atualidades

Pensamentos críticos diante daquilo que acompanha o momento presente.

Anna Claudia Rodrigues

Uma pisciana que de tanto amar, morreu. Estudante de filosofia. Atriz que vive da dor, e sonha em ser uma folhinha de grama no alto de uma montanha inexplorada.

ALMA, O MOVIMENTO DO ESPÍRITO

"Os anos pareciam passar como um barco negro nas tormentas de um mar fugaz e feroz, mas aquele toque de carinho e cuidado era o mesmo, dentro de todas as qualidades sensíveis. Envelhecer não era um pesadelo. Não havia uma luta inútil ou patética pela juventude eterna".


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Depois de celebrar centenas de primaveras, a realidade já não é a mesma. O princípio de tudo, sede dos pensamentos e dos sentimentos cessa definitivamente a vida. O corpo enrijece, e a necessidade do outro é arduamente delegada. Nos olhos, o mesmo brilho da juventude, o mesmo anseio por descobertas, a mesma alegria em olhar para o céu, assim como pratica o seu exercício de alteridade.

As poéticas balbuciadas dos lábios, são os sonetos das tardes de café, são as estórias contadas como se fossem segredos. Sussurradas em meio a tons, quase que indecifráveis. Assim nasce um conto dos causos dos meus avós, que por imaginário, por sonhos e por fatos, teciam a noite e desbravavam madrugadas.

Eram viagens por além tempo, com pausas eternas, palavras com significados próprios e muita, muita alegria para com o outro. Humanos que por excesso de afeto, recebiam em troca o amor. Humanos que de tanto voar, se transformaram em pássaros, e vivem a cantarola melodias, nas tardes em que as árvores chacoalham.

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Os anos pareciam passar como um barco negro nas tormentas de um mar fugaz e feroz, mas aquele toque de carinho e cuidado era o mesmo, dentro de todas as qualidades sensíveis. Envelhecer não era um pesadelo. Não havia uma luta inútil ou patética pela juventude eterna. Vomitávamos, devaneávamos e filosofávamos sobre o fato de envelhecer com gosto, sobre as percepções do enfraquecimento, das capacidades físicas e motoras cuja idade revelava.

Era notável que as lágrimas naquelas feições maduras, se deleitavam com mais facilidade, que o medo do desapego era mais claro, e todo aquele desejo de liberdade na verdade, se resumia na “vontade de mundo”, e no não medo da morte...

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... Sim, os medos fazem parte da vida, está dentro de cada um de nós. Mas a alegria faz com que esses medos se esvaem, pois a felicidade é a criptônima desse mal, com o qual estamos em contínuo combate!

Lembrar-te-ei de vós, sonhando com uma idade de ouro, das caretas que fazia para não deixá-los, da crença, da fé que benzia e curava. Das broncas, dos conselhos, dos ensinamentos... enfim, a espécie humana teria escapado à morte, e os deuses suporiam que a vida seria então um eterno retorno da velhice à infância.

E depois de perder os sentidos por algumas longas horas eles voltavam a serem crianças de sete anos de idade, como uma estranha fruta inerente ao processo da vida, do mesmo modo que o nascimento, o crescimento, e a reprodução.

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Anna Claudia Rodrigues

Uma pisciana que de tanto amar, morreu. Estudante de filosofia. Atriz que vive da dor, e sonha em ser uma folhinha de grama no alto de uma montanha inexplorada. .
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