atenciosamente...dominique.

Disseram que era só uma fase.

Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole.

Tarde na praia

Domingo, junho, cargas desnecessárias e uma moça.


IMG_20170520_170133594.jpg Imagem: arquivo pessoal

Era um domingo de junho, à tarde. Às 15:20, chuva deu trégua na capital paraibana e ainda assim a orla do Cabo Branco estava vazia. Ela encontrou um lugar bom para estacionar e ali chegou. A cabeça nublada, o peito pesado. Foi caminhar e correr, como por hábito fazia em alguns domingos. Dos 5km, conseguiu caminhar/correr apenas os primeiros 2,5 km. Carregava tanta coisa na mente e no coração que o seu rendimento caiu. Além disso, na volta começou a sentir um desconforto, resolveu apenas caminhar.

O desconforto aumentou, virou um enjôo. Foi quando se aproximou do seu ponto preferido daquela orla, retirou o tênis e decidiu continuar seu percurso com os pés na areia molhada, bem perto de onde as ondas quebram.

Nos mais de 2,5 km que percorreu, ela observou tudo ao redor, especialmente o mar. Como pode aquela imensidão de água representar calmaria? O que ela carregava dentro de si, embora pesasse tanto, não representava o mínimo do volume daquele mar. No entanto, ela era angústia. Ele, paz. Um paradoxo até poético.

Conforme andava, aconteceu algo que há um bom tempo não acontecia: Ela chorou. E em público, embora a praia estivesse relativamente vazia. Por vergonha e timidez, espremeu os olhos, virou o rosto no sentido do mar, para que nenhum caminhante notasse seu rosto rosado e úmido. Os raios do sol que começava a se pôr iluminavam o rosto e o cenário ao entorno. E então ela começou a entender o que acontecia.

Talvez a grandeza do mar a ensinasse sobre sua pequenez. Não importa o que ela estivesse passando, o mar sempre estaria lá, misterioso, fluído e intacto. Para ela, o fardo estava pesado para carregar, enquanto que para ele, nada importava além de si. Era como se ela, bem como os seus problemas, nem existissem para ele.

No entanto, ao passo que o mar era indiferente ao que se passava com tal moça, foi através dele que ela começou a despejar, gota a gota, o que a afligia. O interessante do mar em fim de tarde é que o cenário que ele compõe é perfeitamente arquitetado para receber o peso da dor. A calmaria se configura num equilíbrio de cargas, num clareamento de ideias e organização de sentimentos. Ela entendeu que o fim de tarde na praia é ordem, volta ao eixo. É chegar chumbo, e sair pena.

Enquanto caminhava, até a trilha sonora que ela escutava em seu fone colaborava para este processo. Numa seleção de quase 1000 músicas, que vão de System of a Down até Luiz Gonzaga, ela colocou a lista em modo aleatório, para ver o que é que saía dali. Todas as músicas, quer seja pela melodia, quer pela letra...foram perfeitamente posicionadas ao longo do percurso. E ela sentiu-se melhor, pois se lembrou que a música sempre a concedeu os conselhos que não ouvia por aí. Continuou.

Logo mais, já mais leve e um pouco mais desidratada, ela passa por duas crianças brincando na beira do mar. Uma delas, uma menina, pergunta a moça se aquilo que está dentro do mar é um crocodilo de verdade. Ela, a moça, já arrisca sorrir e responde que não, na verdade ali eram recifes, formações rochosas dentro do mar e perguntou quem havia dito isso a ela. O menino levantou a mão e envergonhado assumiu a culpa. A moça riu. As crianças também. Lembrou-se que é bem humorada. Continuou.

Passou por famílias, casais, pessoas sozinhas que liam livros, tomavam chá. Percebeu que havia caminhado muito mais do que os 2,5 km de retorno, e resolveu voltar. Passou pelas mesmas pessoas e locais, porém seu olhar era outro. Talvez seja isso o que as pessoas procuram quando viajam. Não é o meramente belo, o diferente. É o efeito que locais, pessoas e situações causam em seus viajantes. A moça se arriscou viajar dentro da própria cidade, em um ponto que já lhe era muito familiar. Porém numa experiência completamente nova. Decidiu sentar-se naquele trechinho da praia que ousava chamar de seu, para observar.

Notou que o fim de tarde, embora nada se importe com a presença de seus visitantes, era um anfitrião e tanto. Comportava desde casais apaixonados, a idosos em cadeiras de rodas acompanhados de cuidadores. Desde crianças acompanhadas de imaginação à beira do mar, à senhores tomando chimarrão e lendo livros, sozinhos. Desde concluintes de graduação tirando fotos para a placa de formatura, à moças e moços se desfazendo de fardos internos. É democrático.

Ela esperou o sol se pôr. Exceto das roupas, despiu-se de tudo para o mar. Chegou lá com a ideia furtiva de que é forte quem suporta mais o fardo, e saiu de lá ciente de sua pequenez e ao mesmo tempo da força que brota após o desprendimento de bagagens desnecessárias, através da vulnerabilidade.

Sacudiu a areia dos pés e da roupa.

Ligou o carro.

Continuou.


Dominique Silveira

Tropeça muito, pois cresceu demais. Acorda de mal humor, e é adepta da gentileza. Casca dura, coração mole..
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