Rui Caeiro

Sonha (atenção ao clichê!) ser dono de um corpo escultural dando apenas ao dente. De resto, procura histórias/estórias. Quem as possuir pode entrar em contacto. Quem não possuir também pode, mas tem de enviar qualquer coisa que se trinque

O preconceito é uma merda.

Foi em 1996 que João Paulo, nascido na cidade portuguesa de Matosinhos, inscreveu nos motores de busca do Yahoo o primeiro portal da internet, escrito em português de Portugal, dedicado à população LGBT. Membro organizador das primeiras Marchas de Orgulho LGBT em Portugal, fundador do Porto Pride, fundador da Associação GIS - Grupo Intervenção Solidária e, mais recentemente, locutor de rádio no programa "Também Somos Gente!" da Rádio Manobras, falou à Obvious de preconceito, ativismo e como tudo começou.


JP4.jpg Como começou o PortugalGay? Como começou...? Por acaso. Eu conheci o meu marido em 1995 e o PortugalGay nasceu em Junho de 1996. Nasceu porque a minha cara-metade, para se identificar, para se descobrir, procurou informação na internet - tudo o que encontrou era em inglês. Quando nos conhecemos ele partilhou essa experiência comigo e no meio da conversa concluímos que era um bocadinho chato não haver nada em português. Então começou a partir daí. Na altura foi uma página, com um fundo preto - fantástico - e nós celebrávamos cada visitante. 100 visitas foi uma alegria, 250 ficámos nervosos, quando chegou às 500 fomos jantar fora para celebrar. Atualmente estamos a falar de um portal na internet, já não é um site, com mais de 35000 páginas, com perto de 2 milhões de pessoas por ano, em que cada pessoa visita a página 5 a 10 vezes por dia. A audiência é maioritariamente portuguesa, a seguir vem o Brasil e depois é um pouco distribuída por Europa e EUA.

E a ação enquanto ativista, como surgiu? Sei que atualmente não desenvolves trabalho em nenhuma associação LGBT...? A minha consciencialização enquanto ativista começou numa associação chamada ILGA Portugal. Eu era o sócio número 45 e para mim era tudo novo. O que não era novo era a consciência de que somos todos iguais, que não pode haver "tu és mais do que eu porque és engenheiro" ou "ele é mais do que eu porque tem um BMW". Esse tipo de relação para mim nunca existiu. Quando tens associações que discriminam o próprio público que defendem - ou que dizem defender, porque se fores mais libertino já não cabes nessa associação - eu saí fora e preferi fazer o meu trabalho sozinho. Foi um suceder de situações que eu considerei que eram juízos de valor e eu não estou aqui para julgar ninguém.

É por esse motivo que continuas a desenvolver ativismo LGBT individualmente? A tua visão sobre as associações não mudou? Não mudou. Sabes que as associações são feitas de pessoas. Se reparares, há várias associações para defenderem os animais, talvez até 2 ou 3 na mesma cidade. Porque é que há 2 ou 3? Porque é que não se juntam todas numa? Porque as pessoas têm uma coisa chamada ego e eu não tenho paciência. Faço ativismo a nível pessoal, ninguém me chateia e eu não chateio ninguém. É muito mais tranquilo estares a tentar fazer o melhor que sabes e podes, do que estares em permanente conflito com alguém que queira apenas aparecer. O spot-line não é a minha ambição. Por exemplo, uma das "regras" que faço por manter na Marcha é que não posso ser eu nem os meus colegas, enquanto ativistas e que temos a nossa situação resolvida - com a família, com os amigos, com o trabalho - a pegar na faixa da frente. Temos de nos consciencializar que quando fazemos uma Marcha, fazemos para pessoas que não têm abertura ou facilidade de serem felizes, e é para eles que fazemos a Marcha. Portanto, quando eles vêm, a faixa é deles. Sem Título.png Marcha do Orgulho LGBT 2012 em Lisboa. Fonte: PortugalGay Devido a esses aspetos que referiste, e que te levaram a sair dessa associação, o ativismo LGBT não fica um pouco desorganizado, com menos força, se comparado com outros países? Sim, mas isso não tem a ver com o Movimento, isso tem a ver com a cultura Lusa. Hoje fiz uma entrevista a um rapaz do Porto que é dono de um bar em Lisboa, e em que ele me dizia que tentou fazer uma associação de bares porque assim teriam mais força. Os bares não quiseram! Há sempre alguém que salta fora. Mas por outro lado, quando é mesmo necessário, sabemos dar a volta ao esquema. Por exemplo: em 2002 houve um acontecimento em Portugal que se chamou Fórum Social Português. Para mim foi das melhores coisas que aconteceram a nível do ativismo social, não apenas LGBT mas a nivel geral, porque englobava tudo - sindicatos, associações de agricultores, LGBT's, precários, etc. Era mesmo muita gente. Quando havia assembleias nunca nos sentávamos perto uns dos outros por causa da...vamos chamar-lhe "urticária"... que nos separava. Mas quando era preciso tomar uma decisão importante, cada associação discutia o assunto, chegava-se a um consenso, e quando todos estivessem de acordo o Movimento LGBT apresentava a proposta como um todo. Porque era importante. Mas, por exemplo, quando foi a questão da Lei do Casamento toda a gente participou na recolha de assinaturas: pessoas individuais, associações, mesmo aquelas que não eram do Movimento. Quando a conquista foi ganha, ou seja, quando se obrigou a Assembleia da Republica a falar da coisa, apareceu uma associação a dizer que fez tudo sozinha...

E em relação à Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa [a primeira realizada em Portugal]. Estiveste envolvido na organização desde a primeira edição? Estive desde a primeira até, talvez, à sexta, que foi a altura em que saí.

Era bem organizada, com o objetivo de protestar, reivindicar direitos, ou era mais vista como um momento de festa? Na altura o que o jornalismo noticiava era a "traveca", era o drag queen, era a bicha maluca. Havia mil pessoas, que representavam diferentes associações, cada uma com uma faixa de reivindicação. Nenhuma dessas faixas apareceram em lado nenhum. O que apareceu foi um carro que levava meia dúzia de malucas, histéricas, pintadas e com plumas. Foram capa de jornal. Mas claro, também é um momento de celebração. Ninguém se pode esquecer, por exemplo, que o 25 de Abril é uma celebração. Por muita reivindicação que se faça no 25 de Abril, não deixa de ser uma celebração. A conquista da liberdade, a democracia... a mesma coisa se passa quando há uma Marcha. Independentemente do dia a que a Marcha ocorre, nós estamos a celebrar o 25 de Abril dos gays. É um momento de celebração, mas também para reivindicar e passar uma mensagem política. Eu dou-te um exemplo: eu organizo o Porto Pride... é uma festa, não é um momento político, no entanto há duas intervenções em que aproveitamos para dizer aos presentes de que há um trabalho a fazer. Mas eu perguntava sobre as pessoas que participaram na Marcha... Não te sei dizer se era mais festa ou se era mais reivindicação. Eu acredito que era um pouco das duas. Terias algumas pessoas que eram conscientes que aquilo era um movimento político, terias algumas menos conscientes desse movimento político e que estavam lá para dar o Grito de Ipiranga. Porque esse era, sem dúvida, o evento que na altura tinha mais visibilidade. Se tu paras uma rua, é diferente de estar parado numa praça. A praça está fechada, os carros passam, ninguém liga. Na rua não: tu paraste o trânsito para passar.

E hoje? Hoje é mais político e tende a ser cada vez mais. Eu faço uma distinção entre a Marcha de Lisboa e a Marcha do Porto: a Marcha do Porto sempre foi muito mais politizada, ou muito mais séria. Posso dizer-te que houve um ano em que tivemos travestis, e quase por culpa minha, porque fui eu que pedi. Porque estava a ver uma marcha gay que mais parecia uma manifestação da CGTP. Mas isto tem a ver com os comportamentos sociais. O norte é mais ligado ao trabalho e é mais sério nas lutas. Lisboa é mais festa, tem mais sol também, e isso altera os comportamentos. O Porto sempre foi mais reivindicativo, mais sisudo na "guerra". Basta que começaram por razões diferentes: em Lisboa começou porque sim, porque estava na altura, porque já se realizava em várias capitais europeias. A Marcha do Porto apareceu porque mataram uma transexual [Gisberta] de forma bárbara e isso fez com que houvesse ali uma carga um bocado pesada. Talvez também por isso foi tão difícil contar com a presença de travestis. Mas é política, e cada vez mais. Acredito que este ano vai ser muito má. Muito má no sentido de que este ano és capaz de ver caras muito fechadas. A crise está a afetar a todos. Às vezes nem é diretamente as pessoas LGBT, mas nós somos filhos de alguém, sobrinhos de alguém, irmãos de alguém, e esses "alguém" estão a padecer com a crise. Eu digo que não afeta tanto os gays porque a maioria de nós não tem filhos e por isso ainda vamos vivendo melhor.

Tens noção do número de pessoas que estão envolvidas na organização da Marcha do Porto? E o número de participantes? Umas 10, 12 associações, e não são só LGBT. São associações LGBT, SOS Racismo, associações de mulheres... tens de ir buscar sinergias porque sozinho não fazes nada. A nível de participantes... normalmente a Marcha de Lisboa diz que tem 3000, 5000, mas não sei, não faço ideia. O Porto atualmente está perto das 2000 pessoas.

Em 2012 o PortugalGay lançou um inquérito em que perguntava "Alguma vez viu uma Marcha do Orgulho LGBT ao vivo?". Responderam 94 pessoas: 70% responderam que não e, desse número, 26% especificaram que nem teriam interesse. Na tua opinião, porquê esse resultado? As pessoas influenciam-se porque nunca foram ver, nunca estiveram lá. Pegam no jornal e o que é que veem? Eu já estive em várias assembleias em que se falou disso, até em bares, em que eu pergunto ás pessoas se já foram alguma vez. Normalmente a resposta é "não, nem vou porque aquilo é uma macacada". Primeiro tem de se ir e só depois dizer se é macacada ou não. Mesmo em Lisboa, que tem maior diversidade, há cada vez menos folclore. Eu lembro-me de um ano em que houve umas guerras meio malucas porque queriam dizer aos travestis para não ir. Quando se fez o comunicado da marcha as pessoas que estavam disponíveis para falar aos meios de comunicação social assinaram uma folha. A Marcha começou e contaram-se as pessoas que estariam mais "exuberantes". Eram perto de dez. Tínhamos 1500 pessoas a marchar. Tínhamos as pessoas para falar com a imprensa identificadas. Fez-se questão de manter cada faixa a 2 ou 3 metros de distância entre si, de forma que se pudessem ver bem. Não apareceram as faixas, ninguém falou com as pessoas indicadas. Quem é que apareceu e foi entrevistado? Aquelas 10 pessoas.

Disseste que nesse ano tentaram impedir os travestis de irem à Marcha. Por causa da imprensa? Foi uma ideia infeliz. Porque pensavam que desviava a atenção e dava uma conotação negativa à Marcha. Na altura eu e o Sérgio Vitorino [ativista da Panteras Rosa] dissemos que se fosse assim íamos embora e fazíamos uma marcha com os travestis, com as drag queens, no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo sitio.

Essas atitudes não levam à perca de confiança nas pessoas, nas associações, até mesmo no Movimento? Isto foi uma coisa passada nos bastidores. As pessoas não sabem o que se passa nas associações. Se eu e o Sérgio Vitorino fôssemos contar tudo o que se passa nas associações, haviam algumas que fechavam amanhã. E hoje pensam, talvez, que são as maiores do mundo. Porque, curiosamente, há muito preconceito dentro das pessoas que sofrem de preconceito. As associações LGBT servem para defender do preconceito, mas elas próprias, algumas, são carregadas de preconceitos em relação aos outros. Não cabe na cabeça de ninguém ter uma associação LGBT a dizer que não podem estar presentes travestis ou drag queens. Mas depois há um trabalho valiosíssimo, então não vale a pena tocar em apontamentos.

No inquérito que referi à pouco, uma das pessoas que votou deixou o seguinte comentário: "ninguém com três dedos de testa desfila para exibir a sua opção sexual, é privado, diz respeito a cada um e não a todos". Para já não é uma opção. Ninguém escolhe de manhã se vai dormir com um homem ou se vai dormir com uma mulher. É uma orientação. Quem escreveu isso escreveu mal. Porque se fosse assim nenhum de nós era gay. Ninguém escolhe ser discriminado. Niguém escolhe ser algo que a sociedade diminui. Em relação a esse senhor: há uma manifestação, mundial, que é o orgulho católico. E acontece várias vezes! Acontece no Natal, acontece na Páscoa... acontecem vários prides; prides católicos. Alguém precisa andar a dizer qual é a sua fé? Outro exemplo: quando alguém quer celebrar o seu clube de eleição, as cidades param. Ninguém se incomoda com o barulho... o Benfica é campeão e temos música na rua até à 1 da manhã. E ninguém trabalha no dia seguinte, que é o mais engraçado. Eu também acho isso mal, já viste? O orgulho de ser benfiquista! Isso é muito mau! A meu ver quem diz isso está imbuído de preconceito até à ponta dos cabelos. Ninguém vai para a rua dizer que é gay. O que se vai dizer é "sou gay e estou vivo", são coisas diferentes. Eu já não vivi isso, mas é da altura do meu pai: ninguém se pode esquecer que, em Portugal, já se morreu por ser gay, já se esteve preso por ser gay, já tivemos a policia atrás de nós porque andávamos a engatar no meio do parque porque não tínhamos mais sítio nenhum para onde ir. Há muitos estudos, feitos lá fora, que mostram que há muito jovem que se suicida: não porque é diferente e porque pensa que vai desiludir o pai, a mãe, os amigos, os irmãos... mas porque vivemos numa sociedade mentecapta de pessoas como esse senhor, que diz que não tem de ir para a rua. Ele não se estaria a exibir... e voltamos à questão em que eu dizia que quando se faz uma Marcha, faz-se para aqueles que não têm capacidade de gritar. Eu grito por eles. Até ao dia que se consigam libertar do jugo preconceituoso da sociedade, que ainda é muito mesquinha.

photo1769.png Fonte: GPhilly Mas a Marcha LGBT é um momento feito a pensar na comunidade LGBT ou não-LGBT? É um momento de visibilidade para toda a comunidade, quer a LGBT quer a não-LGBT. Para dizer a uns "estamos à vossa espera", porque quantos mais melhor. Temos de ter em conta que há cada vez mais heterossexuais nas Marchas: aqueles que não concordam com o jugo conservador da sociedade. E depois é também para os outros, que se estiverem lá e não se basearem naquilo que leem nos jornais, reparam que somos todos diferentes, tal como os heterossexuais também o são.

Durante as Marchas existem momentos em que são proferidos discursos sobre os temas que estão em foco nesse ano. Depois de a Marcha terminar o que é que acontece? Esses discursos são, de alguma forma, aproveitados? São endereçados para algum organismo, são publicados...? Eu posso falar do Porto, que é da realidade que estou mais próximo: nós fazemos duas paragens. Primeiro para-se para ser lido o manifesto, onde estão várias questões: desde o trabalho, à saúde, educação... depende muito das pessoas da organização e dos inputs que vão chegando, de forma a fazer um documento o mais global possível. Depois, quando termina a Marcha, as entidades organizadoras têm, cada uma, 2 minutos para discursar. Muitas vezes há individualidades de partidos políticos, há investigadores, etc, que estão presentes para perceber quais são as carências das minorias que estão representadas na marcha - porque não são só LGBT's. Há professores que no fim vão ter com as organizações para pedir colaborações em algum projeto educacional. E depois, claro, há as próprias associações que aproveitam o momento para trocar ideias. Ou seja, o trabalho não acaba ali e ninguém trabalha para ter a Marcha. A Marcha é apenas... o dia de aniversário.

Quais são os principais entraves, em Portugal, para a visibilidade do Movimento LGBT? O que dificulta o alcance de maiores e melhores resultados? Falta de dinheiro, mas principalmente falta de vontade e consciência. Mas não é do Movimento! A não ser que conheças alguém do meio, é muito difícil, por exemplo, ter uma intervenção televisiva. É muito difícil, a uma associação, ir a uma escola. Há muitas em que não deixam entrar. Houve casos em que alunos queriam organizar palestras, debates, e a direção não permitiu. Eu tive situações caricatas em que os alunos, não podendo realizar a ação na escola, foram para o café em frente. Eu falo por mim: quando eu faço uma palestra não falo de homossexualidade, falo de civismo, do respeito pelo outro. Aliás, detesto falar de homossexualidade.

Porquê? Porque ao especificar dá a sensação que é especial, torna-se o bobo da festa. Eu não sou especial. Sou uma pessoa como outra qualquer, pago impostos e cumpro com os meus deveres. Com quem me deito é um pormenor.

Mas ainda existem muitos mitos ... Muitos! Por exemplo, os bissexuais são aqueles que têm uma mulher e um homem ao mesmo tempo. São muito promíscuos. Normalmente é isso que as pessoas pensam. Também é essa a noção que as pessoas têm dos homossexuais: que são promíscuos. E talvez já o tenham sido. Esta é a interpretação que eu faço: penso que hoje o são muito menos do que eram, por exemplo, antes da aprovação da Lei do Casamento, antes de haver Marchas LGBT, antes dos meios de comunicação social começarem a falar sobre homossexualidade. Antes, ao verem-te sempre com o mesmo homem, as pessoas começavam a desconfiar. Se fosse sempre um "amigo" diferente já dava para disfarçar: era um amigo. Não estou a querer generalizar, mas para algumas pessoas seria muito difícil estar sempre com a mesma pessoa. Seria mais fácil tu ires a um ponto de encontro, satisfazeres a tua necessidade de sexo, e ires-te embora. E ficava tudo muito bem, ninguém desconfia de nada. Hoje, talvez porque se fala mais do assunto, porque já não é tão incomum, já se vive melhor. A consciencialização de liberdade e de autodeterminação de identidade enquanto pessoa mudou. Mudou porque se começou a falar das coisas. Quanto mais se falar, menos mitos vão haver e as pessoas viverão mais felizes e tranquilas. Ganhamos todos. Conviver com alguém que tem de reprimir continuamente a orientação sexual não é fácil. Porque essa pessoa vai estar em constante pressão, vai ter uma série de atitudes meio parvas para que não percebas uma quantidade de coisas. Eu falo da minha experiência pessoal: nunca escondi dos meus colegas de trabalho que sou homossexual. Mas tens de medir os riscos, obviamente. Por exemplo: dependendo do ambiente familiar, eu não aconselho nenhum jovem, que esteja dependente dos pais, a chegar a casa e dizer "pai, mãe: eu sou gay". Porque o que vai acontecer é que provavelmente um dos pais, ou os dois, não vão achar piada nenhuma e o jovem poderá acabar por ser castigado ou colocado fora de casa. De repente tens alguém que, dependendo da personalidade estar mais ou menos construída, ser mais ou menos frágil, vai ter uma postura de rebelião e vai ser uma bicha maluca, ou vai ser um indivíduo que não vai tolerar nada e vai andar à pancada com toda a gente, ou um indivíduo completamente deprimido que se vai matar na primeira oportunidade. Podemos evitar tudo isso se houver educação sexual nas escolas. Podemos evitar tudo isso se as pessoas se consciencializarem que a diferença não é um problema, é uma mais-valia. O preconceito é uma merda! Não faz ninguém feliz: nem o preconceituoso nem o "preconceituado".

7b1683ac2603a91b0e1923cb95722fed_large.jpg por Randall Kirby. Fonte: projeto Anything That Loves: Comics Beyond "Gay" and "Straight" Também há muito trabalho a para fazer dentro da própria comunidade LGBT... o que está a ser feito? É o velho ditado "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". É um trabalho que nunca para. São palestras, reuniões, debates, é o trabalho do PortugalGay, é o trabalho de outras associações. É um trabalho contínuo, porque somos o produto daquilo que as pessoas que nos são próximas nos ensinam, somos o produto da sociedade em que vivemos, e portanto trazemos parte dos preconceitos da família, parte dos preconceitos sociais. Ou temos capacidade de crivar o preconceito e fazer a nossa personalidade mais construtiva, aberta, consciente de que somos todos diferentes, ou então damos continuidade a algumas ideias, aos preconceitos.

As conferências, as Marchas, todos esses momentos... apesar de estarem abertos a toda a população ainda têm um público reduzido. Em Lisboa e no Porto, quando há conferências ou outros momentos, as pessoas vão. Mas vão principalmente pessoas do meio académico. O cidadão comum não vai. Voltamos à questão que falámos no início: "isto é um problema dos outros, não é meu". Enquanto as pessoas continuarem a pensar que são "os outros", e que "os outros" não têm nada a ver com eles, nunca se vai fazer coisa nenhuma sobre nada.

Os órgãos de comunicação social também têm um importante papel em toda esta situação. Nesse meio, o modo como se trabalha o assunto tem vindo a ser melhorado? Sim, muito. Hoje já se trata o assunto com alguma naturalidade, sem tanto sensacionalismo. Essa evolução também está relacionada com muito do trabalho de bastidores que associações e indivíduos fizeram, e fazem, ao denunciarem situações que eram tratadas de forma errada. Ainda há aspetos a melhorar, claro, mas hoje esse aspeto está muito melhor.

E em relação ao futuro? Espera-se que as novas gerações, com mais acesso a informação, tenham uma maior abertura e aceitação do outro? A questão é que não há muita juventude [em Portugal], o grosso da população são os idosos, e essa faixa populacional é que é preciso trabalhar. Ainda há muitos jovens com preconceitos e por isso também fazemos trabalho nas escolas, mas em termos de percentagem é menos do que os pais e os avós, que estão carregados de pseudo-tradicionailismos, que pensam que tudo e mais alguma coisa é demasiado, mas esquecem-se que iam às putas quando eram novos e deixavam a mulher em casa. Isso não interessa, mas dois homens aos beijos é complicado.


Rui Caeiro

Sonha (atenção ao clichê!) ser dono de um corpo escultural dando apenas ao dente. De resto, procura histórias/estórias. Quem as possuir pode entrar em contacto. Quem não possuir também pode, mas tem de enviar qualquer coisa que se trinque.
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