astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Canalizar a raiva

"Já fomos quilombos e cidades/
Canudos e Palmares/
Originais e originários"
Don L.


(Many thanks to my powerful and strong friends Maraike Bangun and Niza Santiago, who encouraged me to share this talk at Afrikanisches Zentrum Borgfelde, on Nov. 14, 2021).


aumentada_6.jpeg Imagem: BÁRBARA MATHIAS KARIRI Nascer em Escombros / Fotoperformance

Essa história não é só minha. É a história da primeira mulher da minha família sobre a qual eu cresci ouvindo. Ela era uma indígena. Minha mãe conta que ela tinha os olhos da cor de jabuticaba.

Maria. Eles substituíram o nome dela por esse, quando um homem velho decidiu que ela deveria ser sua esposa. Ela tinha 13 anos de idade. Ele usou cães para pegá-la. Cães. E então a colocou em uma jaula, de maneira que ela só se alimentava quando ele decidia. Obviamente, ela estava enfurecida. Ela estava tão enfurecida que ele só conseguia "neutralizá-la" ao trancá-la na jaula. Porque ela realmente queria sair. Ela queria ficar livre. Era mais uma força da natureza do que uma mulher em uma jaula. E eu quero que você, ao saber disso, sinta a raiva que ela não pôde expressar. A fúria de ser privada da liberdade de ser alguém.

Mas ela engravidou. E eu sou herdeira dessa história.

Eu busco canalizar minha fúria. Se essa menina de olhos de jabuticaba ficou tempos presa em uma jaula, essa história é também sobre como eu, como mulher desta família, considero vital que nenhuma mulher tenha sua força neutralizada. Como professora por mais de uma década, quando eu ensino sobre desigualdade de gênero, eu quero que se sintam furiosos. Ou quando eu falo sobre mulheres escritoras as quais foram "neutralizadas" pela história. Porque eu busco usar essa fúria. Eu uso essa fúria ao trilhar o meu caminho acadêmico e lecionar. Nenhuma outra mulher da minha família, até então, havia ido para a universidade, mas eu me vingo não apenas indo, como sendo educadora. Assim como sendo uma mulher que expressa a raiva e a liberdade sempre que surgem situações as quais neutralizariam alguém.

Essa história não é só minha. É também sobre as várias mulheres e os vários rapazes que eu ensinei. Essa história é também sobre canalizar a fúria, utilizando-a ao não aceitar que pessoas sejam inferiorizadas por integrarem grupos minoritários. Uma história agora partilhada com vocês. É a história da fúria da minha bisavó, que vive em meus olhos cor de jabuticaba.

***

This story is not just mine. It's the story of the first woman in my family, which I grew up hearing about. She was an indigenous person. My mother tells that she had eyes the color of jabuticaba, a very dark fruit from Brazil.

Maria. They changed her name and called her that when an old man decided she would be his wife. She was 13 years old. He used dogs to take her. Dogs. Than he put her in a cage and she used to be fed only when he decided. Obviously, she was angry. She was so angry that he only managed to neutralize her when he locked her away. Because she really wanted to go out. She wanted to be free. She was more a force of nature than a woman in a cage. And I want you, as you listen, to feel the anger she couldn't express. Anger at being deprived of the freedom to be somebody.

But she got pregnant. And I am the heir to this story.

I try to channel my anger. If this jabuticaba-eyed girl spent time trapped in a cage, this story is also about how I, as a woman in this same family, consider it vital that no woman has her strength neutralized. As a teacher for over a decade, when I teach about gender inequality, I want them to feel that anger. Or when I talk about women writers who have been neutralized by history. Because I use this anger. I use that anger as I walk my academic path and teach. None of the women in my family had ever gone to university, but I get revenge not just by studying, but by being a teacher. As well as being a woman who expresses my anger and my freedom whenever I come across situations that would neutralize people.

This story is not just mine. It is also about the many female students and male students that I have taught. This story is also about how we need to be angry and use this feeling to not accept that people are neutralized only for being part of a minority group. It is a story now shared with all of you. It's the story of my great-grandmother's anger, which lives in my black eyes.


Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos"..
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