Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Perguntas necessárias nas eleições


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As eleições são ótimos momentos para nos fazermos algumas perguntas como cidadãos. Qual é o nosso entendimento sobre a representatividade política? Será que o modo como escolhemos nossos parlamentares e o motivo pelo qual os colocamos no legislativo é o mais adequado? Somos sérios ao aceitar que os candidatos tenham na busca de um mandato um projeto pessoal para ganhar um salário melhor ou para defender estritamente o seguimento que o financiou e o elegeu? Quando naturalizamos a compra de votos como prática histórica e normal, não estaríamos nós sendo cúmplices de uma lógica que leva as cadeiras das câmaras e assembleias legislativas pessoas que não terão posturas dignas de assegurar isonomia e o interesse público dos processos políticos?

É o nosso entendimento coletivo do que significa um vereador ou deputado que está enviesado, qual o papel de um agente público, qual as premissas e qualificações esse cidadão ou cidadã deve ter, são questões que não estamos respondendo bem, haja vista, o cenário atual. Será que ser uma pessoa simpática, ser um sujeito engraçado, famoso, ser um profissional atencioso, ter herança política de família, são características que credenciam alguém para ser um agente público que não vá legislar em causa própria e garantir que seu mandato será espaço para as reais demandas da população?

Qual o espaço que há nas casas legislativas para que os interesses da maioria da população seja debatido, que voz tem essa população dentro dessas casas? Há maturidade representativa quando as características mencionadas acima são as que determinam quais pessoas se elegerão? Como esperar dos políticos eleitos por essa lógica que eles garantam qualquer mudança nesse modo de fazer política? Como imaginar que esses senadores e deputados irão construir nas casas legislativas espaços para se desenvolver uma nova sociedade, sendo que é exatamente a não construção desses espaços que os mantem nos seus cargos?

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Qual a possibilidade de que haja mais oportunidades de escuta do povo e de que se trate com seriedade republicana os temas do país enquanto as eleições se pautarem por apadrinhamentos e troca de favores com financiadores? Pouco se analisa acerca do preparo, da lisura e do programa dos candidatos e sim o que se pode ganhar pessoalmente caso ele se eleja. Enquanto os interesses pessoais imediatos restritos a ganhos materiais ou simbólicos efêmeros conduzirem nosso jeito de estar no mundo, de votar e fazer escolhas não podemos querer cobrar dos parlamentares outra lógica ou postura.

Os momentos mais difíceis da vida são quando nossos interesses pessoais se confrontam com interesses maiores, da coletividade que vivemos. Creio que é um compromisso nosso pensar sobre essas questões para que no mínimo repensemos nosso proceder constantemente. A democracia representativa brasileira é muito frágil e incentiva através de suas dinâmicas a perpetuação no poder de grupos políticos que operam pela lógica que estou aqui criticando. Um legislador sério deveria ter como compromisso primeiro o de garantir em todas instâncias que as casas legislativas abram espaço para todas as pessoas, principalmente os trabalhadores e os mais vulneráveis socialmente.

Para que isso ocorra é importante que ele saiba ler quais são os interesses coletivos fundamentais e fazer com que essas demandas se materializem, mesmo que isso divirja por alguma razão de interesses pessoais que o cercam. O candidato que você vai votar tem esse compromisso, a maturidade e coragem para fazer essa leitura necessária da realidade?


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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