atenciosamente...dominique.

Disseram que era só uma fase.

Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole.

Chuck Noland e as prioridades

Quando o filme "Náufrago" ensina mais do que conversar com uma bola de vôlei e extrair o dente com patins de gelo.


o naufrago2.jpg

Todo diretor e roteirista, ao idealizar um filme, se propõe a passar algum tipo de mensagem. Contar história com imagens e diálogos bem estruturados é o recurso de que se utilizam para, além do ganha pão, fazer arte. Aqui se fala de um filme lançado há 16 anos, intitulado Náufrago (Cast away, do diretor Robert Zemeckis), protagonizado pelo talentoso Tom Hanks. Na verdade, não se fala exatamente do filme, ou da ótica do diretor. Mas da ótica de uma telespectadora, que insiste em fazer paralelos dos filmes com situações da vida real. Só um pouco, vai.

O filme é rico por suas nuances. É bom sentar no sofá e dedicar por volta de 2 horas do seu dia e presenciar algo que te reporta a outras tantas faces da sua própria vida, e de outros. É rico porque tem nele incutido um bom leque de possibilidades de interpretação.

Para a pessoa que vos escreve, do que o filme mais fala é de prioridades. Para quem não assistiu ao filme (aliás, por qual razão, hein?), melhor parar por aqui, pois os parágrafos a seguir contêm spoilers. Mas se você não se importar, chegue mais, puxe uma cadeira.

cast-away2.jpg Cena do avião caindo. *

O avião cai. A prioridade é sobreviver à explosão do avião em alto e revolto mar. Sobrevive, e o mar o leva a uma ilha deserta. Os dias que se seguem concatenam tentativas duras e bem-sucedidas de sobrevivência. Depois vem a bola de vôlei (denominada Wilson), que juntamente com relógio contendo a foto do seu amor (Kelly Frears, interpretada por Helen Hunt), priorizam manter uma centelha de sanidade mental, diante da solidão profunda encarada no pedaço de paraíso.

01a.jpg Relógio com a foto de Kelly Frears. *

Manter-se vivo é uma prioridade. Parece óbvia, e é, quando enxergamos da comodidade do sofá, ao ver um filme. Mas quando é puxado o fio do tear, há mais o que ser explorado neste tão ordinário objetivo. A pergunta veio: O que te faz vivo?

cast-away.jpg Cena do fogo. *

Chuck Noland, o náufrago em questão, mais magro, já resgatado e no conforto do seu apartamento, em um diálogo com um amigo refletiu sobre os 4 longos e hercúleos anos em que (sobre)viveu na ilha. Falou do que precisou passar para única e simplesmente manter-se vivo. Perdeu por 4 anos, a vida que conhecia, o trabalho, a companhia de quem amava, para atravessar a experiência da solidão e resiliência profundas. Do medo de morrer e do medo de viver. Falou que, contrariando sua própria lógica, e após uma tentativa frustrada de dar fim ao seu próprio sofrimento em definitivo, ele precisava continuar respirando.

Mas lá, na altura da experiência, não sabia o porquê. Retornou ao seu lugar de origem, deparou-se com a vida que caminhou na sua ausência. Ele, dado como morto, encontrou-se com uma lápide tendo seu nome, e com seu antigo amor, casada com outro homem. Foi quando ele percebeu que, novamente, ele não pôde controlar o rumo que sua vida tomou. Ganhou e perdeu novamente. No entanto, a prioridade resistia: continuava vivo.

14353272_4_l.jpg Chuck Noland e a cena do abscesso no dente. *

Um Noland ainda perdido faz uma analogia da vida com o mar. O mar o fez perder muito. Mas foi igualmente responsável por fornecê-lo os aparatos necessários para a sua continuidade. Noland então entendeu. Aceitou. E seguiu.

9c344b791d44ad18c8af38f17448e2e3.jpg "Porque amanhã o sol vai nascer. Quem sabe o que a maré pode trazer?"

Partindo desta premissa, o questionamento latente vai ganhando amplitude. O ser humano nasce, cresce, morre. Porém, entre o primeiro e o último momento, ele escreve sua biografia, e elege, expulsa, renova, esquece, relembra prioridades. Na infância, quem ainda só engatinha, almeja andar. Quem já anda, quer correr. Na adolescência, quer achar sua identidade. Quando acha, quer a liberdade da maioridade para exercê-la. Na vida adulta, quer estabilidade. Quer financeira, quer amorosa. Quer familiar, quer individual. Os anseios da vida adulta parecem ser mais complexos, não é?

E são.

Deve ser por este motivo que há tanta gente a esmo, perdido e à deriva, sem saber exatamente que prioridade eleger em determinados momentos da vida. Porque saber o que constrói e move os próprios anseios depende dinamicamente do estágio em que o ser humano se situa. E em se tratando dos dias atuais, onde as possibilidades são infinitas, quanto maior o leque, maior a dúvida. Nesses casos, sorte dos obstinados.

tom-hanks.jpg "Chuck Noland esteve aqui 1500 dias. Escapou para o mar. Diga a Kelly Frears, Memphis-TN, que eu a amo." *

No entanto, quando tudo o que resta como opção é continuar respirando, continua-se respirando. E a vida, danadinha que é, chega inadvertidamente e coloca qualquer pessoa frente a algumas bifurcações, dois caminhos. Direita ou esquerda, sem chance de protela. Então, quase que por um impulso, elege ali uma prioridade e segue em frente. É uma chance de 50% de frustração e 50% em ser a decisão mais acertada que tomou na vida. Estranhamente, o que deveria ser mais fácil conforme passam os anos, para uma quantidade espantosa de pessoas, garimpar o que é mais valia, engatar a primeira marcha e seguir com ou sem medo, é tarefa árdua. Há quem chegue ao último momento da vida carregando esta dúvida. Tal sensação deve ser angustiante.

Wilson Floats Away.jpg Cena onde Wilson (a bola de vôlei) acidentalmente escapa e fica à deriva.

Noland foi forçado pelas circunstâncias a não correr este risco. Saber exatamente o quê e quem queria da vida não o protegeu de experimentar as duras consequências de ter sobrevivido a um acidente, ter que sobreviver numa ilha deserta e de perder o que perdeu. Mas o ensinou a não carregar arrependimentos. O quê e quem ele quis, ele quis muito e convictamente. Se aconteceu ou não, ficou a critério do curso que sua vida e das pessoas do seu convívio pré-acidente naturalmente tomou pós-acidente. É a readaptação contínua que todos passam, de alguma maneira.

reunited.jpg Chuck e Kelly, pré e pós acidente. *

No momento em que o personagem se posiciona sozinho no meio da estrada vazia, com 4 caminhos livres a seguir, novamente ele readapta seus anseios frente à quatro possibilidades de escolha. Então, tranquilamente entra no carro, elege um e segue.

screen-shot-2012-04-07-at-7-07-00-pm1.jpg Cena final - a estrada. *

Talvez more aí uma das maiores belezas da sétima arte. Mais do que entretenimento, há ali incutido um poder que transpõe ao roteiro e vira uma reflexão necessária e contínua do espectador. É quando acontece, por vezes, da arte ensinar o que muito importa na vida e amortizar, assim, os arrependimentos e o gosto amargo e indigesto do que seria, mas não foi.

Prioridades.

* Imagens: Google.


Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole..
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