Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Porta dos fundos e a religião

Em meio às polêmicas envolvendo entidades cristãs, religiosos e o grupo de humor “Porta dos Fundos” uma questão importante vem à tona, há de se respeitar as pessoas ou os dogmas?


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Quando se lê notícias de que organizações religiosas pensam em processar humoristas por eles supostamente terem desrespeitado suas crenças, ou que lideranças católicas criticam os esquetes cômicos, temos um bom motivo para pensar em que tempo e sociedade estamos.

A ironia e a comédia são recursos pedagógicos dos mais antigos, foram e são usados para expor determinados costumes, cujas justificativas para continuarem a vigorar, carecem de lógica. É exatamente o que ocorre nesse caso, a religião é um tema fértil para o humor porque se sustenta em crenças de difícil verificação quando contrastadas com a realidade.

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Em um mundo cada vez mais dependente da técnica e da ciência, a mitologia que dá corpo as religiões dificilmente passa por um filtro racional mais pormenorizado. Para que tenhamos nossa interpretação respeitada, seja na arte, na ciência ou na política, é necessário argumentos com aprofundamentos reconhecidos, entretanto, na religião não.

Há um dogma aceito socialmente de que tem de se respeitar a perspectiva religiosa somente por ela ser religiosa. Temos algo errado aqui. As pessoas precisam ser respeitadas, seus valores considerados, o que não quer dizer que eles não possam ser questionados ou objeto de humor.

Ao se brincar com crenças ou estórias não se está desrespeitando um ou outro indivíduo que nelas crê, mas as colocando em causa como ideologia que perpassa o imaginário coletivo, isto é, está se tratando de representações e não de sujeitos. Brincar com a origem, a cor da pele ou orientação sexual de alguém é atacar dignidades individuais, todavia, esse humor preconceituoso, tão comum, não causa desconforto a religiosos e suas instituições.

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Particularmente na história de Jesus como filho de Deus, que é o esqueleto da história cristã, há metáforas e afirmações que não podem ser levadas em conta como possibilidades reais. As crenças criacionistas e a mitologia de como surge o ser humano, essas se assim encaradas, são um desrespeito à inteligência das pessoas e em nosso tempo histórico já pode se dizer que são inaceitáveis, no mínimo.

Se temas como esses não podem ser pauta de comédia, quais poderiam? O fato de que a maioria das pessoas ainda seja mais influenciada por representações religiosas do que pelas científicas, não significa que as primeiras sejam verdadeiras e muito menos incontestáveis. Se crer em determinado mito faz bem a algumas pessoas, isso não faz com que o mito se torne realidade.

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Nossos dias não são medievais, tempo em que não se “brincava com o sagrado”, hoje esse sagrado se mantêm dogmático, também, porque poucos ousaram brincar com ele. Portador de conteúdo mais elaborado do que o normal, o grupo de humor em questão tem apenas aberto portas (algumas, dos fundos) para que se olhe de outra forma para os dogmas religiosos.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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