Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

Doença lucrativa

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) 5% da população mundial sofre de depressão. No Brasil teríamos 10% da população depressiva, o dobro da média mundial e acima de países como EUA (7%) e França (8%). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) trás dados de que entre 2006 e 2010 18,45 milhões de caixas de antidepressivos foram vendidas no Brasil, um significativo aumento de 36% em relação ao período anterior.


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O Rivotril (antidepressivo) foi o segundo medicamento mais consumido no país nos últimos 2 anos, perdendo apenas para um anticoncepcional distribuído pelo SUS. O remédio faixa preta foi mais consumido do que paracetamol e pomadas para assadura, por exemplo. Dados da IMS Health consultoria.

Esse processo é acompanhado por um boom de diagnósticos de depressão, bastante atrelado ao imperativo da felicidade permanente que vivemos. Hoje ou somos empreendedores de si mesmos, performáticos em nossas relações sociais, ou fugimos da curva, da "normalidade" de comportamento.

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Os interesses da indústria farmacêutica, que patrocina inúmeros eventos de psiquiatria que debatem sintomas e diagnósticos de depressão (para os quais oferece solução), somados a esse cenário que vincula a felicidade a uma euforia estendida, em geral, ligada ao consumo, conformam a parceria perfeita no capitalismo contemporâneo.

A depressão é uma doença existente e grave, porém, a proporção exponencial com que seu diagnóstico vem crescendo, pari passo ao aumento do consumo de antidepressivos, nos faz indagar por que em outros períodos históricos seus sintomas eram menos agressivos ou tratados de outra forma que não química?

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Enquanto buscarmos coletivamente um padrão homogênico de performance social e termos como modelo de felicidade o padrão de consumo estadunidense marcado pelo prazer imediato a qualquer custo, seremos uma sociedade cada vez mais doente, e, por consequência, cada vez mais medicada em razão das frustrações probabilisticamente óbvias, pois não há lugar no "sucesso e na felicidade" para todos.

A indústria farmacêutica e muitos médicos que enriquecem junto com essa epidemia de medicalização que vivemos agradecem. Precisamos de mais literatura, poesia, arte, filosofia e tempo para fruição e menos Rivotril, Prozac e assemelhados.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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