Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

O bom jogo dos relacionamentos

Assunto dos mais democráticos que existe, os “relacionamentos” tomam grande parte das conversas entre amigos, sendo as experiências tão diferentes quanto os DNA(s), cada um tem sua tese sobre flertes, conquistas, namoros e amores. A melhor maneira de ajudarmos outras pessoas sobre isso é entendendo e decifrando nossas próprias relações e histórias.


romance de miriam postal.jpg Romance - de Miriam Postal

No lindo e clássico livro “A insustentável leveza do ser” publicado em 1984, Milan Kundera diz que:

"O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher)."

Bom, até chegar à fase de desejar dividir o sono com alguém se vive um processo.

O romance que se dá nessa etapa é encarado por muitos como a cereja do bolo e a arte também trata dele, as pinturas que acompanham o texto são alguns exemplos.

o namoro de adrien moreau.jpg Namoro - de Adrien Moreau

O tema é fecundo, cabe de achismos primários até análises de comportamento da psicologia. Como os casos são infinitos e significativamente distintos não há possibilidade de se entender todos os aspectos de um relacionamento, entretanto, creio (ingenuamente) que existem recorrências e sensações particulares que nos auxiliam a compreender algumas coisas.

Importante reiterar, o autoconhecimento, pensar em como nos comportamos em relacionamentos e quais efeitos nossa postura produz é o que nos dá subsídios para auxiliar os amigos. Porque aqui vale aquela máxima da educação infantil, exemplos são mais eficientes do que teorias transmitidas.

o flerte por Georges Croegaert.JPG O flerte - por Georges Croegaert

Falar de física quântica ou astronomia seria bem mais simples, mas já que começamos...vamos nos divertir, é esse o objetivo do texto.

1- As relações são um jogo, fundamentalmente no início, dizer que não está jogando é uma jogada. Ser um jogo não quer dizer que seja algo leviano, passível de trapaça, não confundamos as coisas. Falo aqui de um jogo de sedução, de descoberta, inteligência, adivinhação, flexibilização do orgulho e autoconhecimento. Esse jogo pode se tornar algo horrível se mal encaminhado e as relações doentias e violentas estão aí para provar isso.

2- Sempre chegará um momento que, claramente, um vai querer mais do que o outro; é muito bom que isso ocorra quando a relação ainda está em estágio de estudo e não com compromisso selado, para se ter claro os prognósticos de possibilidades de uma relação futura saudável.

Mesmo que as pessoas saibam que as chances de dar certo são pequenas, por vezes, elas agridem a racionalidade e investem com tudo. Um dia você será a caça e outro o caçador e o modo como se reage nesses papéis deve ser diferente.

romance de eugene de blass.jpg Romance - de Eugene de Blass

3- Todo mundo mente e isso não é um problema, creio que o desafio da maturidade é não mentir sobre o que é fundamental na relação e nem sobre algo que possa fazer literalmente mal a saúde da outra pessoa. E isso não se refere ao universo da fidelidade ou ao moralismo das aparências, mas sim ao processo de construção do jogo, que trata do potencial das pessoas se fazerem melhores por se relacionarem.

Falo aqui do que Gárcia Máquez aponta na frase: "gosto de você não por quem você é, mas por quem sou quando estou contigo."

4- Há saudades eternas, entenda e aceite. Fácil né? O tempo tende a preservar as coisas boas das grandes relações, logo a falta que as coisas boas fazem é forte e deve ser encarada como capítulo nobre que não seria escrito sem a relação. Ver a saudade com orgulho é um modo de tirar o aspecto fúnebre que ela pode ganhar conforme for seu estado emocional. Saudade é uma palavra parecida com saúde, devemos senti-la do melhor modo possível.

eugene.jpg Eugene de Blass

5- As pessoas interessadas umas nas outras não necessariamente querem se ver todos os dias ou todas as semanas. Os sujeitos são diferentes e, portanto, o modo de estar "a fim" é único pra cada um. Muitas vezes o jeito de ser, de se comunicar ou de lidar com algumas situações é tido como sinônimo de desinteresse ou até indiferença pelo outro. Nem sempre, certo?

Se a pessoa não ligar, não der um sinal cotidiano, nem sempre quer dizer falta total de interesse, “nem sempre”, como o Rodrigo Amarante do Los Hermanos repete muitas vezes nesta hilária entrevista.

O mesmo Kundera no livro citado sentencia “são precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras da nossa existência”.

Tempestade de Paixão 1.jpg pintura da artista argentina Gloria Marino

As relações amorosas, seus estágios e características formulam perguntas que não encontram respostas, o que temos são aproximações e, em geral, elas são descobertas individuais. Nunca saberemos com antecedência se tomamos a decisão certa, na vida não há ensaio, mas aprendizados.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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