astronauta

Entre os voos sub-orbitais e os delírios cotidianos.

Mylena Queiroz

"A vida é mutirão de todos".

Os santos do chão bravo: a violência do habitar colonial da terra

Cerca de 80% do território mexicano sofre com algum nível de escassez de água, o qual se encaminha para um desastre agrícola e o aumento de insegurança alimentar neste ano de 2022. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta para a piora da falta de água no nordeste brasileiro. Um histórico de haciendas, plantations, modelo extrativista, migração forçada e injustiça climática fizeram os ativistas do Fórum Social de Justiça Climática da América Latina e do Caribe, no ano de 2021, apontarem o fracasso das cúpulas sobre clima realizadas nas últimas décadas, as quais ainda priorizam interesses corporativos e desconsideram os impactos desiguais às populações historicamente racializadas pelos colonialismos. Sobre os chãos bravos do novo livro de João Matias, as narrativas revelam esqueletos e violências herdeiros desse habitar colonial da terra.


Chão Bravo não é mais um povoado, agora é Cidade Grande e sua população reúne pessoas que migraram de suas terras, sejam do exterior ou da região. As nove narrativas que compõem a obra Os Santos do Chão Bravo (Carcamanos, Maria das dores, Princeso, O caso dos canários, Toda forma de arte, Eu sou a última, Carcaça, Os santos do chão bravo e O samurai) dizem e não dizem sobre esse chão.

thumb_reward_5d1693d9-ceb2-4900-8c52-c8f7d2d5acb3.jpg Os Santos do Chão Bravo (Caos e Letras, 2022).

Em Maria das Dores, a tentativa de se desvencilhar de uma estrutura familiar patriarcal e violenta dos carcamanos, regida por um explorador da terra chamado Vicenzo, é apresentada no diálogo em busca de ação de duas mulheres:

"- Vicenzo não participou do conflito aberto com as terras do Raimundo Araújo, o contador? - Perguntou Martinha.

- Sim, participou.

- Pois, aqueles desabrigados juraram de morte o seu Raimundo e o advogado - começava Martinha, construindo as pistas. Era desta feita que Martinha matava os dois coelhos com uma só cajadada. Vivíamos sob um teto importante, casa imponente, no bairro rico de Cidade Grande. Vicenzo, sabíamos, tinha terras com o contador de um empresário da cidade, terras cujos conflitos aumentavam com o passar dos anos. Desabrigados quiseram impor sua vontade, saíram debaixo de chumbo." (p. 38)

Elas, no entanto, também têm culpa no cartório e descartam um corpo racializado pelo simples fato de se colocarem como donas desses corpos. São mulheres que "alinham os chakras" enquanto têm empregados (chamados de "criados") em condições análogas à escravidão, cena que poderia integrar uma obra de Maria Lugones explicando a importância do feminismo decolonial.

As narrativas se descolam do chão batido e do asfalto, também são tetos e céu aberto da Cidade Grande, os quais testemunham a violência do saudosismo ditatorial em "O caso dos canários" ou a deselegância do artista reacionário em "Toda forma de Arte".

Malcom Ferdinand, engenheiro ambiental e filósofo político caribenho acusa um ambientalismo de pretensão universalista de ocultar os fundamentos coloniais, patriarcais e escravistas da modernidade. Ao pensar a ecologia a partir do mundo caribenho, Ferdinand confronta essa ocultação expondo como "o imperialismo, a escravidão e a destruição das paisagens amarraram violentamente os destinos dos europeus, ameríndios e africanos." Sua proposta de ecologia decolonial é que o mundo pense na preservação dos ecossistemas discutindo a demolição de estruturas colonialistas, às quais ele chama de "habitar colonial" na obra cuja tradução está sendo preparada pela Ubu, intitulada Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho (2022).

Na obra de João Matias, em O samurai, o horizonte aponta para "Casas de tijolos [que] se encontram com as portas abertas, abandonadas; bois mortos escarnecidos sobre o chão entre moscas e mais corpos acumulados na direção do rio. Ao longe, entre as casas, avista-se o casarão, imponente, vistoso. A visão contrasta com o cenário de miséria das casas, com os corpos abandonados, incluindo as crianças" (p. 121). Nesse espaço, a mando do patrão, dois homens caçam um suposto assassino local que invade casarões apelidado de Bubônica. Lá "ambos veem, na sala, fotos da família Elias Albuquerque. O casarão está desde 1932 naquele lugar, construído com muitos trabalhadores empilhados como formigas em cima de um quadrilátero maciço de pedra. Nas fotos, os familiares estão ladeados por empregados e, entre eles, destaca-se um homem de olhos apertados, bigodes longos, expressão séria com os braços para trás e o colete preto com redondos botões de ouro às costas do pai de Elias Albuquerque, como um soldado hirto à defesa do patrão" (p. 125). Hayshi, um dos empregados, entrara pela primeira vez no casarão e, na imagem, se depara com a figura de seu pai.

Como fosse a cena de Corra! (Jordan Peele, 2017) em que Chris vê na parede a fotografia do avô de sua namorada na Olimpíada de Berlim de 1936, ocorrida no auge da propaganda nazista, as imagens marcam, nos retratos e nas narrativas, violências históricas de habitares coloniais das terras.

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"Os santos do chão bravo", 2022. Editora Caos e Letras.

João Matias nasceu em Juazeiro do Norte (CE), mas é radicado em João Pessoa (PB). Escritor, sociólogo e professor. É doutor em sociologia e professor na Universidade Estadual da Paraíba (PB).


Mylena Queiroz

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