Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

O intrigante apoio à Marina

Intelectuais que respeito e admiro profundamente me intrigam ao apoiar Marina para presidência. Eles formam um coletivo próximo, ligados aos direitos humanos, com visão progressista sobre costumes, economia, papel do Estado e democracia. Me intriga no sentido de que o diagnóstico que fazem do governo petista, que é preciso e com o qual tenho grandes concordâncias, não combina com aceitar honestamente Marina como uma alternativa mais progressista ou de esquerda.


marina001.131901.jpg

Me intriga porque a capacidade ímpar que esses intelectuais tem de fazer a acurada análise do atual governo, não é a mesma usada para explicar sua "crença" em Marina como possibilidade. O que esse coletivo tem em comum, me parece, é que encontrou em Marina a chance de promover dois movimentos:

1- O primeiro é fazer o debate com a esquerda de oposição sem estar dentro dela, esses intelectuais admiram o PSOL, em alguma medida o PSTU e quadros do PCB, mas não vislumbram nesses partidos possibilidade de vitória eleitoral e não são adeptos a "radicalidade" e estrutura desses partidos. Encontram na personalidade e biografia de Marina uma pseudoneutralidade, lugar para falar com autoridade. Pessoalmente a pureza de Marina é usada como qualidade do projeto que ela representa, é claro que esses intelectuais, muito mais capazes que eu, sabem que a atual composição da candidatura de Marina não representa melhoria, pelo contrário, abre precedente para um governo de coalizão mais conservador com forte participação da direita e manutenção do "pemedebismo" (conceito cunhado por Marcos Nobre) como modus operandi na relação com o congresso.

2 - o segundo movimento, em alguma medida, explica a posição desses intelectuais. Esse grupo tem uma relação íntima de repulsa freudiana com o PT, fizeram parte do partido, do poder, da gestão em alguns casos e, em função das disputas internas, não conseguiram levar adiante seus projetos pessoais e de sociedade que são de vanguarda e relevantes. Então, legitimamente, buscam alternativas para voltar a dar sua contribuição na esfera estatal como promotor de políticas públicas e encontraram na relação pessoal com Marina uma via para efetivar esse objetivo.

Com um discurso muito bem costurado, esse grupo de intelectuais progressistas rebate as críticas à complicada filiação religiosa de Marina, com um malabarismo libertário e não questiona a gravidade das lacunas contidas em Marina quando do debate sobre a descriminalização do aborto, da regulamentação das drogas, a legalização do casamento homoafetivo que inclusive são bandeiras centrais desses intelectuais.

No que tange o debate econômico Marina também não se posiciona, como ficou claro no debate da Bandeirantes, sua tentativa de reconhecer medidas de governos neoliberais e petistas se configura em uma estratégia de marketing mais do que uma convicção. Há uma clara tentativa de construir um discurso conciliador genérico em busca de votos dos "equilibrados".

Visando passar uma imagem de futura estadista ponderada, roupagem palatável para a mídia, empresários e banqueiros, Marina fala em independência do Banco Central e governo dos bons, dos de bem, sem realmente romper com nenhum interesse dos setores hegemônicos. Essa não ruptura que é fortemente criticada por esses intelectuais, com razão, quando se trata do governo do PT.

Se Marcos Rolim, Luis Eduardo Soares, exemplos de intelectuais que estou me referindo, realmente vislumbram em Marina uma alternativa progressista para o Brasil, tenho bem mais divergências políticas com eles do que imaginava, isso me intriga porque os tenho como referência intelectual.

Com esse breve texto não pretendo fazer uma defesa do governo do PT, pelo contrário, penso que muito mais poderia ser feito, e que esses avanços não passam por Marina, o projeto que ela ora protagoniza representa um dificultador para essas conquistas.

As alternativas eleitoras são condicionadas pelas máquinas de financiamento privado de campanha, pelo desigual tempo de Tv, pela indústria das pesquisas, os candidatos que eu escolheria não estão na disputa. Entretanto, em um possível segundo turno, tenho clareza que a vitória de Dilma, dentro das possibilidades, é o melhor cenário.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Gregório Grisa