Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Zoé

Zoé era só lágrimas. Estava experimentando o sofrimento de ser deixada por alguém que dizia lhe amar, isso aguçava a dor, a tornava incompreensível.


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Quem abandona o outro por amor? A casa de Zoé alagou com um caldo cuja mistura tinha mágoa, raiva, desejo, medo, paixão e saudade. Na catarse, ela tinha dificuldade de ler qual o ingrediente se destacava, qual era o sabor final de quando se afogava.

Todo fim, mesmo não sendo o fim, tem um que de trágico, de catastrófico e de cômico. Zoé queria colocar em suspensão o coração, distraí-lo como as mães fazem quando as crianças se machucam.

Essa era uma tarefa árdua, tendo em vista que em qualquer movimento que Zoé fazia pela casa, via um presente que ganhou, esbarrava com uma compra em comum, sentia um cheiro dividido, ouvia um som que a fazia lembrar.

É impossível fugir dessa fase, os livros lidos juntos, as viagens, as brigas, as palavras que tinham sentido específico só para o casal, tudo parecia formar aqueles clipes bonitinhos com músicas da internet na cabeça de Zoé.

Ela temia perder as energias para continuar seus afazeres profissionais, mesmo sabendo que os seres humanos passam por momentos como esse, tinha receio de não encontrar ninguém que a confortasse tanto quanto aquela pessoa.

Pensou em se mudar, rever suas amizades, dar uma radicalizada no visual. Momentos como esses, que deveriam ser só para analisar a relação afetiva, ganham proporção de avaliação existencial.

O amor é como o tempo, que é controlado e organizado, mas também é incomensurável e inexorável. Faz nada virar tudo e tudo se fazer nada.

Zoé tinha planos, e se assustava com a ideia de reformulá-los, sentia que faltava um pedaço. Ligou para um amigo que repetia:

- isso acontece, vai passar, como tudo.

É verdade, mas como é fácil dizer isso de fora, sem sentir. Nessa hora, Zoé queria entender o porquê, já que nada justificava ela ter sido abandonada por quem a amava, por quem lhe fazia tão bem e vice-versa.

A noite ganhava corpo e a casa de Zoé gelava, mais calma e quase sonâmbula ela ouve o barulho da chave abrindo a porta.

De olhos fechados e coberta com a manta do casal no escuro da sala, Zoé escuta a voz embargada dizer:

- eu errei, fui embora de medo de tanto gostar, mas bastou pouco tempo pra perceber que não vivo sem ti.

Leila voltara!


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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