até que nem tanto esotérico assim

onde o esoterismo, o gnosticismo e o hermetismo encontram a cultura pop e contemporânea

Giordano Cimadon

Psicólogo, professor de hermetismo, gnosticismo e esoterismo, escritor e editor do site da Sociedade Gnóstica, e coordenador pedagógico dos Cursos Online da SGI

Os Deuses Astronautas de Ridley Scott

Num futuro próximo, a tripulação da espaçonave Prometheus parte em busca do encontro com uma civilização alienígena que teria criado a humanidade. O novo filme de Ridley Scott retrata a busca mística pelas origens da vida humana através de uma jornada dualista carregada de elementos mitológicos modernos baseados nas tradições sumérias e gnósticas, e nas recentes teorias arqueológicas sobre os deuses astronautas.


Iconografia do filme Prometheus

Os dias avançam em direção à 15 de junho, data de lançamento aqui no Brasil de Prometheus, e a expectativa em torno do novo filme de Ridley Scott não para de crescer. Tanto quanto a imagens fascinantes, trailers aterrorizantes e campanhas de marketing, o hype se deve à clara influência da chamada teoria do astronauta antigo, segundo a qual civilizações alienígenas teriam ajudado a humanidade primitiva a alcançar estágios superiores de desenvolvimento.

Inicialmente apresentada pelo suíço Erich von Däniken, a teoria que afirma a influência extraterrestre na cultura humana em um passado remoto há muito deixou de ser novidade na cultura popular. Está presente no quarto filme da série Indiana Jones, no aterrorizante O Enigma de Outro Mundo, na ficção científica Stargate, na série Jornada nas Estrelas, e em tantos outros filmes, séries, livros e quadrinhos, sem esquecer dos games, como é o caso da temática dos Precursores em Halo e dos Proteanos em Mass Effect.

Ainda assim, em Prometheus a temática aparece com muito mais força, já que é ponto de encontro entre o impulso do interesse do público nos eventos que antecedem a batalha da tenente Ripley com a criatura Alien, e o ritmo envolvente e às vezes emético impresso pela direção de Ridley Scott. E como se isso já não fosse suficiente, o filme ainda oferece os temas religiosos, cosmológicos e teleológicos que satisfazem e atiçam, em movimento perpétuo, a curiosidade existencial que todo ser humano possui a respeito de suas próprias origens.

Inicialmente, a história a ser contada em Prometheus era a que antecede o confronto entre a criatura idealizada pelo suíço H. R Giger e os tripulantes da Nostromo. Na medida em que o projeto de Scott ia tomando forma, acabou enfatizando a figura do space jockey que aparece no primeiro filme, um alien gigante que sugeria um paralelo com os supostos predecessores, soberanos e professores dos seres humanos. Neste sentido, o foco deixou de estar sobre a reflexão existencialista a respeito da solidão humana em meio ao vazio e à casualidade do universo, passando para a busca mística pelas origens da vida humana.

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Prometheus tem início com uma cena que retrata a origem da vida humana na Terra a partir da intervenção de seres alienígenas. Em um passado distante, uma nave espacial chega ao nosso planeta trazendo um alienígena de forma humanoide que desintegra o próprio corpo para alimentar o planeta com seu DNA. Em seguida, mostra um casal de arqueólogos, a religiosa Elizabeth Shaw e o ateu Charlie Holloway, que no ano de 2089 descobrem uma mapa estrelar a partir de pistas deixadas por diversas culturas antigas sem conexão aparente umas com as outras. Eles interpretam o mapa como um convite dos predecessores da humanidade, que são chamados de Engenheiros.

A nave de exploração científica Prometheus é enviada para encontrar os Engenheiros, mas as ordens são claras para que os membros da equipe evitem contato direto com eles. Ela pousa em 2093 em uma lua desolada, ao lado de uma estrutura que passa a ser explorada pela equipe. Lá dentro eles encontram diversos cilindros feitos de pedra, a estátua monolítica de uma cabeça humana e o corpo de um alienígena gigante, que se considera ser um dos Engenheiros. No interior da nave, o material genético do Engenheiro é analisado. Seu DNA é idêntico ao dos seres humanos.

Quando um dos cilindros é levado para dentro da Prometheus e um dos passageiros é infectado por um líquido estranho, a trama se desenrola com os esperados conflitos e tensões que se ocorrem tanto dentro como entre os personagens. E é claro, muitas mortes, pois a morte é a punição cinematográfica clássica e mitologicamente inevitável aplicada sobre aqueles que ultrapassam os limites estabelecidos pelas autoridades e os poderes superiores, mesmo que movidos pela legítima busca pelo conhecimento de suas origens e, consequentemente, de sua identidade.

Em 1968, esta busca foi alimentada pelas ideias de von Däniken, com a publicação de seu best-seller Eram os Deuses Astronautas?, onde sugere que algumas das antigas construções e monumentos espalhadas pelo mundo eram muito complicadas ou avançadas para terem sido criadas pela humanidade da época. Portanto, estruturas impressionantes como as Pirâmides de Gizé, as estátuas da ilha de Páscoa e os monumentos megalíticos de Stonehenge teriam sido criados por civilizações extraterrestres avançadas que interagiram com os seres humanos primitivos.

Os indícios apresentados por von Däniken e inúmeros de seus continuadores para sustentar a teoria das divindades astronautas foram incorporados não somente ao roteiro de Prometheus, mas também à sua iconografia e a certos elementos visuais. O primeiro deles é a cabeça monolítica encontrada pela tripulação, que é muito semelhante aos Moais da ilha de Páscoa, e que serviam como forma de homenagear os líderes e os deuses do passado. Além disso, é possível observar certas inscrições nas bochechas da cabeça, as quais são muito parecidas com a escrita suméria, curiosamente uma das primeiras formas de comunicação desenvolvida (ou aprendida?) pelos seres humanos.

Iconografia do filme Prometheus

É na Suméria que encontramos o mito da criação que apresenta os paralelos mais consistentes com a teoria de von Däniken e os elementos míticos do enredo de Prometheus. Na interpretação oferecida por Zecharia Sitchin, este mito conta a história dos Anunnakis, gigantes extraterrestres que vieram ao nosso planeta para explorar seus recursos. Carentes de mão de obra, acabaram criando os seres humanos através de manipulações genéticas para que servissem como escravos. No entanto, logo os Anunnakis libertaram nossos antepassados e ensinaram a eles as ferramentas necessárias para o progresso da civilização. Em outras palavras, possuíam controle sobre os seres humanos, podendo dar-lhes a liberdade ou a escravidão, e da mesma forma, a vida ou a morte.

Num dos desenhos que representa o mito sumério da criação do seres humanos, é possível constatar a presença de uma espécie de ânforas muito semelhantes àquelas mostradas nas imagens e vídeos promocionais de Prometheus. No filme, elas contêm o líquido que parece originar diversas formas de vida. Isso se assemelha ao papel desempenhado pelo deus Khnum, da mitologia criacionista dos antigos egípcios. Ele era o responsável por dar forma aos fetos humanos a partir do barro em uma roda de oleiro, e em seguida depositá-los no ventre das mães. Além disso, existe mais uma referência egípcia que conecta o surgimento da vida e as ânforas. São os vasos canópicos, que guardavam as vísceras do morto para serem usadas na vida após a morte, o que não deixa de ser uma ressurreição, ou um novo nascimento.

Iconografia do filme Prometheus

Outro elemento visual que pode ser observado nos trailers e nas imagens é um objeto gigantesco em forma de anel, muito semelhante a inúmeras tentativas de descrição bíblica da roda de Ezequiel, também conhecida como “uma roda dentro de uma roda” (Ezequiel 1:16). Os trailers mostram este objeto desacoplando do que parece ser uma nave espacial, e em outro momento rolando pela superfície do planeta. De acordo com von Däniken, a revelação de Ezequiel no Antigo Testamento corresponde à descrição detalhada do pouso de uma espaçonave, e os anjos semelhantes aos seres humanos que a acompanham seriam os nossos predecessores.

Iconografia do filme Prometheus

De alguma forma, as referências iconográficas à teoria do astronauta antigo não estão sendo inauguradas na série Alien só em Prometheus, mas podem ser identificadas desde o primeiro filme. Existem indícios de que o roteiro original de Dan O’Bannon para o filme de 1979 incluía pirâmides, estruturas que teriam sido construídas pelos deuses astronautas. Outro fator importante é a aparente influência do Livro Egípcio dos Mortos sobre H. R. Giger, em sua concepção do space jockey, a qual espelha a barca funerária do deus egípcio Seker.

Iconografia do filme Prometheus

Por fim, é interessante observar mais um elemento de origem suméria que foi incorporado à iconografia do filme e que para muitos pode passar despercebido. Trata-se da logomarca da megacorporação Weyland-Yutani, que traz muita semelhança com a representação do deus solar sumério Samash, o precursor dos também deuses solares egípcios Rá e Hórus.

Iconografia do filme Prometheus

Todos estes elementos visuais acostumam o espectador à forma mitológica moderna elaborada por Ridley Scott, através da qual é transmitido o tema da busca perpétua pelo autoconhecimento, uma jornada mística marcada pelo dualismo. Ao mesmo tempo em que os tripulantes da Prometheus encontram os criadores da raça humana, também se deparam com uma verdadeira arma biológica criada por estes seres e que pode causar a extinção da raça humana. Com isso são apresentados à totalidade do aspecto demiúrgico dualista dos Engenheiros, que compreende tanto a benevolência criadora como a malevolência destruidora, algo bem conhecido pelos gnósticos dos primeiros séculos.

A mitologia gnóstica concebia um universo gerenciado pelos Arcontes dos Aeons, seres extraterrestres de inteligência e capacidades absolutamente superiores às dos seres humanos. Nos aspectos essenciais, os Engenheiros de Ridley Scott, bem como os Anunnakis de Zecharia Sitchin e os Arcontes do Gnosticismo guardam muitas semelhanças, e podem ser considerados como sendo arquetipicamente mais completos do que os Deuses Astronautas de Erich von Däniken. Estes últimos são seres absolutamente bons, pretendendo auxiliar o ser humano no caminho do bem e guiá-lo em sua evolução. Já os Engenheiros de Ridley Scott englobam tanto o bem como o mal, aspectos que se experimenta em sua busca pelo reencontro com suas origens, pelo resgate de sua identidade e pela dissolução da dualidade na misteriosa unidade.


Giordano Cimadon

Psicólogo, professor de hermetismo, gnosticismo e esoterismo, escritor e editor do site da Sociedade Gnóstica, e coordenador pedagógico dos Cursos Online da SGI.
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