Guimarães. Literatura e vida. Arte em revista, ano I, 2: 5-17, São Paulo, maio/agosto 1979.

JORNAIS, REVISTAS E OUTRAS MÍDIAS

BRAVO! São Paulo, n. 126, fev. 2008, p. 28-39.

Outro sertão (doc.). Direção: Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, Brasil, 2013, 73 min.

HAAG, Carlos. A guerra dos Rosas. Pesquisa Fapesp, 2011. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/en/2011/11/11/a-guerra-dos-rosas-2/

(Texto originalmente publicado em Portal do Bicentenário)


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