Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Postamos nossas incompletudes

As redes sociais matam saudades, reforçam amizades, mas também ampliam os horizontes de quem sabe usá-las de modo mais plural e menos íntimo. Por mais enfadonhas que sejam as postagens com conteúdo mais aprofundado, caso uma, entre centenas de pessoas, se sentir provocada ou sensibilizada, me sentirei satisfeito.


1082103866.jpeg French photographer Emmanuelle Brisson

A internet tem mudado a velocidade com que acessamos informação e emitimos opiniões de forma histórica e, pelo visto, sem volta. Outro dia ouvi que as postagens que faço são estranhas, entediosas e até certo ponto "pesadas" acho que no sentido de "densas".

Em conversa com professores em uma escola pública recentemente falei que ainda não temos clara noção do que significa nossas postagens nas redes sociais, elas podem ter uma relevância significativa ou não fazer diferença nenhuma, descobriremos isso em um futuro próximo.

Até lá decidi priorizar postagens que tenham relação com a vida pública, com a política, com a ciência, a economia. Essa escolha deixa de lado postagens de caráter mais pessoal, íntimo, ela não foi tomada de forma plenamente racionalizada, mas aconteceu assim. Não sou crítico de quem usa as redes apenas para temas privados, não vejo problema com isso, tenho receios sobre questões de privacidade, principalmente envolvendo criança, mas se tratado com bom senso é uma postura saudável.

1082103971.png French photographer Emmanuelle Brisson

Por outro lado, penso que tais ferramentas podem nos oferecer muito mais, podem nos oportunizar conteúdo que nos levem para além de nossa rotina particular, do nosso trabalho por vezes repetitivo e pouco inspirador.

Quando postamos algum texto, compartilhamos alguma reflexão, pesquisa, análise, pintura, documentário, estamos tentando fazer com que mais pessoas tenham acesso a algo que achamos interessante. Nem todo texto compartilhado representa exatamente o que pensamos, mas se ele provoca alguma reflexão, pondera uma crítica diferente ele merece ser lido. Acho positivo quando se experimenta algumas transições de conteúdo, é importante não reproduzir apenas as mesmas fontes e perspectivas.

Utilizamos a fim de formação pessoal e profissional a internet, mas de modo ainda modesto, as possibilidades são incríveis, todavia nos circunscrevemos em visitar perfis, cuidar o que estão fazendo algumas pessoas, nos auto promover (em alguns casos criando uma vida fictícia nas redes, o que já vem acarretando graves problemas psicológicos e depressão), ou até nos auto depreciar.

1082103974.png French photographer Emmanuelle Brisson

Uma das maneiras mais interessantes de conhecer uma pessoa hoje em dia é analisar suas postagens, saber o que ela deseja que os outros leiam, vejam e acessem. Com a ansiedade em opinar ou compartilhar visões sobre temas polêmicos e importantes, rapidamente deixamos nossa marca, damos nossos pitacos.

Vejo isso de modo positivo, nós postamos nossas incompletudes, nossos limites, porém, esse não é um motivo para não participar, não postar, vejo essa dinâmica como uma oportunidade para acurarmos nossas perspectivas, melhorarmos nosso entendimento através do diálogo que pode se estabelecer com visões distintas.

1082103951.png French photographer Emmanuelle Brisson

Obs: as fotos do post são de Emmanuele Brisson, entre seus ensaios a francesa tem um chamado "A incompletude" que pode ser visto em seu site. Recomendo.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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