astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

A onça, o porco e a disputa por novos imaginários

"Porco de Raça" e "O som do rugido da onça" levam a pensar que, se o imaginário que reflete o estado das coisas fora estruturado para ser intolerante, racista, misógino, inimigo da educação e controlador de corpos não civilizados, ele não nos serve. Precisamos de novos imaginários.


Um romance de devir-multidão de uma autora pernambucana, criada no interior. Um livro que narra a animalização dos corpos negros numa sociedade racista, de um autor mineiro radicado na Paraíba. Mas, não só. "O som do rugido da onça" (Companhia das Letras, 2021) e "Porco de Raça" (DarkSide, 2021) são livros que, em suas formas híbridas, disformes, trazem desconfortos passados, presentes e futuros.

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"Sou Porco Sucio. Tenho um nome".

O professor paraibano falido que acompanhamos é brutalizado por uma série de acontecimentos que inclui ser raptado e forçado a participar de lutas de mascarados, um ringue para pessoas desqualificadas pela sociedade as quais entretêm fascistas ricos. Sua máscara de porco e o calor da plateia ao chamá-lo de Porco Sucio marcam esse novo lugar social, que lhe foi obrigado, também símbolos da deterioração de sua saúde física e mental. "Um negro com tédio e depressão é vagabundo. Só brancos têm direito a ponderações sobre sua saúde mental", diz. Enquanto isso, seu rosto é cada vez mais deformado pelos socos que leva, seu riso se torna confuso e o complexo sentimento de desconforto ao longo da sua vida lhe parece o menor dos problemas. Agora, ele tem um nome.

"Ele veio do nordeste do Brasil, é magro, preto, estranho, falido, crítico do governo atual do nosso país, comunista e adorador de hip-hop. Daquele jeitinho que vocês gostam", anunciam. Seu irmão é ideologicamente o oposto. Também negro, tenta outra forma de sobrevivência: buscar se adequar aos critérios de uma sociedade racista. Ser parte deles. O conflito entre os irmãos, de classes sociais distintas, revela uma real impossibilidade de adequação, qualquer que seja a máscara que se use.

Há, nas epígrafes, pactos entre Cruz e Souza, Robert Johnson, Maguila e Lima Barreto. Cruz e Souza é, aliás, objeto de estudo literário e também elemento significativo para a condição de porco à qual o protagonista é levado, bem como para a complexidade das existências dos irmãos - diversos? - numa sociedade em que a violência e a inferiorização de corpos negros é a regra, numa amálgama com a chave do horror e da distopia girada na narrativa.

"Essa é a história da morte de Iñe-e. E também a história de como ela perdeu o seu nome"

Cientistas famosos alemães do século XIX, Spix e Martius sequestraram duas crianças indígenas brasileiras e levaram à Europa para serem analisadas enquanto seres exóticos. As crianças faleceram pouco tempo depois da chegada. Essa história real é o mergulho inicial que dá fôlego à ficção de Micheliny Verunschk. Iñe-e, menina do povo Miranha, é o nome pensado para a criança que fora rebatizada na Alemanha por Isabela. Quando bebê, Iñe-e foi vista junto a Tipai uu, onça que fez pacto, assim dizem, com a menina. Na narrativa, o naturalista Martius investiga o tom de pele da menina, o colar, o brilho dos cabelos pretos, as sobrancelhas salientes, enquanto a criança se incomoda e sua vontade de fugir leva ao pensamento que se "tivesse se tornado onça naquele dia já distante em que a pegaram e a levaram de casa, ali nem estaria. Teria matado a todos. Ela, Tai-tipai uu, assomada e translúcida fera de palavras, rugidos, garras e dentes."

Também a onça e o rio-fêmea Isar Fluss, este já em Munique, têm voz. Em outro núcleo narrativo, que se funde a esse, Josefa, paraense que vive em São Paulo, vê, em exposição, na imagem das duas crianças sequestradas, uma busca por si. Trechos de cientistas e naturalistas europeus entrecortam e compõem a narrativa, evidenciando medo do desconhecido e completa ignorância frente às comunidades indígenas. Tempos se mesclam. Explicações sobre o porquê do interesse criminoso nas crianças indígenas são dadas: "A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte de juventude". Tipai uu, onça, mostra à menina violações no passado e no presente, vidas e mortes que se repetem em outras vidas e em outras mortes. O romance se faz para fora de um padrão que não caberia uma menina onça.

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"Porco de Raça" e "O som do rugido da onça" levam a pensar que, se o imaginário que reflete o estado das coisas fora estruturado para ser intolerante, racista, misógino, inimigo da educação e controlador de corpos não civilizados, ele não nos serve. Precisamos de novos imaginários. Para Glissant, pensador martinicano, se o "romance tradicional" não acompanha a complexidade do real, por outro lado, todo romance potente é uma força poética. Força essa importante para imaginários que não calem a coletividade, que não a impeçam de se nomear, que não a impeçam de ter e mesmo adaptar continuamente suas identidades.

Visto que o pensamento glissantiano relaciona linguagem, literatura, história e política, a potência dessa relação possibilita disputar por novos imaginários, já que o imaginário pretérito é colonizador, como Spix e Martius. Essa disputa é empreendida por questionar a violência que transformou o professor paraibano em um Porco, que é irmã da que só possibilitaria que a menina Iñe-e não morresse na Europa caso fosse onça e sangrasse os cientistas, começando por estraçalhar as suas nucas. Violências de tempos diversos que sequestram corpos e os jogam em ringues como seres exóticos. As obras de Bruno Ribeiro e de Micheliny Verunschk reivindicam novos imaginários - para os tempos de ontem, hoje e amanhã.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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