Rui Caeiro

Sonha (atenção ao clichê!) ser dono de um corpo escultural dando apenas ao dente. De resto, procura histórias/estórias. Quem as possuir pode entrar em contacto. Quem não possuir também pode, mas tem de enviar qualquer coisa que se trinque

Morrer ou voltar a Viver

"Não somos pessoas felizes o tempo todo. Às vezes as coisas são realmente más, e parece que nunca vamos sair dessas situações ruins, mas normalmente acabamos por dar a volta." Dese'Rae L. Stage, norte-americana, deu a volta em 2004, quando se tentou suicidar, sem sucesso. Hoje percorre o país para conhecer outros sobreviventes, que dão a cara e contam a sua história.


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Sara Mallory tem 42 anos, é mãe de 4 filhos, e tentou suicidar-se 5 vezes. Na última tentativa foi encontrada inconsciente pela filha mais velha. Hoje agradece por isso, mas ainda há dias em que se pergunta "Porque estou aqui? Porque tenho de fazer isto?". Com um histórico de depressão, assume-se como uma pessoa independente, uma mãe-faz-tudo, e, quando foi preciso pedir ajuda, não soube como. O orgulho que a impedia de o fazer teve de ser posto de parte, caso contrário morreria. Passar de um dia bom para um dia muito mau ainda acontece e é nessas alturas que magoar-se a si própria é muito fácil.

"I’ve learned that those bad days pass, so I feel what I have to feel. I cry if I have to. I yell at the wall. I write on my wall with a Sharpie to just remind myself, and you know, I do isolate on those days, but it’s not a bad isolation. It’s more of like an isolation of, ‘I just need space. Let me have my space. Let me cope and deal with this and then tomorrow will be a different day,’ and it always is. I kind of feel like if just one person hears me say that that day will pass, it will pass, and the next day is better. If just one person hears that, that’s all that matters."

sara mallory_42yo.jpg Sara Mallory

Este é um excerto da uma das dezenas de histórias que Dese'Rae L. Stage tem vindo a recolher pelos EUA, com o projeto Live Through This.

Recolher histórias de pessoas que tentaram o suicídio mas sobreviveram, e no fim fazer um retrato, é o centro do projeto, que vai para além disso. O objetivo é humanizar um tema sobre o qual gravitam muitos preconceitos. O objetivo é criar um espaço seguro, onde pessoas que procuraram a morte possam falar abertamente, na primeira pessoa, sobre as experiências por que passaram e, em alguns acasos, continuam a passar. Des falou ao Obvious sobre o projeto, sobre o seu percurso e, claro, sobre a sua própria história.

nik_for_ltt.jpg Nicole

É difícil fazer com que falem abertamente contigo? Não, mas penso que tem muito a ver com o fato de saberem quem eu passei por algo semelhante. Não quer dizer que haja uma espécie de camaradagem, mas há um sentimento de compreensão mútuo. As entrevistas são feitas de forma muito informal. Começo por perguntar a idade, nome e profissão. Depois contam a sua história, conforme se sintam à vontade. No fim faço algumas perguntas. Pode-se dizer que é mais como uma conversa.

Qual é a parte mais difícil desse processo? É ouvir tão detalhadamente a dor por que passaram. Transportam-me para os momentos mais negros das suas vidas. É impossível não sentir dor ao ouvi-los. No que diz respeito ao retrato, é sempre difícil expores-te de forma tão direta. Estar sozinho diante de uma lente é sempre complicado, principalmente porque o resultado é subjetivo. A imagem pode passar diferentes impressões, consoante a pessoa que observa. É de certa forma um risco, e imagino que ainda exija mais coragem depois de mostrares a alma a alguém de forma tão crua, depois de reviveres experiencias tão fortes.

joeyolzsa_for_ltt.jpg Joey

Pensas que é preciso falar mais sobre o tema nos meios de comunicação social, na comunidade? Sim, e deve falar-se abertamente, para todos, não para um grupo especifico que seja mais suscetível de passar por isso, como por exemplo aqueles que são alvo de bullying. Isso não está a ser feito, por enquanto, devido à vergonha, ao preconceito. Do ponto de vista religioso, suicídio é considerado um pecado. É um tema que muita gente teme e não compreende. Depois, também é difícil alguém colocar-se na pele de uma pessoa que sente tanta dor ao ponto de querer morrer. Há alguma falta de compaixão. Eu até compreendo que muita gente não queira falar do assunto, mas a verdade é que todos os dias há pessoas a suicidarem-se. Algumas dessas pessoas podem/devem ser ajudadas. O meu desejo é puder contribuir para essa ajuda. Se suspeitar que alguém próximo tem pensamentos suicidas, o que devo fazer? Não tenhas medo de perguntar. Sê direto, aberto, não julgues e tenta ajudar. Diz a essa pessoa o quanto significa para ti e, acima de tudo, ouve. Muitas vezes, só o fato da pessoa poder falar abertamente sobre o que sente e o que pensa fazer, contribui para reduzir o risco. Procura ajuda profissional. Se perceberes que o risco é baixo, faz com quem te prometa que não vai magoar-se, nem a si nem outras pessoas. Se o risco for elevado, não a deixes sozinha.

frankiebarretto_for_ltt.jpg Frankie

Fala-nos da tua história...

Aqueles que sofrem de transtorno bipolar têm um risco particularmente elevado de desenvolver pensametos suicidas. O risco torna-se ainda maior se tiveres um membro da família ou um amigo que tenha tentado, ou conseguido, suicidar-se. Se estiveres a passar pelo fim de uma relação, pior. Eu tinha todas essas condicionantes. Na altura estava num relacionamento nada saudável. Parecia que não conseguiria viver, nem com ele nem sem ele. Queria morrer. Então tentei que isso acontecesse.

Porque é que te começaste a automutilar? Porquê? Eu tinha 14 ou 15 anos, numa fase em que estava a descobrir que era gay, sentia-me excluída, tinha problemas familiares... sentia-me sozinha. Quando estou chateada, sinto uma pressão terrível no peito. Acho que descobri que ao me magoar fisicamente essa pressão diminuía.

dls_for_ltt.jpg Dese'Rae L. Stage

O que te conduziu a essa relação amorosa conturbada e porque ficaste nela durante tanto tempo? Simples: apaixonei-me. Ela era incrivelmente inteligente, uma escritora talentosa e tinha um excelente sentido de humor. Acontece que também era manipuladora e cruel. Fiquei porque a amava. Eu era jovem e tive que aprender que o amor não é tudo, especialmente quando é destrutivo. É algo difícil de aceitar.

Porquê o suicídio? Porque me sentia perdida, sem esperança. A depressão tem esse efeito de "visão-túnel" sobre as pessoas: quando tudo o que sentes é dor, é difícil ver de fora. É difícil acreditar que isso irá diminuir.

Antes de o fazer, pensaste nas pessoas que te amam? Há quem diga que o suicídio é um ato egoísta... Eu pensava que ninguém me amava o suficiente para se importar se eu estava viva ou morta. Outro efeito colateral da depressão: a falta de autoestima. Não foi sobre egoísmo, foi sobre fazer parar a dor. Ainda hoje não sei como responder a essa pergunta. Às vezes parece que as pessoas que dizem que é um ato egoísta, elas sim é que o são. Ficam em sofrimento por causa da perda, mas não conseguem por em perspetiva o tipo de dor que uma pessoa experimentou para acabar com a própria vida. É um ciclo vicioso.

Depois de tentares o suicídio, e de teres sobrevivido, o que te fez levantar e continuar, voltar a querer viver? A experiência de ter paramédicos e polícias quase a rebentar a porta de casa para me socorrerem foi aterrorizante. A viagem na ambulância foi aterrorizante. O hospital foi aterrorizante. Ser tratada como uma leprosa foi aterrorizante. No hospital foi-me dada uma vacina antitétano. Eu disse à enfermeira que tinha pavor de agulhas, mas mesmo assim, quando estava a recolher o sangue para análise, colocou o material em cima do meu estômago. Essa experiencia... aterrorizante. Decidi que tinha de encontrar um caminho para fora da situação em que estava. Fiz a promessa a mim mesma de não me voltar a magoar. Deixei a relação amorosa em que estava, demiti-me do meu emprego, e abandonei a cidade uma semana depois.

Como olhas para o futuro, tendo em conta o teu passado? Não tenho medo do futuro. Já tive tantas experiências incríveis, que não teria tido se tivesse morrido em 2006... contudo às vezes ainda luto contra pensamentos suicidas. Quando passo por um período particularmente baixo, aparece o medo. O transtorno bipolar vai acompanhar-me toda a vida, e um dia poderei ir abaixo, mas tento não me focar nisso.. E agora tenho um sistema de apoio para me ajudar.

É fácil falar sobre este assunto, sobre a tua experiencia? As pessoas estão dispostas a ouvir, a ouvir de verdade? Para mim é fácil, mas para a generalidade das pessoas não. Há muita ignorância relacionada com as doenças mentais. Eu penso que falar abertamente sobre isso pode ajudar. É um tema pesado, claro, mas não tem de o ser - há tanta gente que tentou faze-lo e hoje se sente abençoada por não ter resultado... Ouvir isso é bom, mas é igualmente importante falar sobre os aspetos mais negros. Estas experiencias unem-nos. Ser capaz de dizer "eu também já passei por isso e estou aqui" pode salvar vidas. Eu acredito nisso. elsa_sjunesson-henry_for_ltt.jpg


Rui Caeiro

Sonha (atenção ao clichê!) ser dono de um corpo escultural dando apenas ao dente. De resto, procura histórias/estórias. Quem as possuir pode entrar em contacto. Quem não possuir também pode, mas tem de enviar qualquer coisa que se trinque.
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