Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

O mundo ainda é cruel com as mulheres

Nos recentes 70 anos, as mulheres conquistaram mais direitos e espaços do que nos últimos 300, hoje administram suas vidas privadas de um modo mais soberano. Entretanto, no jogo das relações amorosas, as mulheres ainda são penalizadas e o machismo tem tudo a ver com isso.


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O conteúdo do texto é de impressões, provocações e indagações. Ciente de que as exceções existem sempre, trago opiniões que não pretendem traduzir realidades particulares.

As mulheres têm na conquista do direito ao erotismo e na liberdade sexual marcas do nosso tempo, embora essa liberdade ainda não seja tão aceita quanto a masculina. Todavia, são recorrentes nas redes sociais, em conversas de bar e divãs familiares, constatações de que as mulheres têm encontrado dificuldades para conseguir namorados, companheiros para dividir a vida.

Os homens permaneceriam em situação privilegiada, principalmente por se adaptarem melhor a relacionamentos abertos e esporádicos, isto é, não aparentarem necessidade de namorar.

01.jpg Projeto Beleza Real [1]

Não sei até que ponto isso procede estatisticamente, mas creio que há coisas aí que merecem atenção. Importante dizer de antemão que não estou afirmando, em absoluto, que todas as mulheres estão buscando se relacionar ou com dificuldade para encontrar parceiros duradouros. Saliento também que textos com esse perfil exigem certo exercício de generalização.

Os homens, em um primeiro momento, querem uma mulher bonita de rosto e de corpo, como sugere o padrão. Mas também buscam uma mulher inteligente, delicada, informada, socialmente envolvida e etc. Lógico que as mulheres também querem homens com essas características, todavia, diante das diferentes condições de gênero e distintas aspirações para namorar, elas estão mais sujeitas a investir em casos furados do que eles. Será?

Homens demoram mais para decidir se relacionar? Mulheres gostam de se apresentar socialmente em um relacionamento mais que os homens? Mulheres passam por frustrações amorosas (de ser deixada ou deixar alguém) mais que homens? Será? Ou elas falam mais disso entre amigas/os do que eles, e por isso se tem essa sensação?

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Vamos supor que as respostas para as perguntas acima sejam positivas.

Os papéis dos sexos estão dispostos em uma sociedade desigual em termos de gênero, para que elas consigam um homem “bem-sucedido”, elas têm de estar belas de corpo, bem de mente, serem interessantes e confiáveis, mas, surpreendam-se, não necessariamente precisam ser “bem-sucedidas”.

O homem “bem-sucedido”, na atual sociedade, não tem a metade das qualidades exigidas de uma mulher para um relacionamento e ainda teme mulheres independentes.

É claro que estou criticando esse perfil de “bem-sucedido” que, em geral, é sinônimo de ser rico, por vezes conservador, um tanto alienado socialmente e especialista em algum tipo de negócio.

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O grande problema é que um homem bacana, seja lá o que isso signifique para cada mulher, também exige aquelas características (bonita, gostosa, inteligente e politizada) para se relacionar, e o machismo tem responsabilidade sobre essa lógica.

O homem bacana tem, quase sempre, os mesmos critérios de exigência para se relacionar que um homem detestável, isso infelizmente é um tanto padronizado.

Caso esse homem bacana não encontre seu perfil de mulher desejado, ele não namora e segue se divertindo. Caso as mulheres não encontrem seu perfil desejado de homem, em muitos casos, namoram pessoas com outro perfil, por inúmeras razões, como a pressão social, baixa auto-estima e idade.

Ratificando que esse é um exercício metafórico de generalização.

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A "necessidade" feminina de ter alguém para mostrar às amigas e para família é construída historicamente, a mulher ainda nasce em um mundo machista em que a "felicidade" é relacionada a casar e ter filhos, em que a mulher solteirona é tida como infeliz e derrotada.

Diferente do homem solteiro, que é encarado como “moderno”. É claro que ter alguém para dividir a vida é ótimo e significa ser feliz, mas não a qualquer preço.

Mulheres podem querer se tornar "interessantes", infelizmente, para acatar exigências de uma sociedade com relações de gênero assimétricas, essa é a vida real. Elas sofrem tentando se adaptar a um conjunto de critérios sociais e padrões estéticos.

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Porém, quanto mais as mulheres conseguirem identificar o que é construído socialmente e fruto do machismo, elas poderão ter mais paciência para escolher suas relações, saberão quais características nos homens combinam com elas e quais representariam “forçar a barra”.

Cuidar do corpo, cuidar da mente, ler, aprender sobre diversos assuntos, viajar, ser polida/o, educada/o são atitudes que não devem ser tomadas para conseguir um namorado/a, pelo contrário, é no processo eterno de desenvolver essas atitudes para si que irá se conhecer alguém que vale a pena ficar junto.

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Ser interessante é algo amplo, depende para quem, por isso é importante se tornar interessante para si. Os homens também querem namorar e casar, só estão confortáveis em um universo que exige maior adequação das mulheres do que deles.

Vive-se uma realidade em que seus amigos lhe cobram a "solteirice", mesmo quando eles namoram, e em que elas são cobradas para ter alguém, para casar, heranças patriarcais vivas.

Estamos em uma sociedade em que a fulana é mulher do ciclano e não o contrário, em que a lógica da mulher como propriedade, ainda que problematizada pelos movimentos feministas, persiste. Haja vista, os dados da violência doméstica crescente contra a mulher, em geral, agressões protagonizadas pelos seus companheiros[2].

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Namorar envolve elementos que transcendem uma “boa aparência”, essa é a riqueza e a complexidade de se relacionar. Há de se representar para o outro um acréscimo, ser visto/a como alguém necessário para a vida do outro, o que é bem diferente da sociedade e sua moralidade exigir que se tenha alguém só por ter.

Creio que não é adequado pensar em “conseguir” alguém, mas sim pensar em se encontrar com alguém, conhecer, conviver pouco, conviver mais, avaliar esse convívio e diagnosticar se a relação representa soma.

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“Falar é fácil”, eu sei, mas o faço em tom de “pensar sobre”, já que esse tema é infinito, complexo e guarda as surpresas mais interessantes e inimagináveis.

[1] Com exceção da primeira, as ilustrações dessa postagem fazem parte do "Projeto Beleza Real" da artista Evelyn Negahamburguer, conheça seu blog aqui.

[2] Dobra o Número de Homicídios de Mulheres no Brasil nos Últimos 30 Anos


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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