Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Inocência

A água do canto das ruas estava quase na altura do cordão da calçada e em algumas partes passava disso, chovia fraco, mas constantemente naquele fim de tarde de sexta-feira.


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O frio parecia aumentar no galope do ponteiro dos segundos, com pouca roupa, pois saíra de manhã, Alfredo caminhava a passos largos para chegar na última aula do seu quinto semestre de letras.

Havia uma convidada na sala, a professora estava recebendo Lindria, uma jovem escritora chilena. De voz fina, cabelos curtos e rasteiras que não salientavam a sua estatura alta para padrões femininos, Lindria viera falar sobre seu primeiro livro, um romance intitulado "Inocência".

O cansaço de Alfredo era visível, mas com o passar do tempo ele se interessou, não pela palestra nem pelo romance, que nas primeiras frases da autora já julgara mais uma auto ajuda, se interessou pela moça, pela pele, o espanhol cantado, o cabelo.

Alfredo morava em uma pensão chamada "Palco" que costumava receber estrangeiros, os donos desse singular lugar gostavam de fazer papel de guias turísticos com seus hóspedes. Já imaginaram o rumo da prosa?

Lindria no final de sua explanação perguntou se alguém conhecia um lugar com as características do caracterizado acima, com o perdão da redundância. Alfredo, que era de titubear, dessa vez não o fez e tratou de indicar a "Palco" e se oferecer para acompanhá-la se fosse o caso.

Pela falta de opções e pela indelicadeza da professora que não lhe ofertara um quarto a escritora aceitou a dica do molhado Alfredo. Ela tinha 32 anos e ele 25 recém feitos, jantaram um prato feito nada glamuroso, conversaram sobre as línguas, a literatura latina e se conheceram minimante.

Alfredo percebeu um cacoete no nariz dela e Lindria se mantinha clássica a ponto de ser difícil 'ouvir' o que suas expressões 'cantavam'. Chegaram na pensão, seu Lauro, o dono do lugar, estava quase pegando no sono quando Alfredo apresentou a moça de sotaque castelhano.

Ela escolheu um quarto e se recolheu, ele contrariado fez o mesmo. Ao dar boa noite para o menino, Lindria agradece e lhe diz que qualquer coisa estaria lendo no quarto 303, Alfredo gaguejou um pouco e lhe devolveu as gentilezas.

Deitado de pijama ele começou a pensar se as últimas palavras da chilena poderiam representar algo, um convite talvez? Será que ela queria alguma continuidade na conversa?

Apesar de cansado, o sono não passava nem perto da cama de Alfredo, ele pensou um tempo, engendrou outro bocado e se decidiu, tomou seu remédio para esses momentos e em menos de cinco minutos dormiu.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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