até que nem tanto esotérico assim

onde o esoterismo, o gnosticismo e o hermetismo encontram a cultura pop e contemporânea

Giordano Cimadon

Psicólogo, professor de hermetismo, gnosticismo e esoterismo, escritor e editor do site da Sociedade Gnóstica, e coordenador pedagógico dos Cursos Online da SGI

Encontro Criativo Entre a Música e a Morte

Silêncio é a primeira imagem que a ideia da morte evoca na mente humana. Para alguns, silêncio e morte correspondem à absoluta limitação do Nada, e para outros à suprema liberdade do Tudo. Assim a morte pode ser entendida tanto como um fim perpétuo quanto como uma porta que se abre para a criatividade irrestrita e espontânea, que tem na música clássica um de seus expoentes mais fascinantes.


Entre a morte e a música podem ocorrer diversos tipos de encontros criativos, uns mais concretos e outros mais abstratos. Ao primeiro grupo pertence o trabalho do fabricante de violinos Jeff Stratton, que esculpiu assustadoras caveiras nos corpos de seus violinos de cinco cordas. Em suas próprias palavras, Stratton deseja fabricar instrumentos que sejam obras de arte, quer estejam sendo tocadas ou não. Assim como nos violinos de Stratton, a música e a vida de muitos dos grandes compositores clássicos são esquinas onde se cruzam a música e a morte.

Violino de Jeff Stratton

Os compositores clássicos não são conhecidos como sujeitos mórbidos, mas possuem uma relação bastante peculiar com a morte. Ainda bem, pois a mescla deste dois elementos costuma resultar em combinações belíssimas, por que não dizer fatais, difíceis de se resistir. Ao longo dos séculos de história deste gênero musical surgiram inúmeras peças que, mesmo quando não se referem diretamente à morte, trazem elementos obscuros, pesados, quebrados, demoníacos, berrantes, rangentes e angustiantes, todos prelúdios da inevitabilidade daquela que, no pensamento de Heidegger, confere à vida a sua totalidade e a sua completude.

Em certo sentido, a morte define a vida, e sem que seja levada em consideração a última das possibilidades da vida, esta mesma não poderá ser desfrutada de maneira autêntica. O fruto é conservado como um todo pela casca que o envolve, e assim também a vida é um todo somente mediante a morte que a limita. Tanto a morte em forma de música que ecoa de um violino como a morte que jaz silenciosa esculpida no mesmo instrumento, permitem ao ser humano vislumbrar sua própria individuação.

Violino de Jeff Stratton

Há músicas que inspiram meditações fúnebres, como o quarteto de cordas n° 15 de Dmitri Shostakovich, ou que expressam pesar de maneira sublime, como o estudo para 23 cordas solistas Metamorphosen de Richard Strauss ou as Canções sobre a Morte das Crianças de Gustav Mahler. A morte também pode ser contemplada como uma força vital que impulsiona a ópera romântica, onde destaca a transitoriedade da experiência humana e entrega ao espectador a premonição melodiosa de sua finitude.

Violino de Jeff Stratton

Contudo, o motivo mórbido mais utilizado na música clássica é o medieval e sinistro Dies Irae, que conjura de modo terrível o julgamento final do cristianismo. Giuseppe Verdi faz uso do hino de maneira vigorosa em seu Requiem, introduzindo a sequência tradicional do rito fúnebre latino, e fazendo-o ser repetido para conferir uma sensação de unidade à peça e para explorar os sentimentos de perda e pesar, evocando ao mesmo tempo o desejo humano por perdão e misericórdia.

Já Mozart trata a morte de uma forma ligeiramente diferente quando imprime em seu Requiem o que pode ser chamado de terror absoluto. O gênio deixa de lado a lamentação típica dos ritos fúnebres e injeta uma dose quase insuportável de angústia e medo, sentimentos que faz serem acompanhados por imagens apocalípticas do inferno e do julgamento final. Mesmo assim, o paralelo com o Requiem de Verdi pode ser encontrado nas súplicas por misericórdia que acabaram sendo intercaladas, expressando o entendimento puramente existencial do ser humano a respeito da morte, o qual pode ser visto como uma mistura contraditória de medo e resignação.

Violino de Jeff Stratton

A morte ainda ocupa um lugar de destaque na biografia de muitos dos grandes compositores. Nos casos de Ludwig van Beethoven e Robert Schumann ela esteve presente em momentos de angústia existencial e profunda revolta. O primeiro, após um período de saúde precária e convalescência, marcado por ascites, diarreia, vômitos e inconsciência, morreu gesticulando agressivamente contra os céus. O segundo, tentou lançar-se à eternidade nos braços das ninfas do Reno, mas foi resgatado por marinheiros e conduzido à um hospício. Beethoven tinha 56 e Schumann tinha 44 anos.

Compositores mais jovens também foram visitados pela morte, alguns em circunstâncias muito misteriosas. O caso mais famoso é o de Wolfgang Amadeus Mozart, que teve sua identidade construída pelas numerosas teorias que cercam sua partida deste mundo. Digna de nota é a que aponta o rival Antonio Salieri como sendo seu assassino, pois acabou se tornando o tema da peça de Peter Shaffer, transformada mais tarde no bem conhecido filme Amadeus. Mozart morreu com 35 anos. Exemplos semelhantes são os de Schubert, morto aos 31, e Chopin e Mendelssohn, antes dos 40.

A diversidade destes encontros entre a música e a morte soam tão intrigantes que acabaram suscitando a lenda de que os grandes compositores, em hora próxima ao encontro com a gélida ceifadora, deixam para a humanidade um legado, uma obra-prima, uma espécie de canto do cisne. Este parece ser o caso de Johann Sebastian Bach, que morreu antes de terminar A Arte da Fuga, e do próprio Mozart, cujo Requiem havia sido recém começado pouco antes de sua morte. Por mais difícil que seja tomá-la como uma regra, a lenda é coroada pela obra O Canto do Cisne, uma compilação de obras de Franz Schubert publicada após a sua morte.

Website de Jeff Stratton: Stratton Violin


Giordano Cimadon

Psicólogo, professor de hermetismo, gnosticismo e esoterismo, escritor e editor do site da Sociedade Gnóstica, e coordenador pedagógico dos Cursos Online da SGI.
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