atenciosamente...dominique.

Disseram que era só uma fase.

Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole.

A vez dos inadequados

De Drummond a Radiohead, a roupagem da inadequação nunca esteve tão em evidência. O paradoxo da valorização do diferente e o comportamento que desconhece a vida no mainstream.


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Este será o primeiro texto que escrevo em primeira pessoa aqui, ou, parafraseando outro colega lounger (Alô Felippe Fiori!): "Este é meu primeiro texto inadequado, para mostrar para os inadequados, o quão bom está sendo não ser adequado, pois esta é a nossa vez."

A mim é mais fácil mostrar o olhar ao invés de mostrar quem olha. E isso cabe muito no tema do presente artigo. Mas vamos lá. Fui pesquisar no Houaiss o significado da palavra Inadequação. Eis:

s.f. ausência de adequação. ETIM in+adequação. SIN/VAR ver sinonímia de desinteligência. ANT adequação; ver tb. antonímia de desinteligência.

Seguindo a orientação do dicionário, pesquisei o significado de desinteligência. É enorme, e cheio de variáveis. Vou colocar algumas aqui que me chamaram atenção:

s.f. discrepância entre pontos de vista. falta de amizade. falta de inteligência. SIN/VAR antagonismo, conflito, desajuste, desarmonia, diferença, incompatibilidade, inconformidade, litígio, quizila; ver tb. antonímia de contraposição.

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Se me permite, discordo do Houaiss em vários aspectos. E concordo em outros. É preciso no mínimo um pouco de inteligência (ou jogo de cintura) para sobreviver numa condição de inadequação. O mundo precisou passar por um processo de mecanização e padronização por tantos anos para chegar ao que chegou, bom e/ou ruim. E sustentar a particularidade num ambiente de repetição é até ousado e inteligente.

tumblr_mp0yte0Kqc1rd1k06o1_1280.jpg "É o que é. Nós não podemos mudar isto. Nós só temos que decidir como iremos responder. Nós não podemos mudar as cartas que nos foram dadas, mas apenas o modo como iremos jogá-las." Randy Pausch

Concordo com o dicionário quando ele remete ao significado de desinteligência: desajuste, incompatibilidade, inconformidade me parecem mais coerentes com o conceito de inadequação comumente detectável do que o conceito oferecido pelo Houaiss. “Quizila” me arrancou boas risadas.

Cena de Os fantasmas se divertem, de Tim Burton.

Definições a parte, ainda na pesquisa, tentei puxar pela memória algumas referências que tive sobre pessoas que não se encaixam. Lembrei de Carrie, a estranha, do Poema de Sete Faces do Carlos Drummond, de um filme inglês que assisti, da Matilda (sim, aquela menininha), do Tim Burton, das bandas underground, de algumas músicas que escuto vez ou outra. A quantidade de conteúdos que remetem a este tema é grande, e vai além do que minha fraca memória e conhecimento pouco aprofundado alcançou até então. Coisas de desinteligentes.

LMS-little-miss-sunshine-6646482-900-600.jpg Cena do filme Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris.

Desperta minha atenção esta tendência atual do diferente. Alguns justificam com a idéia de que as pessoas das últimas gerações consideram-se todas especiais (ou seja, ninguém é?), e no entanto pode gerar algumas frustrações futuras ao perceber que a realidade dura e madrasta do mundo não compactua com as nuances comportamentais dos especiais. Outros sustentam a idéia do “efeito rebote”, pois em meio a tantas ações repetitivas e pouco autênticas, surge a necessidade do diferencial, o it, ou, como diz aqui na minha terra, o borogodó, sem ter intenção para tal. Quem diria que ser inadequado e estranho seria considerado um borogodó. Ainda bem que (sobre)vivi para ver isto acontecer.

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No mundo dos negócios, a “Revolução dos diferentes” começou a dar as cartas nas entrevistas de emprego. Há poucos anos atrás, as grandes corporações tomavam como base um currículo rico em experiências profissionais, uma boa faculdade, capacidade de assumir as responsabilidades próprias e exigidas pela empresa, ótimas referências dos antigos empregadores do indivíduo a se candidatar a uma vaga de trabalho.

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Hoje, não se surpreenda ao ser abordado por um entrevistador de uma grande empresa portando uma caixa de Legos para você montar, escrever um artigo sobre a amizade ou te fazer elaborar uma brincadeira de criança…e executá-la. O tal “Quoeficiente Emocional”. Criatividade e distinguir-se do pré-estabelecido virou bem importante no mundo corporativo. Vale salientar também aqueles que, descontentes com a vida profissional atual, largam seus empregos (muitas vezes, com bons salários), em busca de concretizar suas próprias idéias. E muitos dão certo. Incompatibilidade, Inconformidade.

perks.jpg As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky

Existe um perfil, um estereótipo para descrever um típico inadequado: jeito estranho de andar, muito tímido, sempre senta no fundão da sala de aula, é alvo das piadas dos demais colegas, os pais não o compreendem muito bem, tem no máximo um amigo, e seu maior sonho é ter idade e dinheiro o suficiente para cair fora dali o mais rápido possível. Ah, as raras paixões que possui são todas platônicas, claro. Alguém ai se identificou?

Cena do filme O grande garoto, de Chris Weitz e Paul Weitz.

Na minha humilde opinião, depende um bocado. Muitas vezes vai além dos portões da escola. Se uma das suas atividades prediletas é ler livros enquanto você vive num ambiente onde as pessoas só assistem tv e preferem conversar sobre tv (ou vice-versa), você pode ser o peixe fora d’água ai. Ou se você se sente diferente pela cor (ou falta dela) da sua pele, gostar de alguém platonicamente, ou do mesmo sexo, ou faz muito sexo, ou faz nenhum sexo, possui outra idéia de mundo, preferência (ou nulidade) política, religiosa ou científica, é solteiro em meio aos casados, é casado em meio aos solteiros, tem preferências musicais peculiares, formas de se vestir-expressar-comportar que fogem dos padrões, então há grandes chances de você ser o estranho. E a lista continua. Você, eu, nós.

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Da literatura e do campo das idéias, dentre tantos, aqui vão 3 citações de 3 estranhos célebres:

“Nada tenho. Nada me pode ser tirado. Eu sou o ex-estranho, o que veio sem ser chamado e, gato se foi sem fazer nenhum ruído." (Paulo Leminski)

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” (Carlos Drummond de Andrade)

“Adormeço com a idéia tola de querer ser diferente do que sou, ou de que não sou como queria ser. E de que faço tudo ao contrário.” (Anne Frank)

Do cotidiano, é muita gente, tanta que não caberia neste despretensioso artigo. Mas acredito que aqui vai uma espécie de consolo, o grito, o falar baixinho e o riso tímido, a gargalhada frouxa, a síndrome ou outra condição de saúde, estar acima ou abaixo do peso, os amores não (ou mal) correspondidos, até os com excesso de correspondência (acontece, juro), a pessoa por trás dos óculos de grau, dos aparelhos ortodônticos, do livro, da roupa esquisita, esquentando banco na aula de Educação Física, os poucos (e bons) amigos, a preocupação dos pais, aquela “vozinha” no pé do ouvido dizendo que a estranheza uma dia seria vista como autenticidade , temperada com 2 colheres de chá de loucura, ora veja só. Ufa!

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Sabe aquilo que a Rita quis dizer quando cantava Ovelha Negra? Está tudo bem agora. A música. O bobo estereótipo. O Houaiss. A beleza da imperfeição. Todo o pacote de confusões e certezas incluído.

Você.

E eu.

Frances Ha, de Noah Baumbach. * Imagens: Google.


Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole..
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